Às vezes
sou dedos sem arco
num lago legato
com portamentos
às vezes
Monday, August 28, 2006
Sunday, August 27, 2006
Aquilo ali em baixo ficou desarrimado, arritmado, confundado, deselegante e desairoso.
Vou tentar arranjar.
Salguei a neve
de um dia ao passado
gelado
Não sei o lugar
mas estava vazio
caiu aberto
esculpiu um rio
e é tão comprido
traça tão cheio
enche perdido
cresce p’lo meio
Chamo-lhe rio, pois
não sei o lugar
da neve sem frio
que é fonte de mar
[Adenda- apêndice.
Ficou pior. A répétition parece:
- Patáta patáka patica pató
e trálalé troleli trololo lo]
Vou tentar arranjar.
Salguei a neve
de um dia ao passado
gelado
Não sei o lugar
mas estava vazio
caiu aberto
esculpiu um rio
e é tão comprido
traça tão cheio
enche perdido
cresce p’lo meio
Chamo-lhe rio, pois
não sei o lugar
da neve sem frio
que é fonte de mar
[Adenda- apêndice.
Ficou pior. A répétition parece:
- Patáta patáka patica pató
e trálalé troleli trololo lo]
Friday, August 25, 2006
Monday, August 21, 2006
É engraçado ao olhar o mar, lembrar que os pontos de luz ao chegar são corpo de estrela viva. Ao tocar no mar reflectem as ondas no ar (com o timbre do sol) Outros mergulham, refractam; vão mais devagar.(a fotografia - grafia do fotão - é no lado esquerdo, uma imagem da galeria do HubbleSite, e no direito, o mar aqui à frente, tirada a semana passada)
Sunday, August 13, 2006
A profundidade não interessa, pois não?
Pode ser bem alto no cimo da cordilheira. Dentro de um tronco com musgo do mar. Lá tão alto é onde vou morar.
De manhã o mar nascerá. Vou atirar as pérolas ao céu; o sol vai gostar de as pentear. E o barco será tecido algodão com as cores das luas já penteadas, aureoladas. Irei pescar as músicas da floresta para que na festa os pássaros possam dançar.
Ao pôr do mar voltarei ao ramo da cerejeira, à festa da cordilheira.
Não importa a altura, pois não?
Pode ser bem alto no cimo da cordilheira. Dentro de um tronco com musgo do mar. Lá tão alto é onde vou morar.
De manhã o mar nascerá. Vou atirar as pérolas ao céu; o sol vai gostar de as pentear. E o barco será tecido algodão com as cores das luas já penteadas, aureoladas. Irei pescar as músicas da floresta para que na festa os pássaros possam dançar.
Ao pôr do mar voltarei ao ramo da cerejeira, à festa da cordilheira.
Não importa a altura, pois não?
Tuesday, August 08, 2006
E hoje nada de teses, hipóteses, hipotenusas ou arcos. Quero que tudo isso se baralhe.
A todas as horas. A cada hora uma nova ordem, um novo mundo. Deve ser do vinho. (bebi vinho – Monsaraz; um copo e meio)
Hora a hora; afinal após os primeiros três minutos, nada de importante aconteceu nos milhões de anos seguintes. Só quando o universo completou um milhão de anos de idade, nasceu o primeiro átomo. Mil milhões de anos, e o universo estava repleto de nuvens de hidrogénio e hélio rodopiando no espaço. A força chama os átomos ao centro, a velocidade aumenta, a energia multiplica-se. Dez milhões de anos depois, no centro contraído, a temperatura sobe a vinte milhões de graus fahrenheit. Deflagra a reacção nuclear, a energia flui para a superfície. Nasceu uma nova estrela. Hora a hora.
A todas as horas. A cada hora uma nova ordem, um novo mundo. Deve ser do vinho. (bebi vinho – Monsaraz; um copo e meio)
Hora a hora; afinal após os primeiros três minutos, nada de importante aconteceu nos milhões de anos seguintes. Só quando o universo completou um milhão de anos de idade, nasceu o primeiro átomo. Mil milhões de anos, e o universo estava repleto de nuvens de hidrogénio e hélio rodopiando no espaço. A força chama os átomos ao centro, a velocidade aumenta, a energia multiplica-se. Dez milhões de anos depois, no centro contraído, a temperatura sobe a vinte milhões de graus fahrenheit. Deflagra a reacção nuclear, a energia flui para a superfície. Nasceu uma nova estrela. Hora a hora.
Friday, August 04, 2006
Guerra – luta entre nações ou partidos, campanha, arte militar, hostilidades.
A guerra projecta-se no político, ultrapassa o domínio do individual.
Será assim?
“(...) o horror que nos convence de que o que ali se passou constitui um crime contra a humanidade, não reside no facto de, apesar de partilharem a humanidade com as suas vítimas, os assassinos os terem tratado como piolhos. Isso é demasiado abstracto. O horror consiste nos assassinos se terem recusado a imaginar-se no lugar das suas vítimas, ao contrário de todas as outras pessoas. Por outras palavras, fecharam os corações. O coração é a sede de uma faculdade, a compreensão, que nos permite partilhar, por vezes, a essência de outrem (...) Em cada dia há um novo holocausto e, no entanto, tanto quanto me consigo aperceber, a nossa essência moral permanece intocada. Não nos sentimos maculados.”
J. M. Coetzee
No domínio do político, cito Aristóteles
“Pertence à sabedoria, quer de cada homem tomado individualmente, quer de todo o Estado em geral, o dirigir as acções e a conduta para o melhor fim. Ora vários pensam que mandar nos semelhantes, se se faz de uma forma despótica, é uma grande injustiça; se se faz duma forma civilizada, não é uma injustiça, mas somente um obstáculo para a sua tranquilidade (...) Um legislador deve gravar profundamente no espírito do seu povo que aquilo que é bom para cada um em particular é igualmente bom para o Estado; que não é conveniente dedicar-se aos exercícios militares com a intenção de sujeitar aqueles que o não merecem; que tais exercícios só devem ter por finalidade o defender-se a si próprios da escravidão e até o tornar-se úteis aos vencidos. A finalidade não é dominar todo o mundo, mas unicamente os que não são capazes de bem usar da sua liberdade e que mereceram a escravidão por causa da sua malvadez”
(tratado da política, Aristóteles)
A “malvadez” lembra o “eixo do mal”.
A guerra - o mal – os maus.
O mundo não reproduz o conto de fadas onde os maus sofrem justos castigos e os bons vivem felizes para sempre. No mundo da humanidade os “maus” seguem e respeitam as ordens dos seus legisladores, e os “bons” não vivem felizes com as ordens dos “escravos da malvadez”.
Nunca estive num país islâmico, (quando eu era pequena, a minha mãe dizia-me que o meu trisavô era um príncipe árabe; se lhe perguntar hoje é bem capaz de reafirmar; a imaginação ocupa-lhe a história) não sei como sentem as suas leis, se as vivem ou se simplesmente as seguem. Sei, ou fazem-me saber, que a grande maioria dos muçulmanos não são extremistas, fanáticos. Sinto no entanto, que o Ocidente ficaria mais tranquilo se os infiéis se convertessem, não ao cristianismo, mas à democracia, ao Estado de direito, ao secularismo.
Já há um tempo chegou-me aqui a casa um livro pelo correio, cujo destinatário era o Eduardo Prado Coelho. Deduzo que aqui morou, e não sabendo eu como o devolver, sendo um livro, paciência, desculpe lá ó Eduardo, fiquei-lhe com o livro. É uma compilação das intervenções de alguns oradores num curso livre de História Contemporânea, cujo tema foi, a globalização e democracia.
Uma das oradoras, Teresa Patrício Gouveia, afirma que em meados do séc. XXI, a civilização ocidental representará apenas 1 a 5% da população mundial (devo dizer que este número me espanta, não sei se terá algum fundamento real). Mas seja qual for a percentagem – “talvez tenhamos, sabiamente, que aceitar, nas sociedades, a conflitualidade; de compreender que os homens não querem todos as mesmas coisas; que os valores que adoptámos estão eles mesmos em conflito” Isaiah Berlin ( Four essays on liberty)
A guerra projecta-se no político, ultrapassa o domínio do individual.
Será assim?
“(...) o horror que nos convence de que o que ali se passou constitui um crime contra a humanidade, não reside no facto de, apesar de partilharem a humanidade com as suas vítimas, os assassinos os terem tratado como piolhos. Isso é demasiado abstracto. O horror consiste nos assassinos se terem recusado a imaginar-se no lugar das suas vítimas, ao contrário de todas as outras pessoas. Por outras palavras, fecharam os corações. O coração é a sede de uma faculdade, a compreensão, que nos permite partilhar, por vezes, a essência de outrem (...) Em cada dia há um novo holocausto e, no entanto, tanto quanto me consigo aperceber, a nossa essência moral permanece intocada. Não nos sentimos maculados.”
J. M. Coetzee
No domínio do político, cito Aristóteles
“Pertence à sabedoria, quer de cada homem tomado individualmente, quer de todo o Estado em geral, o dirigir as acções e a conduta para o melhor fim. Ora vários pensam que mandar nos semelhantes, se se faz de uma forma despótica, é uma grande injustiça; se se faz duma forma civilizada, não é uma injustiça, mas somente um obstáculo para a sua tranquilidade (...) Um legislador deve gravar profundamente no espírito do seu povo que aquilo que é bom para cada um em particular é igualmente bom para o Estado; que não é conveniente dedicar-se aos exercícios militares com a intenção de sujeitar aqueles que o não merecem; que tais exercícios só devem ter por finalidade o defender-se a si próprios da escravidão e até o tornar-se úteis aos vencidos. A finalidade não é dominar todo o mundo, mas unicamente os que não são capazes de bem usar da sua liberdade e que mereceram a escravidão por causa da sua malvadez”
(tratado da política, Aristóteles)
A “malvadez” lembra o “eixo do mal”.
A guerra - o mal – os maus.
O mundo não reproduz o conto de fadas onde os maus sofrem justos castigos e os bons vivem felizes para sempre. No mundo da humanidade os “maus” seguem e respeitam as ordens dos seus legisladores, e os “bons” não vivem felizes com as ordens dos “escravos da malvadez”.
Nunca estive num país islâmico, (quando eu era pequena, a minha mãe dizia-me que o meu trisavô era um príncipe árabe; se lhe perguntar hoje é bem capaz de reafirmar; a imaginação ocupa-lhe a história) não sei como sentem as suas leis, se as vivem ou se simplesmente as seguem. Sei, ou fazem-me saber, que a grande maioria dos muçulmanos não são extremistas, fanáticos. Sinto no entanto, que o Ocidente ficaria mais tranquilo se os infiéis se convertessem, não ao cristianismo, mas à democracia, ao Estado de direito, ao secularismo.
Já há um tempo chegou-me aqui a casa um livro pelo correio, cujo destinatário era o Eduardo Prado Coelho. Deduzo que aqui morou, e não sabendo eu como o devolver, sendo um livro, paciência, desculpe lá ó Eduardo, fiquei-lhe com o livro. É uma compilação das intervenções de alguns oradores num curso livre de História Contemporânea, cujo tema foi, a globalização e democracia.
Uma das oradoras, Teresa Patrício Gouveia, afirma que em meados do séc. XXI, a civilização ocidental representará apenas 1 a 5% da população mundial (devo dizer que este número me espanta, não sei se terá algum fundamento real). Mas seja qual for a percentagem – “talvez tenhamos, sabiamente, que aceitar, nas sociedades, a conflitualidade; de compreender que os homens não querem todos as mesmas coisas; que os valores que adoptámos estão eles mesmos em conflito” Isaiah Berlin ( Four essays on liberty)
Monday, July 24, 2006
Monday, July 17, 2006
Já aqui falei no Zé. Mendigava, consumia, ressacava, mendigava. Contou-me, e eu acreditei, que a mãe o deixou com a avó ainda antes de ter feito um ano. O pai já o tinha deixado com a mãe durante a gravidez. Cresceu com a avó. Sem sapatos não pode ir à escola, a professora não o deixava entrar descalço na sala. O Zé não sabe ler nem escrever. Fumou pela primeira vez aos cinco anos e apanhou a sua primeira piela aos sete, numa pescaria. Tão grande foi a bebedeira, que caiu da bicicleta quando tentou regressar a casa e ali ficou inconsciente até ao anoitecer. Aos doze começou a trabalhar como servente de pedreiro e dois ou três anos mais tarde já fazia serventia a traficantes.
Na última noite que aqui jantou, antes de entrar para a comunidade onde está em tratamento, dizia assim aos meus filhos:" - Vocês não têm blocos vermelhos? Pois então, os blocos vermelhos comem os blocos brancos. E depois um gajo constipa-se e pode morrer. O HIV é quando é assim o princípio da doença, e a sida é quando a doença já está mesmo na morte."
Com ele aprendi como fazer um alambique na prisão. Corta-se um garrafão de lixívia de cinco litros, vazio, está claro! Com duas colheres e um pau no meio faz-se a resistência. Separa-se uma das extremidades de um fio eléctrico e une-se a cada uma das colheres; a outra extremidade liga-se à corrente eléctrica. Põe-se a chicha (fruta e pão que fermentaram quinze dias antes, dentro de um balde) no garrafão e mergulha-se a resistência lá no meio. Faz-se um orifício num dos lados e introduz-se um tubo de cobre. Esse tubo sai do garrafão, e passa dentro de um lavatório com água fria. É necessário deixar sempre um fio de água a correr na torneira para que a água não aqueça. Finalmente, termina dentro de uma garrafa, para onde pinga a aguardente destilada.
Aprendi muitas outras coisas. Como fazer uma "máquina" de tatuagens ou o que fazer em caso de overdose. Aprendi que o limão estragado, quando usado na preparação da "dose" provoca febre muito alta; que a ressaca provoca um descontrolo completo do organismo, desde as insónias ou dores musculares, aos vómitos e diarreias.
A manhã é a pior parte do dia, até se "orientarem", para a primeira dose. Mais que uma vez, ao abrir a porta de manhã, encontrei o Zé deitado no chão, agarrado ao estômago a gemer.
Um destes sábados visitei o Zé na comunidade onde faz tratamento. Comigo foi o Carlos, amigo e coabitante do mesmo carro abandonado; companheiro de expediente nos parques de estacionamento, nos peditórios à porta da igreja, nos pequenos furtos em supermercados. O Carlos também está em recuperação, mas num programa em regime mais aberto, podendo sair com alguém que se responsabilize por ele.
Engordou onze quilos, o Zé. A dicção também melhorou consideravelmente, apesar de continuar sem nenhum dente. Está dolorosamente resoluto. A coisa não parece fácil. No dia anterior à nossa visita tinha tido "reunião de sentimentos", evento a que eles (os utentes do pavilhão primário - primeira fase do tratamento) chamam a "passerelle". Daquilo que me contou, ficou-me a ideia de um apedrejamento terapêutico. Não é uma exposição feita por ele ao resto da assembleia (constituída pelos colegas de tratamento que com ele partilham o pavilhão primário - cerca de vinte). Passa-se ao contrário. Os colegas, um a um, apontam-lhe todos os defeitos que em dois meses de convívio enclausurado puderam descortinar. E o objectivo é, segundo as palavras do Carlos, que também ali esteve em tratamento, mas que não aguentou mais de quatro ou cinco meses; o objectivo diz então ele, é "encontrar as feridas e enfiar o dedo lá dentro, rodando afincadamente até ao osso." E o que se tira daqui? É um exorcismo; espera-se no fim uma explosão de raiva, uma fúria catártica, qualquer coisa de - sai daí ó demónio. E pronto! Ao Zé descobriu-se-lhe o seu orgulho exagerado e o seu uso desenfreado da manipulação (que por coincidência são adjectivos que rotulam qualquer adicto). Depois da descarga apoteótica do "modelo na passadeira" vem o reconhecimento de que falhas de carácter são humanas, mas que terão que ser sempre reconhecidas.
Sei que a taxa de sucesso na recuperação de toxicodependentes e alcoólicos nesta comunidade é das mais elevadas no país. Não sei como justificar os meios.
Na última noite que aqui jantou, antes de entrar para a comunidade onde está em tratamento, dizia assim aos meus filhos:" - Vocês não têm blocos vermelhos? Pois então, os blocos vermelhos comem os blocos brancos. E depois um gajo constipa-se e pode morrer. O HIV é quando é assim o princípio da doença, e a sida é quando a doença já está mesmo na morte."
Com ele aprendi como fazer um alambique na prisão. Corta-se um garrafão de lixívia de cinco litros, vazio, está claro! Com duas colheres e um pau no meio faz-se a resistência. Separa-se uma das extremidades de um fio eléctrico e une-se a cada uma das colheres; a outra extremidade liga-se à corrente eléctrica. Põe-se a chicha (fruta e pão que fermentaram quinze dias antes, dentro de um balde) no garrafão e mergulha-se a resistência lá no meio. Faz-se um orifício num dos lados e introduz-se um tubo de cobre. Esse tubo sai do garrafão, e passa dentro de um lavatório com água fria. É necessário deixar sempre um fio de água a correr na torneira para que a água não aqueça. Finalmente, termina dentro de uma garrafa, para onde pinga a aguardente destilada.
Aprendi muitas outras coisas. Como fazer uma "máquina" de tatuagens ou o que fazer em caso de overdose. Aprendi que o limão estragado, quando usado na preparação da "dose" provoca febre muito alta; que a ressaca provoca um descontrolo completo do organismo, desde as insónias ou dores musculares, aos vómitos e diarreias.
A manhã é a pior parte do dia, até se "orientarem", para a primeira dose. Mais que uma vez, ao abrir a porta de manhã, encontrei o Zé deitado no chão, agarrado ao estômago a gemer.
Um destes sábados visitei o Zé na comunidade onde faz tratamento. Comigo foi o Carlos, amigo e coabitante do mesmo carro abandonado; companheiro de expediente nos parques de estacionamento, nos peditórios à porta da igreja, nos pequenos furtos em supermercados. O Carlos também está em recuperação, mas num programa em regime mais aberto, podendo sair com alguém que se responsabilize por ele.
Engordou onze quilos, o Zé. A dicção também melhorou consideravelmente, apesar de continuar sem nenhum dente. Está dolorosamente resoluto. A coisa não parece fácil. No dia anterior à nossa visita tinha tido "reunião de sentimentos", evento a que eles (os utentes do pavilhão primário - primeira fase do tratamento) chamam a "passerelle". Daquilo que me contou, ficou-me a ideia de um apedrejamento terapêutico. Não é uma exposição feita por ele ao resto da assembleia (constituída pelos colegas de tratamento que com ele partilham o pavilhão primário - cerca de vinte). Passa-se ao contrário. Os colegas, um a um, apontam-lhe todos os defeitos que em dois meses de convívio enclausurado puderam descortinar. E o objectivo é, segundo as palavras do Carlos, que também ali esteve em tratamento, mas que não aguentou mais de quatro ou cinco meses; o objectivo diz então ele, é "encontrar as feridas e enfiar o dedo lá dentro, rodando afincadamente até ao osso." E o que se tira daqui? É um exorcismo; espera-se no fim uma explosão de raiva, uma fúria catártica, qualquer coisa de - sai daí ó demónio. E pronto! Ao Zé descobriu-se-lhe o seu orgulho exagerado e o seu uso desenfreado da manipulação (que por coincidência são adjectivos que rotulam qualquer adicto). Depois da descarga apoteótica do "modelo na passadeira" vem o reconhecimento de que falhas de carácter são humanas, mas que terão que ser sempre reconhecidas.
Sei que a taxa de sucesso na recuperação de toxicodependentes e alcoólicos nesta comunidade é das mais elevadas no país. Não sei como justificar os meios.
Wednesday, July 12, 2006
Os aniversários dizem outra vez.
O improptum tem um ano. Fez desta vez.
Um ano passado, com tantas faltas. E a justificação não é aceitável. Faltei ao blogue porque não parece ser fácil a quem lê, acreditar nas minhas "histórias".
Quando escrevo, confundo. As palavras intimidam-me, transmutam-se.
Só prova que aprendi muito pouco. Chumbei.
Tenho feito muitas perguntas. Devia tentar responder.
Lá em baixo, perguntava porque é que as crianças nos seus traços informes procuram tudo o que é redondo.
Acho que procuram o limite da forma diferenciada.
A interacção gravitacional (interacção de intensidade muito fraca, sempre atractiva, de longo alcance, abrangendo todas as partículas) é muito fraca à escala das partículas; torna-se no entanto preponderante à escala macroscópica. O facto de ser sempre atractiva faz com que se acumule eficazmente. A força gravitacional é cumulativa. As interacções electromagnéticas não possuem esta propriedade; são atractivas ou repulsivas segundo o sinal das cargas em presença, apesar da neutralidade eléctrica da matéria anular os seus efeitos a longa distância.
"Um objecto compacto de massa fraca é dominado pela interacção electromagnética. Ele pode, por isso, ter qualquer forma: mesa, garrafa, bicicleta... Mas quando a quantidade de matéria em causa ultrapassa um certo limiar, as forças de gravitação acabam por se sobrepor às forças eléctricas e o objecto em questão apenas pode existir sob uma forma grosso modo esférica. Assim, os planetas e as estrelas somente podem ser redondos, enquanto os asteróides com um raio inferior a 300 Km têm ainda o direito de possuir formas irregulares."
Étienne Klein. Sob o átomo, as partículas.
As crianças procuram com os seus primeiros traços desenhar o redondo
O redondo é grosso modo o limite da forma diferenciada
post hoc, ergo propter hoc
As crianças procuram o limite da forma diferenciada
Poderia dizer que procuram a forma esférica porque é a forma que apresenta a menor área de superfície para um dado volume; a forma que apresenta melhor resistência à pressão exterior. Mas, diz-me o bom senso que as crianças gostam de grandes superfícies; e não sabem defender-se das pressões exteriores.
Há mais respostas, claro. Esta poderia ser a do Renatus Cartesius - as crianças procuram o grande espírito.
" (...)Todos os corpos líquidos ou gasosos suspensos no ar têm a forma esférica, (...) Assim a energia que chamamos de espírito também obedece a este sistema. Quando nascemos temos esta energia esférica muito pronunciada e o sistema funciona da seguinte maneira, - no começo somos menos matéria e mais energia (...) "
Regulae ad directionem ingenii - regras para a direcção do espírito
René Descartes, o do "penso, logo existo"
Respostas estão no tudo. Para responder escolhe-se a parte "simples" e zás, aplica-se a lógica da síntese. Há resposta, no que existe. Existe, logo cogito.
A propósito de redondo; tenho-me comportado aqui como um quadrado, uma besta-quadrada. Peço desculpa aos redondos/as. E também aos bicudos/as.
O improptum tem um ano. Fez desta vez.
Um ano passado, com tantas faltas. E a justificação não é aceitável. Faltei ao blogue porque não parece ser fácil a quem lê, acreditar nas minhas "histórias".
Quando escrevo, confundo. As palavras intimidam-me, transmutam-se.
Só prova que aprendi muito pouco. Chumbei.
Tenho feito muitas perguntas. Devia tentar responder.
Lá em baixo, perguntava porque é que as crianças nos seus traços informes procuram tudo o que é redondo.
Acho que procuram o limite da forma diferenciada.
A interacção gravitacional (interacção de intensidade muito fraca, sempre atractiva, de longo alcance, abrangendo todas as partículas) é muito fraca à escala das partículas; torna-se no entanto preponderante à escala macroscópica. O facto de ser sempre atractiva faz com que se acumule eficazmente. A força gravitacional é cumulativa. As interacções electromagnéticas não possuem esta propriedade; são atractivas ou repulsivas segundo o sinal das cargas em presença, apesar da neutralidade eléctrica da matéria anular os seus efeitos a longa distância.
"Um objecto compacto de massa fraca é dominado pela interacção electromagnética. Ele pode, por isso, ter qualquer forma: mesa, garrafa, bicicleta... Mas quando a quantidade de matéria em causa ultrapassa um certo limiar, as forças de gravitação acabam por se sobrepor às forças eléctricas e o objecto em questão apenas pode existir sob uma forma grosso modo esférica. Assim, os planetas e as estrelas somente podem ser redondos, enquanto os asteróides com um raio inferior a 300 Km têm ainda o direito de possuir formas irregulares."
Étienne Klein. Sob o átomo, as partículas.
As crianças procuram com os seus primeiros traços desenhar o redondo
O redondo é grosso modo o limite da forma diferenciada
post hoc, ergo propter hoc
As crianças procuram o limite da forma diferenciada
Poderia dizer que procuram a forma esférica porque é a forma que apresenta a menor área de superfície para um dado volume; a forma que apresenta melhor resistência à pressão exterior. Mas, diz-me o bom senso que as crianças gostam de grandes superfícies; e não sabem defender-se das pressões exteriores.
Há mais respostas, claro. Esta poderia ser a do Renatus Cartesius - as crianças procuram o grande espírito.
" (...)Todos os corpos líquidos ou gasosos suspensos no ar têm a forma esférica, (...) Assim a energia que chamamos de espírito também obedece a este sistema. Quando nascemos temos esta energia esférica muito pronunciada e o sistema funciona da seguinte maneira, - no começo somos menos matéria e mais energia (...) "
Regulae ad directionem ingenii - regras para a direcção do espírito
René Descartes, o do "penso, logo existo"
Respostas estão no tudo. Para responder escolhe-se a parte "simples" e zás, aplica-se a lógica da síntese. Há resposta, no que existe. Existe, logo cogito.
A propósito de redondo; tenho-me comportado aqui como um quadrado, uma besta-quadrada. Peço desculpa aos redondos/as. E também aos bicudos/as.
Saturday, April 22, 2006
Apetece-me estabelecer como postulado:
A poesia desloca-se de um ponto ao outro no plano espacial sem direcção temporal.
(a velocidade deste deslocamento será infinita, já que a velocidade inclui um deslocamento pelo intervalo de tempo - que na poesia é zero)
Feito um postulado, vou escrever à poesia.
Olha, porque não me ensinas
onde se pousam momentos?
Sem tempo e com tal tamanho
como paro os movimentos?
Onde se aportam as asas?
Como vou prender os ventos?
A poesia desloca-se de um ponto ao outro no plano espacial sem direcção temporal.
(a velocidade deste deslocamento será infinita, já que a velocidade inclui um deslocamento pelo intervalo de tempo - que na poesia é zero)
Feito um postulado, vou escrever à poesia.
Olha, porque não me ensinas
onde se pousam momentos?
Sem tempo e com tal tamanho
como paro os movimentos?
Onde se aportam as asas?
Como vou prender os ventos?
Friday, April 14, 2006
A teoria do centésimo macaco - consciência colectiva
Toda a gente tem uma ideia do que é um campo magnético ( quem não brincou com um íman, uma folha de papel e um qualquer pequeno objecto de ferro? ) Agora imagine-se um campo afectando toda a região à sua volta. Campo esse que molde a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material, actuando sobre qualquer sistema que apresente algum tipo de organização inerente. Haveria um campo específico para cada estrutura de ordem - átomos, moléculas, cristais, organelas ... sistemas solares, galáxias. A esses campos " formadores" chamou Rupert Sheldrake - campos mórficos.
Para nos dar uma ideia da teoria:
" Era uma vez duas ilhas tropicais, habitadas pela mesma espécie de macaco, mas sem qualquer contacto perceptível entre si. Um símio da ilha A descobre uma maneira engenhosa de quebrar cocos, que lhe permite aproveitar melhor a água e a polpa. Ninguém ainda tinha partido os cocos dessa forma. Por imitação, o procedimento rápidamente se difunde entre os seus companheiros e logo uma população crítica de 99 macacos domina a nova metodologia. Quando o centésimo símio da ilha A aprende a técnica recém-descoberta, os macacos da ilha B começam espontaneamente a quebrar cocos da mesma maneira."
A partir do momento em que o centésimo macaco adopta o mesmo comportamento cria-se uma consciência no hábito da espécie - um campo mórfico. ( a história dos macaquinhos não é verídica )
O conhecimento adquirido torna-se património colectivo, memória e consciência colectiva da espécie.
E como se propaga a informação nos campos mórficos? Bom, a isso chamou Sheldrake ressonância mórfica. E como? "(...) a ressonância mórfica é um processo básico, difuso e não intencional (...)". Segundo o biólogo os campos mórficos não utilizam energia, por isso a intensidade não decai com a distância. O que se transmite através deles é informação pura. Actuam sobre a matéria impondo padrões restritivos sobre processos energéticos cujos resultados são indeterminados ou probabilísticos.
Apresenta como "exemplo real " o comportamento de novas substâncias químicas sintetizadas em laboratório.
" (...) Dependendo das características da molécula, várias formas de cristalização são possíveis. Por acaso ou pela intervenção de factores puramente circunstanciais, uma dessas possibilidades efectiva-se e a substância segue um padrão determinado de cristalização. Uma vez que isso ocorra, porém, um novo campo mórfico passa a existir. A partir de então, a ressonância mórfica gerada pelos primeiros cristais faz com que a ocorrência do mesmo padrão de cristalização se torne mais provável em qualquer laboratório do mundo. E quanto mais vezes ele se efectivar, maior será a probalidade de que aconteça novamente em experiências futuras."
A ser verdade, estes campos "legisladores" ao preço da quantidade oferecer-nos-iam informação pura, mas sem discernimento de conteúdos. Consciência de massas, a partir da repetição.
As estruturas existentes seriam um produto de fenómenos semelhantes, transmitidos sem energia.
A ordem das minhas ideias não acredita nesta hipótese dos campos mórficos; se mais noventa e nove macacos passassem aqui e se juntassem à minha opinião, tínhamos a teoria da consciência colectiva negada. Ou sendo mais precisa; teríamos um campo mórfico da negação dele próprio.
Para nos dar uma ideia da teoria:
" Era uma vez duas ilhas tropicais, habitadas pela mesma espécie de macaco, mas sem qualquer contacto perceptível entre si. Um símio da ilha A descobre uma maneira engenhosa de quebrar cocos, que lhe permite aproveitar melhor a água e a polpa. Ninguém ainda tinha partido os cocos dessa forma. Por imitação, o procedimento rápidamente se difunde entre os seus companheiros e logo uma população crítica de 99 macacos domina a nova metodologia. Quando o centésimo símio da ilha A aprende a técnica recém-descoberta, os macacos da ilha B começam espontaneamente a quebrar cocos da mesma maneira."
A partir do momento em que o centésimo macaco adopta o mesmo comportamento cria-se uma consciência no hábito da espécie - um campo mórfico. ( a história dos macaquinhos não é verídica )
O conhecimento adquirido torna-se património colectivo, memória e consciência colectiva da espécie.
E como se propaga a informação nos campos mórficos? Bom, a isso chamou Sheldrake ressonância mórfica. E como? "(...) a ressonância mórfica é um processo básico, difuso e não intencional (...)". Segundo o biólogo os campos mórficos não utilizam energia, por isso a intensidade não decai com a distância. O que se transmite através deles é informação pura. Actuam sobre a matéria impondo padrões restritivos sobre processos energéticos cujos resultados são indeterminados ou probabilísticos.
Apresenta como "exemplo real " o comportamento de novas substâncias químicas sintetizadas em laboratório.
" (...) Dependendo das características da molécula, várias formas de cristalização são possíveis. Por acaso ou pela intervenção de factores puramente circunstanciais, uma dessas possibilidades efectiva-se e a substância segue um padrão determinado de cristalização. Uma vez que isso ocorra, porém, um novo campo mórfico passa a existir. A partir de então, a ressonância mórfica gerada pelos primeiros cristais faz com que a ocorrência do mesmo padrão de cristalização se torne mais provável em qualquer laboratório do mundo. E quanto mais vezes ele se efectivar, maior será a probalidade de que aconteça novamente em experiências futuras."
A ser verdade, estes campos "legisladores" ao preço da quantidade oferecer-nos-iam informação pura, mas sem discernimento de conteúdos. Consciência de massas, a partir da repetição.
As estruturas existentes seriam um produto de fenómenos semelhantes, transmitidos sem energia.
A ordem das minhas ideias não acredita nesta hipótese dos campos mórficos; se mais noventa e nove macacos passassem aqui e se juntassem à minha opinião, tínhamos a teoria da consciência colectiva negada. Ou sendo mais precisa; teríamos um campo mórfico da negação dele próprio.
Saturday, April 08, 2006
Wednesday, March 08, 2006
Frida Khalo
É só uma tela nas cerdas frementes
que pinta, repinta com cabos de dor
É só uma corda na crina tremente
que rincha, relincha com arcos de cor
Só um pincel
quilha voante
de corda dorsal
que pinta, repinta com cabos de dor
É só uma corda na crina tremente
que rincha, relincha com arcos de cor
Só um pincel
quilha voante
de corda dorsal
Friday, March 03, 2006
Quando aqui venho, volto ali abaixo e leio aquilo que me pareceu uma inequação ( da Shophia Andresen).
Não é uma inequação. São frases. Contraponto, que se pode sujeitar a inversões e a cruzamento de vozes, beneficiando assim os movimentos melódicos.
Espero ter resolvido a charada. (descobrir é novo, aprender é acrescentar)
A música é número e é frase.
A música é onda longitudinal, fenómeno físico, perturbação oscilante.
É tudo mais que isto.
Não é uma inequação. São frases. Contraponto, que se pode sujeitar a inversões e a cruzamento de vozes, beneficiando assim os movimentos melódicos.
Espero ter resolvido a charada. (descobrir é novo, aprender é acrescentar)
A música é número e é frase.
A música é onda longitudinal, fenómeno físico, perturbação oscilante.
É tudo mais que isto.
Tuesday, February 28, 2006
Wednesday, February 22, 2006
Não deve ser poesia aquilo que ali escrevi, não fiquei paralalética.
Inventei um poemómetro.
Estou mais tranquila, o meu pai continua a melhorar. Já respira sozinho, alimenta-se com sopa (ainda num tubo) e o coração está a restabelecer.
Enganei-me no nome do Hospital. É Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil. Está escrito na colcha da cama.
No segundo piso fica o bloco operatório, se repararem nas ombreiras das portas verão que a tinta está lascada numa altura que corresponde rigorosamente à altura das macas.
Inventei um poemómetro.
Estou mais tranquila, o meu pai continua a melhorar. Já respira sozinho, alimenta-se com sopa (ainda num tubo) e o coração está a restabelecer.
Enganei-me no nome do Hospital. É Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil. Está escrito na colcha da cama.
No segundo piso fica o bloco operatório, se repararem nas ombreiras das portas verão que a tinta está lascada numa altura que corresponde rigorosamente à altura das macas.
Tuesday, February 21, 2006
Friday, February 17, 2006
Não devia ter falado assim.
Tinha estado na sala dos cuidados intensivos com o meu pai, tinha discutido com a enfermeira, tinha chorado.
Quando cheguei, tinha uma namorada de um amigo, que chorava, com a sua bebé, que vomitava. Ficaram para jantar.
E também há o Zé, um dos mendigos (eu sei o nome de todos os mendigos com quem falo). Ontem o Zé também chorou, tinha consumido mas tinha dores. Queria atirar-se para debaixo do comboio, queria falar, queria que eu o ouvisse. Queria ser gente.
(Este blog está transformado num diário)
Tinha estado na sala dos cuidados intensivos com o meu pai, tinha discutido com a enfermeira, tinha chorado.
Quando cheguei, tinha uma namorada de um amigo, que chorava, com a sua bebé, que vomitava. Ficaram para jantar.
E também há o Zé, um dos mendigos (eu sei o nome de todos os mendigos com quem falo). Ontem o Zé também chorou, tinha consumido mas tinha dores. Queria atirar-se para debaixo do comboio, queria falar, queria que eu o ouvisse. Queria ser gente.
(Este blog está transformado num diário)
Thursday, February 16, 2006
Na sexta-feira passada, às três da tarde, uma equipa de cirurgiões do Hospital de Oncologia serrou as costelas do meu pai.
Não é uma imagem metafórica, se fosse escreveria qualquer disparate como - Ontem levei o piano para cima da bancada de mármore. Disseram-me que o deitasse, só assim ficaria vivo. E com uma grosa limaram as cordas .
Cortaram-lhe o lóbulo superior esquerdo do pulmão.
Anteontem teve um enfarte do miocárdio, e os visionários médicos verificaram que a expectoração que se acumulou no três quartos de pulmão originou uma pneumonia.
Está nos cuidados intensivos, sedado e estável. Não é uma alegoria, é mesmo a vida do meu pai.
A vida do meu pai está presa, não por um fio, mas por vinte tubos de diâmetros diferentes.
( Desculpem o amargo, é evidente que a literatura não tem culpa, talvez nem mesmo os médicos;... é a vida )
Não é uma imagem metafórica, se fosse escreveria qualquer disparate como - Ontem levei o piano para cima da bancada de mármore. Disseram-me que o deitasse, só assim ficaria vivo. E com uma grosa limaram as cordas .
Cortaram-lhe o lóbulo superior esquerdo do pulmão.
Anteontem teve um enfarte do miocárdio, e os visionários médicos verificaram que a expectoração que se acumulou no três quartos de pulmão originou uma pneumonia.
Está nos cuidados intensivos, sedado e estável. Não é uma alegoria, é mesmo a vida do meu pai.
A vida do meu pai está presa, não por um fio, mas por vinte tubos de diâmetros diferentes.
( Desculpem o amargo, é evidente que a literatura não tem culpa, talvez nem mesmo os médicos;... é a vida )
Monday, February 13, 2006
Descobri que a poesia me deixa com paralalia (desaparecimento permanente ou temporário da fala).
“O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome é a sua moral. E não há outra.Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade (...) é impossível destrinçar o que é da razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse “pastor do Ser”, na tão bela expressão de Heidegger, é, como nenhum outro homem, nostálgico de uma antiga unidade (...) Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem.
(...) Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis – a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens.
(...) Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?(...) "
Eugénio de Andrade. Poesia e prosa.
Os dois últimos parágrafos parecem ter a fatalidade de um terrível sortilégio. Criar poesia é então a mais dura das sinas, o abdicar da vida para dar lugar à obra que só servirá os outros. Uma paixão de Cristo gota a sílaba? Será verdade? Ao fim de quantos poemas estará morto o poeta?
A ideia da criação poética como um esvaziamento da vida aparece também em autores como Herman Hesse (viagem ao país da manhã) ou José Régio (três ensaios sobre arte). Será uma proposição verdadeira? Como fundamentar esta asserção? A ser verdadeira a mutilação da vida pela arte, estranho como lhes terá sido possível escrever roubando à vida. Até onde terão chegado?
Talvez aqui – “ palavra inaugural, óvulo e matriz de todas as iluminações e de todas as metamorfoses” (Albano Martins. Do mundo grego outro sol)
Também encontrei esta inequação
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.
O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais.
Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Sophia de Mello Breyner Andresen
( como se resolverão inequações com “mas”?)
Olhem, e mais isto:
[Neste livro são relatadas uma série de conferências proferidas na Universidade de Princeton entre 1997/98. Coetzee, romancista, propõe a sua conferência em forma de ficção. Cria um evento académico (acaba por ser uma conferência ficcionada, dentro de uma conferência ), e a convidada que expõe as duas comunicações é também uma romancista, que escolhe como tema, não a literatura, mas sim o abuso dos humanos para com os animais ]
“ A poesia não faz nada acontecer, escreveu W. H. Auden. Mas é verdade? E deve ser verdade? O que tem a poesia a oferecer, o que tem a linguagem a oferecer, com excepção da arte da palavra? Nestas duas elegantes comunicações, pensámos que John Coetzee estava a falar de animais. Será possível que, durante todo o tempo, ele estivesse realmente a perguntar: - Qual o valor da literatura? “
J. M. Coetzee. As vidas dos animais
Já aqui disse que para mim as palavras não são exactamente nada, e por não serem exactas são tão fascinantes e inquietas como as pessoas.
“O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome é a sua moral. E não há outra.Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade (...) é impossível destrinçar o que é da razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse “pastor do Ser”, na tão bela expressão de Heidegger, é, como nenhum outro homem, nostálgico de uma antiga unidade (...) Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem.
(...) Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis – a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens.
(...) Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?(...) "
Eugénio de Andrade. Poesia e prosa.
Os dois últimos parágrafos parecem ter a fatalidade de um terrível sortilégio. Criar poesia é então a mais dura das sinas, o abdicar da vida para dar lugar à obra que só servirá os outros. Uma paixão de Cristo gota a sílaba? Será verdade? Ao fim de quantos poemas estará morto o poeta?
A ideia da criação poética como um esvaziamento da vida aparece também em autores como Herman Hesse (viagem ao país da manhã) ou José Régio (três ensaios sobre arte). Será uma proposição verdadeira? Como fundamentar esta asserção? A ser verdadeira a mutilação da vida pela arte, estranho como lhes terá sido possível escrever roubando à vida. Até onde terão chegado?
Talvez aqui – “ palavra inaugural, óvulo e matriz de todas as iluminações e de todas as metamorfoses” (Albano Martins. Do mundo grego outro sol)
Também encontrei esta inequação
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.
O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais.
Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Sophia de Mello Breyner Andresen
( como se resolverão inequações com “mas”?)
Olhem, e mais isto:
[Neste livro são relatadas uma série de conferências proferidas na Universidade de Princeton entre 1997/98. Coetzee, romancista, propõe a sua conferência em forma de ficção. Cria um evento académico (acaba por ser uma conferência ficcionada, dentro de uma conferência ), e a convidada que expõe as duas comunicações é também uma romancista, que escolhe como tema, não a literatura, mas sim o abuso dos humanos para com os animais ]
“ A poesia não faz nada acontecer, escreveu W. H. Auden. Mas é verdade? E deve ser verdade? O que tem a poesia a oferecer, o que tem a linguagem a oferecer, com excepção da arte da palavra? Nestas duas elegantes comunicações, pensámos que John Coetzee estava a falar de animais. Será possível que, durante todo o tempo, ele estivesse realmente a perguntar: - Qual o valor da literatura? “
J. M. Coetzee. As vidas dos animais
Já aqui disse que para mim as palavras não são exactamente nada, e por não serem exactas são tão fascinantes e inquietas como as pessoas.
Monday, January 09, 2006
Para 2006
Peço uma montanha que se oiça degelar
com torrentes a pulsar
os peixes dancem no ar
e as flores rebentem devagar
a cheirar
a beijar
as folhas acordadas
Que não parem sossegadas
as folhas todas pintadas
caminhem enfeitiçadas
iridescentes e enluaradas
Que o som se propague nos pulsares da torrente
as estrelas dancem na terra nascente
e a montanha rebente devagar no ar
deixando cascatas a flutuar
Peço uma montanha que se oiça degelar
com torrentes a pulsar
os peixes dancem no ar
e as flores rebentem devagar
a cheirar
a beijar
as folhas acordadas
Que não parem sossegadas
as folhas todas pintadas
caminhem enfeitiçadas
iridescentes e enluaradas
Que o som se propague nos pulsares da torrente
as estrelas dancem na terra nascente
e a montanha rebente devagar no ar
deixando cascatas a flutuar
Friday, December 30, 2005
Thursday, December 22, 2005
E no princípio era o verbo ...
"Enquanto os livros estão escritos em palavras de comprimento variável, utilizando vinte e seis letras, os genomas estão inteiramente escritos com palavras de três letras, utilizando apenas quatro letras: A, C, G e T ( que significam adenina, citosina, guanina e timina). E em vez de estarem escritos em páginas planas, estão escritos em longas cadeias de açucar e fosfato, chamadas moléculas de ADN, às quais as bases estão ligadas como escadas de mão laterais. Cada cromossoma é um par de moléculas ( muito) longas . Colocados de extremidade a extremidade e estendidos a direito, todos os cromossomas de uma única célula teriam um comprimento de cerca de 183 cm. Todos os cromossomas de todas as células de um corpo cobririam 160 mil milhões de quilómetros (...) A ideia do genoma como um livro não é, estritamente falando, sequer uma metáfora. É literalmente verdade. Um livro é um pedaço de informação digital, escrito de uma forma linear, unidimensional e unidireccional e definido por um código que transcreve um pequeno alfabeto de símbolos num grande léxico de significados através da ordem dos seus agrupamentos. Assim é o genoma."
Genoma. Matt Ridley, Gradiva
"Enquanto os livros estão escritos em palavras de comprimento variável, utilizando vinte e seis letras, os genomas estão inteiramente escritos com palavras de três letras, utilizando apenas quatro letras: A, C, G e T ( que significam adenina, citosina, guanina e timina). E em vez de estarem escritos em páginas planas, estão escritos em longas cadeias de açucar e fosfato, chamadas moléculas de ADN, às quais as bases estão ligadas como escadas de mão laterais. Cada cromossoma é um par de moléculas ( muito) longas . Colocados de extremidade a extremidade e estendidos a direito, todos os cromossomas de uma única célula teriam um comprimento de cerca de 183 cm. Todos os cromossomas de todas as células de um corpo cobririam 160 mil milhões de quilómetros (...) A ideia do genoma como um livro não é, estritamente falando, sequer uma metáfora. É literalmente verdade. Um livro é um pedaço de informação digital, escrito de uma forma linear, unidimensional e unidireccional e definido por um código que transcreve um pequeno alfabeto de símbolos num grande léxico de significados através da ordem dos seus agrupamentos. Assim é o genoma."
Genoma. Matt Ridley, Gradiva
Tuesday, December 20, 2005
Já estamos tão perto do Natal. Há tanto a fazer, a preparar. E eu gosto de cozinhar, de sentir o cheiro mais cheio. Cozinhar o Natal materializa memórias de paz.
Os meus filhos também preparam o Natal. Ensaiam canções, pintam Jesus bebé, recortam estrelas, e as duas meninas, com as primas, experimentam dançar como os anjos.
Faltam as prendas, ainda não comprei nenhuma. Vou passar estes dias nos centros comerciais à procura do que não está lá.
Os meus filhos também preparam o Natal. Ensaiam canções, pintam Jesus bebé, recortam estrelas, e as duas meninas, com as primas, experimentam dançar como os anjos.
Faltam as prendas, ainda não comprei nenhuma. Vou passar estes dias nos centros comerciais à procura do que não está lá.
Friday, December 16, 2005
A ciência do século XVII, até ao primeiro quarto do século XX , chegou a uma visão do mundo em que os acontecimentos seriam perfeitamente determinísticos, ou seja – o que acontece tem uma causa. (A física quântica com a interpretação mais correcta dos quanta, verificou que o determinismo não pode ser completo) .
Julgo que a ciência não tem a verdade, observa efeitos e procura as causas por exclusão. Mas cabe numa parte. É um retalho verosímel.
A justiça nunca é um retalho verosímel, precisa do todo.
O todo é ordenado? As injustiças serão partes desordenadas? As leis são ordens? As agraphoi nomoi – leis naturais, não escritas -, impulso de filantropia e solidariedade estarão presentes nos Homens? Sempre?
E a liberdade parece-me ainda mais complicada, com a sua dicotomia – autonomia/responsabilidade.
A autonomia, decidir e agir. A responsabilidade, os efeitos nos outros envolvidos que muitas vezes não têm responsabilidade na causa da decisão.
Compatibilizar liberdades , não será esse um dos maiores mistérios guardados no Universo?
Julgo que a ciência não tem a verdade, observa efeitos e procura as causas por exclusão. Mas cabe numa parte. É um retalho verosímel.
A justiça nunca é um retalho verosímel, precisa do todo.
O todo é ordenado? As injustiças serão partes desordenadas? As leis são ordens? As agraphoi nomoi – leis naturais, não escritas -, impulso de filantropia e solidariedade estarão presentes nos Homens? Sempre?
E a liberdade parece-me ainda mais complicada, com a sua dicotomia – autonomia/responsabilidade.
A autonomia, decidir e agir. A responsabilidade, os efeitos nos outros envolvidos que muitas vezes não têm responsabilidade na causa da decisão.
Compatibilizar liberdades , não será esse um dos maiores mistérios guardados no Universo?
Wednesday, December 14, 2005
Tenho andado doente, não gosto de estar doente. A boca sabe mal, o corpo assusta-se e treme.
Quando me doi a cabeça gosto de ler.
Então li.
Do Edgar Poe: O corvo e outros poemas, tradução de Fernando Pessoa.
Nas últimas páginas trazia uma análise à génese de um poema, feita e feito (a análise e o poema) pelo próprio Poe, à qual chamou - A filosofia da composição.
" (...) e visto que o interesse de uma tal análise ou construção, que considerei como um desideratum em literatura, é completamente independente de qualquer interesse real suposto na coisa analisada, não me acusarão de faltar às conveniências, se desvendar o modus operandi graças ao qual pude construir uma das minhas próprias obras (...) a minha intenção é demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído ao acaso ou à intuição, e que a obra avançou, passo a passo, para a solução, com a precisão e a lógica rigorosa de um problema matemático (...)"
Já não me doi a cabeça.
Então escrevi.
Prova o mar. Que sabor doce e quente tem?
(são rabanadas? ou aletria?
sabe-te a prosa ou poesia?)
É sal atirado pela Terra mãe.
Sente. Estátua metrificada?
(mexes na tinta? pintas com preto?
nadas frases, flutuas sonetos?)
Mar é pai de toda a vida criada.
Quando me doi a cabeça gosto de ler.
Então li.
Do Edgar Poe: O corvo e outros poemas, tradução de Fernando Pessoa.
Nas últimas páginas trazia uma análise à génese de um poema, feita e feito (a análise e o poema) pelo próprio Poe, à qual chamou - A filosofia da composição.
" (...) e visto que o interesse de uma tal análise ou construção, que considerei como um desideratum em literatura, é completamente independente de qualquer interesse real suposto na coisa analisada, não me acusarão de faltar às conveniências, se desvendar o modus operandi graças ao qual pude construir uma das minhas próprias obras (...) a minha intenção é demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído ao acaso ou à intuição, e que a obra avançou, passo a passo, para a solução, com a precisão e a lógica rigorosa de um problema matemático (...)"
Já não me doi a cabeça.
Então escrevi.
Prova o mar. Que sabor doce e quente tem?
(são rabanadas? ou aletria?
sabe-te a prosa ou poesia?)
É sal atirado pela Terra mãe.
Sente. Estátua metrificada?
(mexes na tinta? pintas com preto?
nadas frases, flutuas sonetos?)
Mar é pai de toda a vida criada.
Wednesday, December 07, 2005
Fiz girar a roda do leme. Ofereci a proa ao vento. As velas por um momento tornaram-se bambas, depois, sob o impulso do stretto, vibraram num movimento inconcebível.
As vagas inundaram o castelo de proa. A meia-nau, sinto violentos esticões provocados pelas correntes das âncoras.
O vento fala-me das sonoridades impressas no ar.
Em termos náuticos, o caminho seguido numa viagem por mar é chamado de derrota.
Este, ali em cima, ancorado, é a minha derrota.
As vagas inundaram o castelo de proa. A meia-nau, sinto violentos esticões provocados pelas correntes das âncoras.
O vento fala-me das sonoridades impressas no ar.
Em termos náuticos, o caminho seguido numa viagem por mar é chamado de derrota.
Este, ali em cima, ancorado, é a minha derrota.
Monday, December 05, 2005
Ontem um familiar meu foi preso. Estranho, o que me contaram foi que não esteve presente em julgamento; faltou como testemunha. Apesar de ter justificado a falta, esta não chegou ao juiz.
Hoje, agora, já está em tribunal. Ainda não sei nada. Imagino que tenha tido uma noite que nunca mais vai passar.
Já está em casa, foi um engano do tribunal, a juíza aconselhou-o a processar o tribunal.
( agora sei modificar isto, posso actualizar a notícia)
Hoje, agora, já está em tribunal. Ainda não sei nada. Imagino que tenha tido uma noite que nunca mais vai passar.
Já está em casa, foi um engano do tribunal, a juíza aconselhou-o a processar o tribunal.
( agora sei modificar isto, posso actualizar a notícia)
Sunday, December 04, 2005
respiração
Inspiro e recebo. Expiro, dou e preciso. Inspiro e reencontro. Reconcilio-me.
O aparelho respiratório é um tubo que começa no nariz, continua pela faringe, a laringe, a traqueia e os brônquios. Alarga-se numa maior superfície ao nível dos alvéolos pulmonares, e aí permite o intercâmbio de gases com o sangue. Esse intercâmbio de oxigénio e dióxido de carbono recebe o nome de respiração. É claro que nada disto é novidade. É também senso comum constatar que o sistema respiratório e o sistema circulatório trabalham em estreita colaboração. Todos sabemos que um choque emotivo estrangula a respiração ainda antes de se sentir o aceleramento do coração. Pelo contrário, quando estamos tranquilos a respiração é naturalmente lenta.
Nas nossas heranças ancestrais, o ritmo respiratório controlado e constante (muitas vezes acompanhado de movimento balanceado), faz parte de rituais de oração, de procura de essência espiritual, energia única.
Mais curioso é saber que há quem associe o ritmo respiratório ao comportamento. Há quem afirme que o ritmo respiratório condiciona e orienta o comportamento de massas. Que os hinos, marchas ou slogans impõem ritmos colectivos que transpõem o individual.
O aparelho respiratório é um tubo que começa no nariz, continua pela faringe, a laringe, a traqueia e os brônquios. Alarga-se numa maior superfície ao nível dos alvéolos pulmonares, e aí permite o intercâmbio de gases com o sangue. Esse intercâmbio de oxigénio e dióxido de carbono recebe o nome de respiração. É claro que nada disto é novidade. É também senso comum constatar que o sistema respiratório e o sistema circulatório trabalham em estreita colaboração. Todos sabemos que um choque emotivo estrangula a respiração ainda antes de se sentir o aceleramento do coração. Pelo contrário, quando estamos tranquilos a respiração é naturalmente lenta.
Nas nossas heranças ancestrais, o ritmo respiratório controlado e constante (muitas vezes acompanhado de movimento balanceado), faz parte de rituais de oração, de procura de essência espiritual, energia única.
Mais curioso é saber que há quem associe o ritmo respiratório ao comportamento. Há quem afirme que o ritmo respiratório condiciona e orienta o comportamento de massas. Que os hinos, marchas ou slogans impõem ritmos colectivos que transpõem o individual.
Wednesday, November 30, 2005
E os setenta anos da morte de Fernando Pessoa
A morte acompanha-nos sempre, a morte é o que a vida recusa.
A vida é muito. Cresce na morte.
A morte é a vida a transformar-se.
Assim a vejo eu.
O Fernando Pessoa, daquilo que o conheço escrito, parece ter visto exactamente o oposto - a vida é a morte a transformar-se.
"(...) Pela morte vivemos, porque só somos hoje porque morremos ontem. Pela morte esperamos, porque só podemos crer em amanhã pela confiança na morte de hoje. Pela Morte vivemos quando sonhamos, porque sonhar é negar a vida. Pela morte morremos quando vivemos, porque viver é negar a eternidade! (...)"
É tido como sabido que Pessoa escreveu com o fingimento da sinceridade.
Como viveu e morreu não vi.
A morte acompanha-nos sempre, a morte é o que a vida recusa.
A vida é muito. Cresce na morte.
A morte é a vida a transformar-se.
Assim a vejo eu.
O Fernando Pessoa, daquilo que o conheço escrito, parece ter visto exactamente o oposto - a vida é a morte a transformar-se.
"(...) Pela morte vivemos, porque só somos hoje porque morremos ontem. Pela morte esperamos, porque só podemos crer em amanhã pela confiança na morte de hoje. Pela Morte vivemos quando sonhamos, porque sonhar é negar a vida. Pela morte morremos quando vivemos, porque viver é negar a eternidade! (...)"
É tido como sabido que Pessoa escreveu com o fingimento da sinceridade.
Como viveu e morreu não vi.
Monday, November 28, 2005
Mareorama
O Mar aqui, em Novembro, de manhã tem muitas cores. Não sei porquê.
Ao fim da manhã, gradualmente, as matizes intrometem-se, e vistas daqui, aproximam-se de um tom monocromático.
Hoje, como em muitos fins de semana, veêm-se velas brancas. Perfilam-se numa simetria sossegada.
Ao fim da tarde as nuvens descem ao mar e recebem o Sol.
O Mar aqui, em Novembro, de manhã tem muitas cores. Não sei porquê.
Ao fim da manhã, gradualmente, as matizes intrometem-se, e vistas daqui, aproximam-se de um tom monocromático.
Hoje, como em muitos fins de semana, veêm-se velas brancas. Perfilam-se numa simetria sossegada.
Ao fim da tarde as nuvens descem ao mar e recebem o Sol.
Friday, November 25, 2005
O neutrino é uma partícula neutra, e parece que atravessa a matéria sem chocar com nada. São uma imensidão deles; em cada cm quadrado passam 60 mil milhões por cada segundo. Viajam a uma velocidade um pouco menor que a da luz. A sua massa é ainda desconhecida (julgo eu), mas é com certeza um "peso pluma".
Foi "inventado" em 1930 por Wolfgang Pauli. Criou-se para fundamentar a lei da conservação de energia.
É prodigioso pensar que são emitidos em quantidades "astronómicas" pelo Sol e pelas estrelas, e que percorrem o Universo em todos os sentidos. Atravessam de lado a lado um planeta ou um de nós sem chocar com nenhum átomo.
Ontem pensei neles como partículas livres, mas, sem chocar com nada, não deve ser liberdade.O mais provável é ser uma partícula solitária.
Só agora fui buscar o resultado das análises. Há uns meses caiu-me muito cabelo, mais de metade. Agora cresceu tanto que não se vê a risca, estão a ver? Aquele risco no cabelo, quando nos penteamos. Nas análises está tudo nos parâmetros normais, a causa é desconhecida. Por outro lado emagreci cinco quilos, mas a causa é reconhecida. É o Outono, fico sem fome.
Um bom dia!
Foi "inventado" em 1930 por Wolfgang Pauli. Criou-se para fundamentar a lei da conservação de energia.
É prodigioso pensar que são emitidos em quantidades "astronómicas" pelo Sol e pelas estrelas, e que percorrem o Universo em todos os sentidos. Atravessam de lado a lado um planeta ou um de nós sem chocar com nenhum átomo.
Ontem pensei neles como partículas livres, mas, sem chocar com nada, não deve ser liberdade.O mais provável é ser uma partícula solitária.
Só agora fui buscar o resultado das análises. Há uns meses caiu-me muito cabelo, mais de metade. Agora cresceu tanto que não se vê a risca, estão a ver? Aquele risco no cabelo, quando nos penteamos. Nas análises está tudo nos parâmetros normais, a causa é desconhecida. Por outro lado emagreci cinco quilos, mas a causa é reconhecida. É o Outono, fico sem fome.
Um bom dia!
Thursday, November 24, 2005
Sunday, November 20, 2005
Aqui descobri palavras. Penso por isso mais, nestes “sons” articulados. Expressões de pensamento, dialectos de significação.
Tenho andado a ler aos meus filhos a “Alice” de Lewis Carroll.
“- Quando uso uma palavra ela significa aquilo que eu quero que signifique...nem mais nem menos.- A questão é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes, ponderou Alice. A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.”
A legislação, a lei, é feita de palavras. Apesar de toda a jurisprudência e doutrina, muitas vezes, quem mais manda decide o significado das palavras.
Tenho andado a ler aos meus filhos a “Alice” de Lewis Carroll.
“- Quando uso uma palavra ela significa aquilo que eu quero que signifique...nem mais nem menos.- A questão é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes, ponderou Alice. A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.”
A legislação, a lei, é feita de palavras. Apesar de toda a jurisprudência e doutrina, muitas vezes, quem mais manda decide o significado das palavras.
Friday, November 18, 2005
Ontem fui ao teatro. Um dos meus irmãos é actor. Lá em casa, algumas vezes fiquei de castigo por ele ter nascido encantactor. Todos sabiam lá na casa , mas ele é que não sabia, por isso ultrapassava-se. Chorava de mansinho, num crescendo que caía no chão. Até eu acreditava que pudessem ter sido duendes a comer os bombons que tinham desaparecido da caixa debaixo da cama dos pais. O embrulho todo rasgado; alguém tinha que ficar de castigo. E os bombons eram para a dona Aida, a condessa. Não sei se era condessa, baronesa, ou marquesa, mas vivia num palacete que tinha uma sala, que tinha um piano, que tinha uma cauda. Quando a visitávamos, encontravámo-la sempre no jardim a podar as rosas. Lanchávamos no jardim e cantávamos “ainsi font, font, font...”. Comíamos scones com doce de morango, bebíamos chá, e como numa história da Condessa de Ségur, éramos uns amores de crianças durante duas horas.
O teatro, ontem.
A peça não me disse nada, por isso não tenho nada a dizer.
O meu irmão ultrapassa-se agora em palco. Já sabe que é actor, e continua encantador.
O teatro, ontem.
A peça não me disse nada, por isso não tenho nada a dizer.
O meu irmão ultrapassa-se agora em palco. Já sabe que é actor, e continua encantador.
Thursday, November 17, 2005
Aqui, e talvez ali e acolá, parece ser importante saber se aquilo que se faz profissionalmente é reconhecidamente e publicamente mensurável, qualificável, "valorável", "catalogável", "quantificável", ..ável..vel..el
Eu não faço nada que possa ser reconhecidamente ou publicamente mensurável, qualificável, "valorável", "catalogável", "quantificável",...ável...vel...el
Parece-me que aqui , como acolá ou ali, esclarecer isto, possa ser "importantável"
Eu não faço nada que possa ser reconhecidamente ou publicamente mensurável, qualificável, "valorável", "catalogável", "quantificável",...ável...vel...el
Parece-me que aqui , como acolá ou ali, esclarecer isto, possa ser "importantável"
Tuesday, November 15, 2005
Uma ciência que gosto muito é a química. De alguma maneira sempre a associei a poções mágicas , a alquimia, à transformação.
Não deixa de ser curioso que os alquimistas possam ter estado tão perto da realidade ao acreditarem que podiam transformar uma substância numa outra. Desconhecendo o que são os elementos, misturavam e aqueciam substâncias. Faziam química ao sintetizar e decompor, mas não podiam modificar a estrutura que define um elemento - a composição do seu núcleo. A sua concepção da matéria era falsa. Há no entanto uma presciência na alquimia.
Não deixa de ser curioso que os alquimistas possam ter estado tão perto da realidade ao acreditarem que podiam transformar uma substância numa outra. Desconhecendo o que são os elementos, misturavam e aqueciam substâncias. Faziam química ao sintetizar e decompor, mas não podiam modificar a estrutura que define um elemento - a composição do seu núcleo. A sua concepção da matéria era falsa. Há no entanto uma presciência na alquimia.
Monday, November 14, 2005
Sunday, November 13, 2005
Friday, November 11, 2005
Hoje ao fazer mais uma lista de compras imaginei
- madeira de carvalho
- pano latino
- dois ou três mastros
- quilha
- um convés
- um castelo de proa
- uma coberta
- uma balestilha
- a estrela polar
Pensei de ouvido
O ranger do cordame, o bater das pontas dos rizes no estai, o impulso do vento a rondar a popa, o matraquear das adriças, o sussurrar da água contra o costado.
Largar as velas, navegar à bolina.
Wednesday, November 09, 2005
Enquanto deitava os meus filhos, lembrei-me que eu na idade deles tinha mil colchões em casa. Sei que parece mentira, mas é verdade. Durante grande parte do tempo não eram utilizados e antes de serem arrumados, atiravam-nos cá de cima do hall da rampa lá para baixo para um outro hall, o da televisão. Ficavam lá uns dias e eram depois levados progressivamente para o pátio para serem batidos antes de hibernarem. Durante esses dias eu e os meus irmãos tínhamos o nosso desporto radical . Mergulhávamos de uma altura que não sei precisar. Sei que quando aterrávamos ficavamos submersos nos colchões. O truque era saltar de braços abertos. Para que os braços nos impedissem de descer muito fundo.
Acho o erro essencial e indispensável. É característico da vida. Impele-nos a mudar.
O erro parece ser variabilidade, diversidade e evolução.
Cometo muitos erros, uns propositados (como o título deste blog, por exemplo), outros completamente despropositados . Um dos disparatados foi ter apagado tudo que estava ali para baixo.
Gosto do erro porque se revela.
Segundo neurologistas, o nosso cérebro dá-nos percepções erradas da realidade.
O curioso é que são esses erros que permitem um comportamento inteligente numa realidade tão complexa. Uma máquina que aborde o mundo numa perspectiva pura da lógica, é incapaz de se comportar inteligentemente na nossa realidade. Percebe-se que as falhas no tratamento de informação feito pelo nosso cérebro, são capacidades inigualáveis, que nenhuma máquina pode ainda reproduzir.
Há no entanto erros que tendo nós conhecimento deles, poderíamos tentar limitar.
Este poderá ser um exemplo:
- Ser coerente a qualquer preço.
Verifica-se que o nosso cérebro tem tendência a agir mais fácilmente no sentido de confirmar as nossas posições iniciais, do que pelo contrário, agir de maneira a contradizer a posição já tomada.
Uma experiência realizada não me lembro por quem, mas que imagino que possam ter sido psicólogos, verificou este facto:
-Apenas 30% dos transeuntes que viam caír uma nota da bolsa de uma outra pessoa (alguém contratado para o efeito) , a devolviam espontâneamente ao seu proprietário.
Por outro lado, a taxa subiu para 70% quando alguém dez minutos antes (também um "actor"), pediu que lhe indicassem o caminho, agradecendo calorosamente a sua civilidade.
Concluiu-se que transmitir a alguém a ideia de que é civilizado, semeia nele a ideia de confirmar essa imagem. (Neste caso uma indução pela positiva)
Tenta-se evidenciar que o facto de um indivíduo adoptar uma escolha, o faz sentir aprisionado. A tendência é conformar-se e adoptar comportamentos no mesmo sentido.
Eu decidi parar de escrever, mas não me sinto de maneira nenhuma aprisionada a essa escolha. Conhecendo este "erro " do cérebro de se enformar num comportamento anterior, não deixo de fazer aquilo que agora tenho vontade - escrever aqui.
O erro parece ser variabilidade, diversidade e evolução.
Cometo muitos erros, uns propositados (como o título deste blog, por exemplo), outros completamente despropositados . Um dos disparatados foi ter apagado tudo que estava ali para baixo.
Gosto do erro porque se revela.
Segundo neurologistas, o nosso cérebro dá-nos percepções erradas da realidade.
O curioso é que são esses erros que permitem um comportamento inteligente numa realidade tão complexa. Uma máquina que aborde o mundo numa perspectiva pura da lógica, é incapaz de se comportar inteligentemente na nossa realidade. Percebe-se que as falhas no tratamento de informação feito pelo nosso cérebro, são capacidades inigualáveis, que nenhuma máquina pode ainda reproduzir.
Há no entanto erros que tendo nós conhecimento deles, poderíamos tentar limitar.
Este poderá ser um exemplo:
- Ser coerente a qualquer preço.
Verifica-se que o nosso cérebro tem tendência a agir mais fácilmente no sentido de confirmar as nossas posições iniciais, do que pelo contrário, agir de maneira a contradizer a posição já tomada.
Uma experiência realizada não me lembro por quem, mas que imagino que possam ter sido psicólogos, verificou este facto:
-Apenas 30% dos transeuntes que viam caír uma nota da bolsa de uma outra pessoa (alguém contratado para o efeito) , a devolviam espontâneamente ao seu proprietário.
Por outro lado, a taxa subiu para 70% quando alguém dez minutos antes (também um "actor"), pediu que lhe indicassem o caminho, agradecendo calorosamente a sua civilidade.
Concluiu-se que transmitir a alguém a ideia de que é civilizado, semeia nele a ideia de confirmar essa imagem. (Neste caso uma indução pela positiva)
Tenta-se evidenciar que o facto de um indivíduo adoptar uma escolha, o faz sentir aprisionado. A tendência é conformar-se e adoptar comportamentos no mesmo sentido.
Eu decidi parar de escrever, mas não me sinto de maneira nenhuma aprisionada a essa escolha. Conhecendo este "erro " do cérebro de se enformar num comportamento anterior, não deixo de fazer aquilo que agora tenho vontade - escrever aqui.
Saturday, November 05, 2005
De um episódio de fuga - a apoptose ou o silêncio da anulação da linguagem.
Uma vez escrevi (estava ali em baixo, agora não sei onde está) que só dividimos o que diminui. No entanto acrescentei no fim, que dividíamos a vida (e que nos ofereciam a morte).
É evidente que falava de nós, de complexos de sistemas vivos.
As células dividem-se e aumentam, criando tecidos e formando orgãos. Existem no entanto no ciclo celular dois processos opostos. A divisão celular, e a morte celular. A esta morte celular chama-se apoptose.
A apoptose remove determinadas células durante o crescimento e desenvolvimento, permitindo, em equilíbrio com a mitose (divisão celular), manter a forma dos orgãos, do corpo.
Os mecanismos que controlam o ciclo celular ainda não são totalmente conhecidos. Sabe-se no entanto que há sinais químicos que controlam o ciclo celular; sinais que provêm de fora e de dentro da célula. Os sinais exteriores são os hormônios, que agem à distância. Os sinais internos são duas proteínas, uma delas a ciclina, a outra - a quinase. A quinase poderia chamar-se quinau ( acto ou efeito de corrigir um erro ), vinha mais a propósito.
A mudança do estado de quiescência é essencial para um estado de crescimento activo.
Uma vez escrevi (estava ali em baixo, agora não sei onde está) que só dividimos o que diminui. No entanto acrescentei no fim, que dividíamos a vida (e que nos ofereciam a morte).
É evidente que falava de nós, de complexos de sistemas vivos.
As células dividem-se e aumentam, criando tecidos e formando orgãos. Existem no entanto no ciclo celular dois processos opostos. A divisão celular, e a morte celular. A esta morte celular chama-se apoptose.
A apoptose remove determinadas células durante o crescimento e desenvolvimento, permitindo, em equilíbrio com a mitose (divisão celular), manter a forma dos orgãos, do corpo.
Os mecanismos que controlam o ciclo celular ainda não são totalmente conhecidos. Sabe-se no entanto que há sinais químicos que controlam o ciclo celular; sinais que provêm de fora e de dentro da célula. Os sinais exteriores são os hormônios, que agem à distância. Os sinais internos são duas proteínas, uma delas a ciclina, a outra - a quinase. A quinase poderia chamar-se quinau ( acto ou efeito de corrigir um erro ), vinha mais a propósito.
A mudança do estado de quiescência é essencial para um estado de crescimento activo.
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