Wednesday, January 31, 2007
Friday, January 05, 2007
há força partida
e escrevesse
"Mas agora perguntar-me-ás como te será possível destruir a consciência nua do teu próprio ser (...)
A capacidade de que falo nada mais é do que uma profunda e intensa dor espiritual (...)
Todos têm as suas mágoas, mas quem sente maior desgosto é quem está consciente de existir. Qualquer outro sofrimento, comparado com a consciência de existir, é como uma brincadeira de crianças (...)
E quem nunca conheceu esta dor, bem se pode condoer deveras, pois ainda não experimentou a dor perfeita."
A Nuvem do Não-Saber (anónimo do séc. XIV)
Perfeita?!
A Dona Tristeza é consciência de existir, e é possibilidade de destruir o ser consciente que existe.
"Uma tal dor capacita a alma para receber aquela alegria em que o homem perde totalmente a consciência do seu próprio ser"
(idem)
Ora, em que é que consciência ficamos?
A ignorância, a tristeza ao encontrar, a alegria de a perder
Como quando
há força partida
e escrevesse
perfeita a dor
como se
a força partida
tristeza
escrevesse
poetas
poemas
do amor
partidos
como se perdidos
da perfeita dor
Wednesday, December 13, 2006
Tuesday, December 12, 2006
" Escuto estes desenhos como a um homem do campo que diz, sem querer, coisas mais importantes do que o que está a contar, e que põe tudo à mostra sem dar por isso. Através destes desenhos sigo grafologicamente o meu instinto à espera da minha vontade, - a minha querida ignorância a aquecer ao sol e a transformar-se na minha vez cá na terra."
Almada Negreiros
Acho que o homem do campo diz coisas que conhece; coisas que o conhecem a ele.
A terra espera pela vontade do homem do campo e o homem do campo espera pela vontade da terra. São coisas importantes, as vontades; a nossa vez de existir.
Wednesday, November 29, 2006
Conheci uma tristeza diferente, não sei dizer como, dobrada, dobrada em muitos.
Um quadrado, quatro triângulos dobrados atrás, fica outro quadrado e são quatro triângulos unidos num ponto, num centro. Quatro pirâmides; quantos queres? Um quatro e dezasseis.
É mais ou menos assim. Um "quantos queres" de tristeza.
Dizer que não escrevo é mentira. Escrevi uma peça, teatro. De encomenda.
Como não sabia nada, imaginei tudo. Os cenários e os adereços, as imagens para o ciclorama, os roteiros de luz, a sonoplastia e as paisagens sonoras. As entradas em cena, as altas e baixas do palco, as telas e os telões. Ficou um balão, colorida e vazia.
Se vier a ser encenada estarei lá a aprender a sério.
Não fiz nenhum curso de escrita criativa ou dramaturgia.
Continuo sem saber o possível na escrita, mas faz-me caminhar, ao acaso, conduz-me.
Hoje li no diário digital do sapo um artigo sobre os pulsares da torrente
"Astrónomos europeus descobriram um feixe modulado de muito alta energia vindo do espaço que varre a Terra com a regularidade de um farol, com uma intensidade 100.000 vezes superior ao mais potente até agora observado (...) A modulação do sinal das «pulsars» está compreendida entre alguns segundos e alguns milissegundos. Em contraste, a do sinal emitido pelo LS 5039 é de 3,9 dias. A energia libertada é também invulgar e os cientistas estão ainda na fase das hipóteses para explicar a sua origem."
(não sei pôr a ligação, é :http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=60&id_news=252445)
Desdobrou-me a tristeza, sei lá eu porquê.
Wednesday, October 18, 2006
Sunday, October 08, 2006
Nestas duas últimas semanas transformei-me em formiga de biblioteca; passo as horas que posso lendo e escrevendo.
Leio muito. Na verdade irrita-me esta dificuldade que tenho em entender o possível na escrita. Semiótica, filosofia da linguagem, prosódia, signos e grafos, ícones, símbolos, significados, proposições e inferências, falácias lógicas.
Neste momento leio Blanchot, mas já passei por, Peirce, Eco; Derrida, Foucault que fica sempre bem e até rimou.
Blanchot e o movimento incessante da escrita. "...comme si écrire, le mouvement incessant d'écrire, nous libérait du jeu de l'écriture."
Seria um exercício interessante fazer um paralelo entre os jogos da linguagem e a "moderna" teoria dos jogos.
Em "investigações filosóficas" WIttgenstein diz-nos que o significado das palavras é independente daquilo a que se referem. O significado depende de como são usadas. A linguagem é um tipo de jogo em que as palavras são as peças de um conjunto de regras ( convenções linguísticas)
A teoria dos jogos estuda decisões que são tomadas por vários jogadores que interagem entre si num determinado meio. A estratégia na escolha de comportamentos depende da escolha de outros indivíduos. Não será completamente inverosímil considerar cada palavra como indivíduo, individual e em crescimento; no entanto atribuir decisão ou escolha de comportamento à palavra é, do meu ponto de vista, disparatado. A palavra cresce em significados, tem comportamento diferenciado quando interage com outra ou outras palavras, mas não escolhe. Quem escolhe é quem fala ou escreve.
Em princípio a linguagem das palavras deveria centrar-se no jogo cooperativo. A solução cooperativa é aquela que permite encontrar o par de ganhos que garanta a cada uma das partes ao menos aquilo que poderia assegurar jogando sozinhos. Mesmo falando para o boneco se pode assegurar ao menos aquilo que ganhamos a falar sozinhos. A não ser que afinal o boneco afinal ouça. Provavelmente ouvirá não o que foi dito, mas sim o que ouviu. Ganha-se alguma coisa ouvindo o que não foi dito? Parece que sim. Perde-se com as palavras? Provavelmente, que isto está tão confuso que até eu dou o dito por ouvido.
A que tipos de jogos se referia Wittgenstein?
Há os simétricos e os assimétricos, os de soma zero e os de soma diferente de zero, os simultâneos e os sequenciais, os de informação perfeita e os de informação imperfeita, os infinitamente longos.
E já agora
- Imagine um diálogo entre o Capitão gancho e o Peter Pan; quais seriam os tipos de jogo adoptados? Riscar o que não interessa (o infinitamente longo por não ter par é verdadeiro por defeito)
- Quais os aspectos paradoxais que atestam a ambiguidade da opinião pública?
- Porque é que quanto mais escrevo mais sarcástica me torno?
"...comme si écrire,le mouvement incessant d'écrire, nous libérait du jeu de l'écriture."
Blanchot e o movimento incessante como estratégia de libertação do próprio jogo.
" Par le livre, l'inquiétude d'écrire - l'énergie - cherche à se reposer dans la faveur de l'ouevre, mais l'absense d'ouevre l'appelle toujours dès l'abord à répondre au détour du dehors, lá où ce qui s'affirme ne trouve plus sa mesure dans un rapport d'unité"
(L'entretien infini)
Thursday, September 14, 2006
Saturday, September 09, 2006
“Driving Miss Daisy” estreou em Nova Iorque em 1987 e esteve três anos em cena, ganhando o prémio pulitzer de 88. Em 989 é feita a adaptação ao cinema pelo próprio autor – Alfred Uhry. Valeu-lhe o Oscar da “melhor adaptação”.
A tradução feita para Eunice Muñoz, Guilherme Filipe e Thiago Justino, é da responsabilidade de António Barahona. Com a minha escassa cultura, não o conhecia. Fiquei a saber que é poeta.
Não pretendo fazer aqui uma crítica ao espectáculo, aos actores, ao encenador ou aos técnicos. A um crítico, julgo eu, cabe “meter-se” dentro do criticado e tentar perceber porque escolheu ele fazer assim. Só o poderá fazer se conhecer a técnica utilizada na produção da obra. Estou a falar do crítico e não de quem opina. Acho muito bem que se opine, e que se critique.
Posso fazer uma crítica ao público, eu estava metida na plateia.
O público é parte de um espectáculo. Aquele público ontem era de estreia, ou seja, convites e muita gente do meio (fui com o meu irmão actor). Esperava eu que acompanhassem as tensões e descontracções do texto, os sentidos de humor claros e escuros; as modificações nas frases, que repetidas ao longo dos vinte e cinco anos em que decorre a acção, deixam de ter o sabor da ironia incisiva e graduam até ao hábito envelhecido, enriquecido.
As gargalhadas do público não graduaram; não sei porque escolheram rir assim.
Nunca tinha visto a Eunice Muñoz ao vivo. O seu gesto é extraordinário e oportuno. Os pés, as mãos, dizem as falas. Se as perde por vezes, é só na voz; o seu corpo mostra que não se perdeu.
O seu sorriso no fim mostrou o que todos ganhámos.
[Sempre que releio o que escrevo encontro “novas interpretações”; não faz sentido apagar o que escrevo, ou modificar de cada vez que cá venho. Ao ler isto, pareceu-me que estava a fazer uma critica velada ao texto da peça, e sendo assim, a armar-me em espertinha. Como se conhecesse a técnica utilizada na elaboração daquele, ou de outros textos. Não conheço. A fazer fé na Maria: “quem escreve escreve-se”, devo ter pretensões à esperteza.]
Monday, September 04, 2006
E não deve haver som igual em cada onda. Nenhuma se levanta da mesma forma. Começa aí, como se dançar emitisse som sustentado. Nenhuma prepara o ataque com a mesma força; não tem repouso o silêncio.
A cor está pintada, pouco dizível. É aproximada ao brilho de penas ónix, azuladas pela lua.
Sunday, August 27, 2006
Vou tentar arranjar.
Salguei a neve
de um dia ao passado
gelado
Não sei o lugar
mas estava vazio
caiu aberto
esculpiu um rio
e é tão comprido
traça tão cheio
enche perdido
cresce p’lo meio
Chamo-lhe rio, pois
não sei o lugar
da neve sem frio
que é fonte de mar
[Adenda- apêndice.
Ficou pior. A répétition parece:
- Patáta patáka patica pató
e trálalé troleli trololo lo]
Friday, August 25, 2006
Monday, August 21, 2006
É engraçado ao olhar o mar, lembrar que os pontos de luz ao chegar são corpo de estrela viva. Ao tocar no mar reflectem as ondas no ar (com o timbre do sol) Outros mergulham, refractam; vão mais devagar.(a fotografia - grafia do fotão - é no lado esquerdo, uma imagem da galeria do HubbleSite, e no direito, o mar aqui à frente, tirada a semana passada)
Sunday, August 13, 2006
Pode ser bem alto no cimo da cordilheira. Dentro de um tronco com musgo do mar. Lá tão alto é onde vou morar.
De manhã o mar nascerá. Vou atirar as pérolas ao céu; o sol vai gostar de as pentear. E o barco será tecido algodão com as cores das luas já penteadas, aureoladas. Irei pescar as músicas da floresta para que na festa os pássaros possam dançar.
Ao pôr do mar voltarei ao ramo da cerejeira, à festa da cordilheira.
Não importa a altura, pois não?
Tuesday, August 08, 2006
A todas as horas. A cada hora uma nova ordem, um novo mundo. Deve ser do vinho. (bebi vinho – Monsaraz; um copo e meio)
Hora a hora; afinal após os primeiros três minutos, nada de importante aconteceu nos milhões de anos seguintes. Só quando o universo completou um milhão de anos de idade, nasceu o primeiro átomo. Mil milhões de anos, e o universo estava repleto de nuvens de hidrogénio e hélio rodopiando no espaço. A força chama os átomos ao centro, a velocidade aumenta, a energia multiplica-se. Dez milhões de anos depois, no centro contraído, a temperatura sobe a vinte milhões de graus fahrenheit. Deflagra a reacção nuclear, a energia flui para a superfície. Nasceu uma nova estrela. Hora a hora.
Friday, August 04, 2006
A guerra projecta-se no político, ultrapassa o domínio do individual.
Será assim?
“(...) o horror que nos convence de que o que ali se passou constitui um crime contra a humanidade, não reside no facto de, apesar de partilharem a humanidade com as suas vítimas, os assassinos os terem tratado como piolhos. Isso é demasiado abstracto. O horror consiste nos assassinos se terem recusado a imaginar-se no lugar das suas vítimas, ao contrário de todas as outras pessoas. Por outras palavras, fecharam os corações. O coração é a sede de uma faculdade, a compreensão, que nos permite partilhar, por vezes, a essência de outrem (...) Em cada dia há um novo holocausto e, no entanto, tanto quanto me consigo aperceber, a nossa essência moral permanece intocada. Não nos sentimos maculados.”
J. M. Coetzee
No domínio do político, cito Aristóteles
“Pertence à sabedoria, quer de cada homem tomado individualmente, quer de todo o Estado em geral, o dirigir as acções e a conduta para o melhor fim. Ora vários pensam que mandar nos semelhantes, se se faz de uma forma despótica, é uma grande injustiça; se se faz duma forma civilizada, não é uma injustiça, mas somente um obstáculo para a sua tranquilidade (...) Um legislador deve gravar profundamente no espírito do seu povo que aquilo que é bom para cada um em particular é igualmente bom para o Estado; que não é conveniente dedicar-se aos exercícios militares com a intenção de sujeitar aqueles que o não merecem; que tais exercícios só devem ter por finalidade o defender-se a si próprios da escravidão e até o tornar-se úteis aos vencidos. A finalidade não é dominar todo o mundo, mas unicamente os que não são capazes de bem usar da sua liberdade e que mereceram a escravidão por causa da sua malvadez”
(tratado da política, Aristóteles)
A “malvadez” lembra o “eixo do mal”.
A guerra - o mal – os maus.
O mundo não reproduz o conto de fadas onde os maus sofrem justos castigos e os bons vivem felizes para sempre. No mundo da humanidade os “maus” seguem e respeitam as ordens dos seus legisladores, e os “bons” não vivem felizes com as ordens dos “escravos da malvadez”.
Nunca estive num país islâmico, (quando eu era pequena, a minha mãe dizia-me que o meu trisavô era um príncipe árabe; se lhe perguntar hoje é bem capaz de reafirmar; a imaginação ocupa-lhe a história) não sei como sentem as suas leis, se as vivem ou se simplesmente as seguem. Sei, ou fazem-me saber, que a grande maioria dos muçulmanos não são extremistas, fanáticos. Sinto no entanto, que o Ocidente ficaria mais tranquilo se os infiéis se convertessem, não ao cristianismo, mas à democracia, ao Estado de direito, ao secularismo.
Já há um tempo chegou-me aqui a casa um livro pelo correio, cujo destinatário era o Eduardo Prado Coelho. Deduzo que aqui morou, e não sabendo eu como o devolver, sendo um livro, paciência, desculpe lá ó Eduardo, fiquei-lhe com o livro. É uma compilação das intervenções de alguns oradores num curso livre de História Contemporânea, cujo tema foi, a globalização e democracia.
Uma das oradoras, Teresa Patrício Gouveia, afirma que em meados do séc. XXI, a civilização ocidental representará apenas 1 a 5% da população mundial (devo dizer que este número me espanta, não sei se terá algum fundamento real). Mas seja qual for a percentagem – “talvez tenhamos, sabiamente, que aceitar, nas sociedades, a conflitualidade; de compreender que os homens não querem todos as mesmas coisas; que os valores que adoptámos estão eles mesmos em conflito” Isaiah Berlin ( Four essays on liberty)
Monday, July 24, 2006
Monday, July 17, 2006
Na última noite que aqui jantou, antes de entrar para a comunidade onde está em tratamento, dizia assim aos meus filhos:" - Vocês não têm blocos vermelhos? Pois então, os blocos vermelhos comem os blocos brancos. E depois um gajo constipa-se e pode morrer. O HIV é quando é assim o princípio da doença, e a sida é quando a doença já está mesmo na morte."
Com ele aprendi como fazer um alambique na prisão. Corta-se um garrafão de lixívia de cinco litros, vazio, está claro! Com duas colheres e um pau no meio faz-se a resistência. Separa-se uma das extremidades de um fio eléctrico e une-se a cada uma das colheres; a outra extremidade liga-se à corrente eléctrica. Põe-se a chicha (fruta e pão que fermentaram quinze dias antes, dentro de um balde) no garrafão e mergulha-se a resistência lá no meio. Faz-se um orifício num dos lados e introduz-se um tubo de cobre. Esse tubo sai do garrafão, e passa dentro de um lavatório com água fria. É necessário deixar sempre um fio de água a correr na torneira para que a água não aqueça. Finalmente, termina dentro de uma garrafa, para onde pinga a aguardente destilada.
Aprendi muitas outras coisas. Como fazer uma "máquina" de tatuagens ou o que fazer em caso de overdose. Aprendi que o limão estragado, quando usado na preparação da "dose" provoca febre muito alta; que a ressaca provoca um descontrolo completo do organismo, desde as insónias ou dores musculares, aos vómitos e diarreias.
A manhã é a pior parte do dia, até se "orientarem", para a primeira dose. Mais que uma vez, ao abrir a porta de manhã, encontrei o Zé deitado no chão, agarrado ao estômago a gemer.
Um destes sábados visitei o Zé na comunidade onde faz tratamento. Comigo foi o Carlos, amigo e coabitante do mesmo carro abandonado; companheiro de expediente nos parques de estacionamento, nos peditórios à porta da igreja, nos pequenos furtos em supermercados. O Carlos também está em recuperação, mas num programa em regime mais aberto, podendo sair com alguém que se responsabilize por ele.
Engordou onze quilos, o Zé. A dicção também melhorou consideravelmente, apesar de continuar sem nenhum dente. Está dolorosamente resoluto. A coisa não parece fácil. No dia anterior à nossa visita tinha tido "reunião de sentimentos", evento a que eles (os utentes do pavilhão primário - primeira fase do tratamento) chamam a "passerelle". Daquilo que me contou, ficou-me a ideia de um apedrejamento terapêutico. Não é uma exposição feita por ele ao resto da assembleia (constituída pelos colegas de tratamento que com ele partilham o pavilhão primário - cerca de vinte). Passa-se ao contrário. Os colegas, um a um, apontam-lhe todos os defeitos que em dois meses de convívio enclausurado puderam descortinar. E o objectivo é, segundo as palavras do Carlos, que também ali esteve em tratamento, mas que não aguentou mais de quatro ou cinco meses; o objectivo diz então ele, é "encontrar as feridas e enfiar o dedo lá dentro, rodando afincadamente até ao osso." E o que se tira daqui? É um exorcismo; espera-se no fim uma explosão de raiva, uma fúria catártica, qualquer coisa de - sai daí ó demónio. E pronto! Ao Zé descobriu-se-lhe o seu orgulho exagerado e o seu uso desenfreado da manipulação (que por coincidência são adjectivos que rotulam qualquer adicto). Depois da descarga apoteótica do "modelo na passadeira" vem o reconhecimento de que falhas de carácter são humanas, mas que terão que ser sempre reconhecidas.
Sei que a taxa de sucesso na recuperação de toxicodependentes e alcoólicos nesta comunidade é das mais elevadas no país. Não sei como justificar os meios.
Wednesday, July 12, 2006
O improptum tem um ano. Fez desta vez.
Um ano passado, com tantas faltas. E a justificação não é aceitável. Faltei ao blogue porque não parece ser fácil a quem lê, acreditar nas minhas "histórias".
Quando escrevo, confundo. As palavras intimidam-me, transmutam-se.
Só prova que aprendi muito pouco. Chumbei.
Tenho feito muitas perguntas. Devia tentar responder.
Lá em baixo, perguntava porque é que as crianças nos seus traços informes procuram tudo o que é redondo.
Acho que procuram o limite da forma diferenciada.
A interacção gravitacional (interacção de intensidade muito fraca, sempre atractiva, de longo alcance, abrangendo todas as partículas) é muito fraca à escala das partículas; torna-se no entanto preponderante à escala macroscópica. O facto de ser sempre atractiva faz com que se acumule eficazmente. A força gravitacional é cumulativa. As interacções electromagnéticas não possuem esta propriedade; são atractivas ou repulsivas segundo o sinal das cargas em presença, apesar da neutralidade eléctrica da matéria anular os seus efeitos a longa distância.
"Um objecto compacto de massa fraca é dominado pela interacção electromagnética. Ele pode, por isso, ter qualquer forma: mesa, garrafa, bicicleta... Mas quando a quantidade de matéria em causa ultrapassa um certo limiar, as forças de gravitação acabam por se sobrepor às forças eléctricas e o objecto em questão apenas pode existir sob uma forma grosso modo esférica. Assim, os planetas e as estrelas somente podem ser redondos, enquanto os asteróides com um raio inferior a 300 Km têm ainda o direito de possuir formas irregulares."
Étienne Klein. Sob o átomo, as partículas.
As crianças procuram com os seus primeiros traços desenhar o redondo
O redondo é grosso modo o limite da forma diferenciada
post hoc, ergo propter hoc
As crianças procuram o limite da forma diferenciada
Poderia dizer que procuram a forma esférica porque é a forma que apresenta a menor área de superfície para um dado volume; a forma que apresenta melhor resistência à pressão exterior. Mas, diz-me o bom senso que as crianças gostam de grandes superfícies; e não sabem defender-se das pressões exteriores.
Há mais respostas, claro. Esta poderia ser a do Renatus Cartesius - as crianças procuram o grande espírito.
" (...)Todos os corpos líquidos ou gasosos suspensos no ar têm a forma esférica, (...) Assim a energia que chamamos de espírito também obedece a este sistema. Quando nascemos temos esta energia esférica muito pronunciada e o sistema funciona da seguinte maneira, - no começo somos menos matéria e mais energia (...) "
Regulae ad directionem ingenii - regras para a direcção do espírito
René Descartes, o do "penso, logo existo"
Respostas estão no tudo. Para responder escolhe-se a parte "simples" e zás, aplica-se a lógica da síntese. Há resposta, no que existe. Existe, logo cogito.
A propósito de redondo; tenho-me comportado aqui como um quadrado, uma besta-quadrada. Peço desculpa aos redondos/as. E também aos bicudos/as.




