Friday, October 19, 2007

Três gavetas e o meu quintal. Uma tem sol, outra tem sal. Outra tem não faz mal já não tenho quintal.

Fiquei sem a janela do mar; já não vivo na casa da praia. Agora tenho uma varanda estreita como as varandas; um segmento de prédio à frente, e o mar lá está ao fundo. A paisagem é aguda, gostava de um angulo giro. Do outro lado uma marquise despropositada; em frente uma copa carregadinha. Hoje, por exemplo, vi os pássaros pousarem nas folhas, e foi como se lhes pegasse, tão leves.

Não é a espuma do mar, no meu quintal estendia a roupa ao sol e ao sal. E à noite, já tarde, ouvia as ondas por cima da colcha.
Tinha um jardim com estrelícias , margaridas, zinias e sécias, goivos e lírios. Muitas rosas, hera e vinha virgem. Relva e o mar a dez braças.

Agora são duas varandas [(outra tem - já não tenho a casa da marginal) A vida corre tão mal e eu rio]

Wednesday, October 03, 2007

Não conheço amarelo maduro ou verde que não se colha.
Não sei de mosto de folha que não sagre a primavera.
Laranja em flor é outono vermelho maduro e sombra queimada, baga de cedro molhada.
São harmónicos de pão, múltiplos inteiros do verão.

Thursday, August 16, 2007

Mais escuras estas noites
as cefeidas pulsam em tempo liso
não há brilho nem distância
A lua encheu,
marés de sempre
certezas sem sucessões
são mais noites destas cheias

Tuesday, July 17, 2007

Deixa lá crescer a aldeia
encosta-a à árvore

Cansada a cidade tem a guitarra encordoada
tampa cheia esticada
canta
tampa
cidade cansada
Pisada a cidade tem a boca campana
trina
prima
badalada
viola de arame
abraçada

Saturday, April 07, 2007

Nunca tinha mexido nas palavras. Até então usava-as papagueando. Utilizava frases como quem compra móveis no Ikea.

“O problema é que temos de encontrar as palavras primas, em sentido matemático; as que só são divisíveis por si mesmas e pela unidade e trabalhar com elas. Estou a ser claro?
- Não muito, o que seria uma palavra prima?
- As palavras essenciais. ”
À Maria Luisa Blanco, conversando com o Lobo Antunes, bem lhe poderia ter ocorrido uma outra pergunta que não – ‘o que seria uma palavra prima? ’- mas sim – qual é a unidade que permite trabalhar com as palavras?

Usava as palavras como quem ouve mas tem um fim.
O meu pai disse-me: - Acredita, não há mais nada. Eu que vim até aqui digo-te, não há mais nada.
Há qualquer coisa em nós de palavra, de incontável. Culpo-as de muito.

Monday, April 02, 2007





Passou também o dia do pai. Não entendia o significado dos dias separados dos outros.
O meu não teve significante.

Sunday, April 01, 2007

Tanta primavera, com as linhas beliscadas não há horizonte a direito, as formas estão descoladas, espirradas nos intervalos das cores. Bach. Criou espaços expandiu o som. Como o pássaro que vi ontem na ria. Vi-os; era um, mas voou em direcções diferentes. Dele se diz - excepcional inteligência aliada a uma notável capacidade de trabalho. Também digo - Inteligência analítica enleada numa capacidade de invenção prodigiosa. Equilíbrio entre colunas de pensamento racional, vitrais de imaginação; coordenadas de abóbada celeste.

Wednesday, March 07, 2007

Dido & Aeneas & Sasha & Guests & Cremonesi & Musik Berlin & Vocal Berlin& Virgílio e Henry Purcell. Lamentavelmente o meu bilhete situava-se lá em cima, ao nível da grelha. Na galeria em pé, ímpar, em frente ao rompimento. O rompimento é o “conjunto de pernas e bambolinas que mascara a cena”. Estava uma data de metros acima do fosso da orquestra; para ser mais exacta, estava em cima da cabeça de um dos executantes de viola barroca.

Andando o senhor padre-cura de lugar em lugar, em cima da cabeça de Virgílio foi parar. – Para que mentes tu? (pergunto eu a Virgílio, que comecei a melopeia) – E onde estavas tu quando eu menti? ( este é Virgílio a perguntar) – Estava em cima da cabeça de Dante. Cantilena-se outra vez. Andando o senhor padre cura de lugar em lugar, em cima da cabeça de Dante Alighieri foi parar. Agora quem pergunta é Dante, a Virgílio. – Para que mentes tu? – E onde estavas tu quando eu menti? – Estava em cima da cabeça da Dido & Aeneas & Vénus & Mercúrio & Sasha & Guests & etecétera . Também jogavam a esta roda? A estes cantos lúdicos, sentadinhos no chão?

A coreógrafa intentou “unir organicamente” o coro e os bailarinos. Quis também que a música a palavra e a dança se unissem, sem que nenhuma delas tomasse mais espaço.
Gostei da música e na voz, talvez por estar ali em cima. As entradas na água não estavam com as cordas, mas lá dentro era muito bonito. E dançar com silêncio é muito suspenso, na água podemos saber quando vão subir para respirar.

Agora escrevo muitos disparates como se jogasse à cantilena.

Saturday, February 17, 2007

Há dias andados em baixo de um corredor cantado nas horas. Em cima passam ponto com ponto em pontas de pés. As linhas de pés cantam com a graça de serem assim, pontas na hora, concentus. Marchando em baixo são dias são quartas e quintas; domingo. Subir tem a graça das pontas do dia, diafonia.

Wednesday, January 31, 2007

Parabéns ao Shubert, nasceu outra vez.
O Shubert veio nu, viva o Shubert.
Ouviu o rei dos Álamos, e o homem do realejo.

"Estranho entrei
estranho parto de novo
Maio embalou-me
com muitas flores"

Os quartos da estalagem todos ocupados
"Il me faut donc toujours et toujours continuer,
adiante meu cajado"

Friday, January 05, 2007

Como quando
há força partida
e escrevesse

"Mas agora perguntar-me-ás como te será possível destruir a consciência nua do teu próprio ser (...)
A capacidade de que falo nada mais é do que uma profunda e intensa dor espiritual (...)
Todos têm as suas mágoas, mas quem sente maior desgosto é quem está consciente de existir. Qualquer outro sofrimento, comparado com a consciência de existir, é como uma brincadeira de crianças (...)
E quem nunca conheceu esta dor, bem se pode condoer deveras, pois ainda não experimentou a dor perfeita."
A Nuvem do Não-Saber (anónimo do séc. XIV)

Perfeita?!
A Dona Tristeza é consciência de existir, e é possibilidade de destruir o ser consciente que existe.

"Uma tal dor capacita a alma para receber aquela alegria em que o homem perde totalmente a consciência do seu próprio ser"
(idem)

Ora, em que é que consciência ficamos?
A ignorância, a tristeza ao encontrar, a alegria de a perder


Como quando
há força partida
e escrevesse

perfeita a dor
como se
a força partida
tristeza
escrevesse
poetas
poemas
do amor

partidos
como se perdidos
da perfeita dor

Wednesday, December 13, 2006

Tuesday, December 12, 2006

Armei-me um cerco, dizendo que me conduz. O que escrever será vontade.

" Escuto estes desenhos como a um homem do campo que diz, sem querer, coisas mais importantes do que o que está a contar, e que põe tudo à mostra sem dar por isso. Através destes desenhos sigo grafologicamente o meu instinto à espera da minha vontade, - a minha querida ignorância a aquecer ao sol e a transformar-se na minha vez cá na terra."
Almada Negreiros

Acho que o homem do campo diz coisas que conhece; coisas que o conhecem a ele.
A terra espera pela vontade do homem do campo e o homem do campo espera pela vontade da terra. São coisas importantes, as vontades; a nossa vez de existir.

Wednesday, November 29, 2006

Voltei a ter internet. Não terá sido por isso que não escrevo.
Conheci uma tristeza diferente, não sei dizer como, dobrada, dobrada em muitos.
Um quadrado, quatro triângulos dobrados atrás, fica outro quadrado e são quatro triângulos unidos num ponto, num centro. Quatro pirâmides; quantos queres? Um quatro e dezasseis.
É mais ou menos assim. Um "quantos queres" de tristeza.

Dizer que não escrevo é mentira. Escrevi uma peça, teatro. De encomenda.
Como não sabia nada, imaginei tudo. Os cenários e os adereços, as imagens para o ciclorama, os roteiros de luz, a sonoplastia e as paisagens sonoras. As entradas em cena, as altas e baixas do palco, as telas e os telões. Ficou um balão, colorida e vazia.
Se vier a ser encenada estarei lá a aprender a sério.
Não fiz nenhum curso de escrita criativa ou dramaturgia.
Continuo sem saber o possível na escrita, mas faz-me caminhar, ao acaso, conduz-me.

Hoje li no diário digital do sapo um artigo sobre os pulsares da torrente
"Astrónomos europeus descobriram um feixe modulado de muito alta energia vindo do espaço que varre a Terra com a regularidade de um farol, com uma intensidade 100.000 vezes superior ao mais potente até agora observado (...) A modulação do sinal das «pulsars» está compreendida entre alguns segundos e alguns milissegundos. Em contraste, a do sinal emitido pelo LS 5039 é de 3,9 dias. A energia libertada é também invulgar e os cientistas estão ainda na fase das hipóteses para explicar a sua origem."
(não sei pôr a ligação, é :http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=60&id_news=252445)
Desdobrou-me a tristeza, sei lá eu porquê.

Wednesday, October 18, 2006

Azul cádmio
amarelo sorvete
a gaivota passa e repete
promete
que é verde cobalto
turquesa de amora
é branco celeste
com passos de fora

O mar
todo marinho
ri de mansinho

Sunday, October 08, 2006

Estou sem internet. Vá lá saber-se porquê, não gosto de escrever num computador que tem ao lado outros quinze, atrás outros tantos. Escrevo numa biblioteca.

Nestas duas últimas semanas transformei-me em formiga de biblioteca; passo as horas que posso lendo e escrevendo.

Leio muito. Na verdade irrita-me esta dificuldade que tenho em entender o possível na escrita. Semiótica, filosofia da linguagem, prosódia, signos e grafos, ícones, símbolos, significados, proposições e inferências, falácias lógicas.

Neste momento leio Blanchot, mas já passei por, Peirce, Eco; Derrida, Foucault que fica sempre bem e até rimou.

Blanchot e o movimento incessante da escrita. "...comme si écrire, le mouvement incessant d'écrire, nous libérait du jeu de l'écriture."

Seria um exercício interessante fazer um paralelo entre os jogos da linguagem e a "moderna" teoria dos jogos.

Em "investigações filosóficas" WIttgenstein diz-nos que o significado das palavras é independente daquilo a que se referem. O significado depende de como são usadas. A linguagem é um tipo de jogo em que as palavras são as peças de um conjunto de regras ( convenções linguísticas)

A teoria dos jogos estuda decisões que são tomadas por vários jogadores que interagem entre si num determinado meio. A estratégia na escolha de comportamentos depende da escolha de outros indivíduos. Não será completamente inverosímil considerar cada palavra como indivíduo, individual e em crescimento; no entanto atribuir decisão ou escolha de comportamento à palavra é, do meu ponto de vista, disparatado. A palavra cresce em significados, tem comportamento diferenciado quando interage com outra ou outras palavras, mas não escolhe. Quem escolhe é quem fala ou escreve.

Em princípio a linguagem das palavras deveria centrar-se no jogo cooperativo. A solução cooperativa é aquela que permite encontrar o par de ganhos que garanta a cada uma das partes ao menos aquilo que poderia assegurar jogando sozinhos. Mesmo falando para o boneco se pode assegurar ao menos aquilo que ganhamos a falar sozinhos. A não ser que afinal o boneco afinal ouça. Provavelmente ouvirá não o que foi dito, mas sim o que ouviu. Ganha-se alguma coisa ouvindo o que não foi dito? Parece que sim. Perde-se com as palavras? Provavelmente, que isto está tão confuso que até eu dou o dito por ouvido.

A que tipos de jogos se referia Wittgenstein?

Há os simétricos e os assimétricos, os de soma zero e os de soma diferente de zero, os simultâneos e os sequenciais, os de informação perfeita e os de informação imperfeita, os infinitamente longos.

E já agora

- Imagine um diálogo entre o Capitão gancho e o Peter Pan; quais seriam os tipos de jogo adoptados? Riscar o que não interessa (o infinitamente longo por não ter par é verdadeiro por defeito)

- Quais os aspectos paradoxais que atestam a ambiguidade da opinião pública?

- Porque é que quanto mais escrevo mais sarcástica me torno?

"...comme si écrire,le mouvement incessant d'écrire, nous libérait du jeu de l'écriture."

Blanchot e o movimento incessante como estratégia de libertação do próprio jogo.

" Par le livre, l'inquiétude d'écrire - l'énergie - cherche à se reposer dans la faveur de l'ouevre, mais l'absense d'ouevre l'appelle toujours dès l'abord à répondre au détour du dehors, lá où ce qui s'affirme ne trouve plus sa mesure dans un rapport d'unité"

(L'entretien infini)

Thursday, September 14, 2006

Chuva sol
chuva mole
dada
argila
molhada
gira sol
roda solar
mão de oleiro
a pingar
tinta sol
dada
à terra
lavrada

Saturday, September 09, 2006

Assisti ontem à estreia de Miss Daisy no auditório Eunice Muñoz em Oeiras.
“Driving Miss Daisy” estreou em Nova Iorque em 1987 e esteve três anos em cena, ganhando o prémio pulitzer de 88. Em 989 é feita a adaptação ao cinema pelo próprio autor – Alfred Uhry. Valeu-lhe o Oscar da “melhor adaptação”.
A tradução feita para Eunice Muñoz, Guilherme Filipe e Thiago Justino, é da responsabilidade de António Barahona. Com a minha escassa cultura, não o conhecia. Fiquei a saber que é poeta.
Não pretendo fazer aqui uma crítica ao espectáculo, aos actores, ao encenador ou aos técnicos. A um crítico, julgo eu, cabe “meter-se” dentro do criticado e tentar perceber porque escolheu ele fazer assim. Só o poderá fazer se conhecer a técnica utilizada na produção da obra. Estou a falar do crítico e não de quem opina. Acho muito bem que se opine, e que se critique.
Posso fazer uma crítica ao público, eu estava metida na plateia.
O público é parte de um espectáculo. Aquele público ontem era de estreia, ou seja, convites e muita gente do meio (fui com o meu irmão actor). Esperava eu que acompanhassem as tensões e descontracções do texto, os sentidos de humor claros e escuros; as modificações nas frases, que repetidas ao longo dos vinte e cinco anos em que decorre a acção, deixam de ter o sabor da ironia incisiva e graduam até ao hábito envelhecido, enriquecido.
As gargalhadas do público não graduaram; não sei porque escolheram rir assim.

Nunca tinha visto a Eunice Muñoz ao vivo. O seu gesto é extraordinário e oportuno. Os pés, as mãos, dizem as falas. Se as perde por vezes, é só na voz; o seu corpo mostra que não se perdeu.
O seu sorriso no fim mostrou o que todos ganhámos.


[Sempre que releio o que escrevo encontro “novas interpretações”; não faz sentido apagar o que escrevo, ou modificar de cada vez que cá venho. Ao ler isto, pareceu-me que estava a fazer uma critica velada ao texto da peça, e sendo assim, a armar-me em espertinha. Como se conhecesse a técnica utilizada na elaboração daquele, ou de outros textos. Não conheço. A fazer fé na Maria: “quem escreve escreve-se”, devo ter pretensões à esperteza.]

Monday, September 04, 2006

Estou na praia. A espuma é mais branca, muito mais branca. As ondas estendem baixinho e a lua no céu está quente, o vento sabe. O vento é quente e trás o som do mar (o cheiro não, estou na esplanada e cheira a pessoas depois de um dia de praia; a banho, champô e perfumes)
E não deve haver som igual em cada onda. Nenhuma se levanta da mesma forma. Começa aí, como se dançar emitisse som sustentado. Nenhuma prepara o ataque com a mesma força; não tem repouso o silêncio.
A cor está pintada, pouco dizível. É aproximada ao brilho de penas ónix, azuladas pela lua.

Monday, August 28, 2006

Às vezes
sou dedos sem arco
num lago legato
com portamentos
às vezes

Sunday, August 27, 2006

Aquilo ali em baixo ficou desarrimado, arritmado, confundado, deselegante e desairoso.
Vou tentar arranjar.


Salguei a neve
de um dia ao passado
gelado

Não sei o lugar
mas estava vazio
caiu aberto
esculpiu um rio
e é tão comprido
traça tão cheio
enche perdido
cresce p’lo meio
Chamo-lhe rio, pois
não sei o lugar
da neve sem frio
que é fonte de mar




[Adenda- apêndice.
Ficou pior. A répétition parece:
- Patáta patáka patica pató
e trálalé troleli trololo lo]

Friday, August 25, 2006

A neve foi limpa
até ao passado
não sei o lugar
só vejo um buraco
que por estar tão perto
por estar vazio
caiu aberto
esculpiu um rio
E é tão comprido
traça tão cheio
enche perdido
Não sabe o lugar
chama-se rio
neve sem frio
fonte
do mar

Monday, August 21, 2006

É engraçado ao olhar o mar, lembrar que os pontos de luz ao chegar são corpo de estrela viva. Ao tocar no mar reflectem as ondas no ar (com o timbre do sol) Outros mergulham, refractam; vão mais devagar.

(a fotografia - grafia do fotão - é no lado esquerdo, uma imagem da galeria do HubbleSite, e no direito, o mar aqui à frente, tirada a semana passada)

Sunday, August 13, 2006

A profundidade não interessa, pois não?
Pode ser bem alto no cimo da cordilheira. Dentro de um tronco com musgo do mar. Lá tão alto é onde vou morar.
De manhã o mar nascerá. Vou atirar as pérolas ao céu; o sol vai gostar de as pentear. E o barco será tecido algodão com as cores das luas já penteadas, aureoladas. Irei pescar as músicas da floresta para que na festa os pássaros possam dançar.
Ao pôr do mar voltarei ao ramo da cerejeira, à festa da cordilheira.
Não importa a altura, pois não?

Tuesday, August 08, 2006

E hoje nada de teses, hipóteses, hipotenusas ou arcos. Quero que tudo isso se baralhe.
A todas as horas. A cada hora uma nova ordem, um novo mundo. Deve ser do vinho. (bebi vinho – Monsaraz; um copo e meio)
Hora a hora; afinal após os primeiros três minutos, nada de importante aconteceu nos milhões de anos seguintes. Só quando o universo completou um milhão de anos de idade, nasceu o primeiro átomo. Mil milhões de anos, e o universo estava repleto de nuvens de hidrogénio e hélio rodopiando no espaço. A força chama os átomos ao centro, a velocidade aumenta, a energia multiplica-se. Dez milhões de anos depois, no centro contraído, a temperatura sobe a vinte milhões de graus fahrenheit. Deflagra a reacção nuclear, a energia flui para a superfície. Nasceu uma nova estrela. Hora a hora.

Friday, August 04, 2006

Guerra – luta entre nações ou partidos, campanha, arte militar, hostilidades.

A guerra projecta-se no político, ultrapassa o domínio do individual.
Será assim?

“(...) o horror que nos convence de que o que ali se passou constitui um crime contra a humanidade, não reside no facto de, apesar de partilharem a humanidade com as suas vítimas, os assassinos os terem tratado como piolhos. Isso é demasiado abstracto. O horror consiste nos assassinos se terem recusado a imaginar-se no lugar das suas vítimas, ao contrário de todas as outras pessoas. Por outras palavras, fecharam os corações. O coração é a sede de uma faculdade, a compreensão, que nos permite partilhar, por vezes, a essência de outrem (...) Em cada dia há um novo holocausto e, no entanto, tanto quanto me consigo aperceber, a nossa essência moral permanece intocada. Não nos sentimos maculados.”
J. M. Coetzee

No domínio do político, cito Aristóteles

“Pertence à sabedoria, quer de cada homem tomado individualmente, quer de todo o Estado em geral, o dirigir as acções e a conduta para o melhor fim. Ora vários pensam que mandar nos semelhantes, se se faz de uma forma despótica, é uma grande injustiça; se se faz duma forma civilizada, não é uma injustiça, mas somente um obstáculo para a sua tranquilidade (...) Um legislador deve gravar profundamente no espírito do seu povo que aquilo que é bom para cada um em particular é igualmente bom para o Estado; que não é conveniente dedicar-se aos exercícios militares com a intenção de sujeitar aqueles que o não merecem; que tais exercícios só devem ter por finalidade o defender-se a si próprios da escravidão e até o tornar-se úteis aos vencidos. A finalidade não é dominar todo o mundo, mas unicamente os que não são capazes de bem usar da sua liberdade e que mereceram a escravidão por causa da sua malvadez”
(tratado da política, Aristóteles)

A “malvadez” lembra o “eixo do mal”.
A guerra - o mal – os maus.
O mundo não reproduz o conto de fadas onde os maus sofrem justos castigos e os bons vivem felizes para sempre. No mundo da humanidade os “maus” seguem e respeitam as ordens dos seus legisladores, e os “bons” não vivem felizes com as ordens dos “escravos da malvadez”.
Nunca estive num país islâmico, (quando eu era pequena, a minha mãe dizia-me que o meu trisavô era um príncipe árabe; se lhe perguntar hoje é bem capaz de reafirmar; a imaginação ocupa-lhe a história) não sei como sentem as suas leis, se as vivem ou se simplesmente as seguem. Sei, ou fazem-me saber, que a grande maioria dos muçulmanos não são extremistas, fanáticos. Sinto no entanto, que o Ocidente ficaria mais tranquilo se os infiéis se convertessem, não ao cristianismo, mas à democracia, ao Estado de direito, ao secularismo.

Já há um tempo chegou-me aqui a casa um livro pelo correio, cujo destinatário era o Eduardo Prado Coelho. Deduzo que aqui morou, e não sabendo eu como o devolver, sendo um livro, paciência, desculpe lá ó Eduardo, fiquei-lhe com o livro. É uma compilação das intervenções de alguns oradores num curso livre de História Contemporânea, cujo tema foi, a globalização e democracia.
Uma das oradoras, Teresa Patrício Gouveia, afirma que em meados do séc. XXI, a civilização ocidental representará apenas 1 a 5% da população mundial (devo dizer que este número me espanta, não sei se terá algum fundamento real). Mas seja qual for a percentagem – “talvez tenhamos, sabiamente, que aceitar, nas sociedades, a conflitualidade; de compreender que os homens não querem todos as mesmas coisas; que os valores que adoptámos estão eles mesmos em conflito” Isaiah Berlin ( Four essays on liberty)

Monday, July 24, 2006

(tento as formas)

Tanka

Na sombra de Deus
atravesso o deserto
ao meio dia
chego à terra da água
que nunca me prometi

Monday, July 17, 2006

Já aqui falei no Zé. Mendigava, consumia, ressacava, mendigava. Contou-me, e eu acreditei, que a mãe o deixou com a avó ainda antes de ter feito um ano. O pai já o tinha deixado com a mãe durante a gravidez. Cresceu com a avó. Sem sapatos não pode ir à escola, a professora não o deixava entrar descalço na sala. O Zé não sabe ler nem escrever. Fumou pela primeira vez aos cinco anos e apanhou a sua primeira piela aos sete, numa pescaria. Tão grande foi a bebedeira, que caiu da bicicleta quando tentou regressar a casa e ali ficou inconsciente até ao anoitecer. Aos doze começou a trabalhar como servente de pedreiro e dois ou três anos mais tarde já fazia serventia a traficantes.
Na última noite que aqui jantou, antes de entrar para a comunidade onde está em tratamento, dizia assim aos meus filhos:" - Vocês não têm blocos vermelhos? Pois então, os blocos vermelhos comem os blocos brancos. E depois um gajo constipa-se e pode morrer. O HIV é quando é assim o princípio da doença, e a sida é quando a doença já está mesmo na morte."
Com ele aprendi como fazer um alambique na prisão. Corta-se um garrafão de lixívia de cinco litros, vazio, está claro! Com duas colheres e um pau no meio faz-se a resistência. Separa-se uma das extremidades de um fio eléctrico e une-se a cada uma das colheres; a outra extremidade liga-se à corrente eléctrica. Põe-se a chicha (fruta e pão que fermentaram quinze dias antes, dentro de um balde) no garrafão e mergulha-se a resistência lá no meio. Faz-se um orifício num dos lados e introduz-se um tubo de cobre. Esse tubo sai do garrafão, e passa dentro de um lavatório com água fria. É necessário deixar sempre um fio de água a correr na torneira para que a água não aqueça. Finalmente, termina dentro de uma garrafa, para onde pinga a aguardente destilada.
Aprendi muitas outras coisas. Como fazer uma "máquina" de tatuagens ou o que fazer em caso de overdose. Aprendi que o limão estragado, quando usado na preparação da "dose" provoca febre muito alta; que a ressaca provoca um descontrolo completo do organismo, desde as insónias ou dores musculares, aos vómitos e diarreias.
A manhã é a pior parte do dia, até se "orientarem", para a primeira dose. Mais que uma vez, ao abrir a porta de manhã, encontrei o Zé deitado no chão, agarrado ao estômago a gemer.
Um destes sábados visitei o Zé na comunidade onde faz tratamento. Comigo foi o Carlos, amigo e coabitante do mesmo carro abandonado; companheiro de expediente nos parques de estacionamento, nos peditórios à porta da igreja, nos pequenos furtos em supermercados. O Carlos também está em recuperação, mas num programa em regime mais aberto, podendo sair com alguém que se responsabilize por ele.
Engordou onze quilos, o Zé. A dicção também melhorou consideravelmente, apesar de continuar sem nenhum dente. Está dolorosamente resoluto. A coisa não parece fácil. No dia anterior à nossa visita tinha tido "reunião de sentimentos", evento a que eles (os utentes do pavilhão primário - primeira fase do tratamento) chamam a "passerelle". Daquilo que me contou, ficou-me a ideia de um apedrejamento terapêutico. Não é uma exposição feita por ele ao resto da assembleia (constituída pelos colegas de tratamento que com ele partilham o pavilhão primário - cerca de vinte). Passa-se ao contrário. Os colegas, um a um, apontam-lhe todos os defeitos que em dois meses de convívio enclausurado puderam descortinar. E o objectivo é, segundo as palavras do Carlos, que também ali esteve em tratamento, mas que não aguentou mais de quatro ou cinco meses; o objectivo diz então ele, é "encontrar as feridas e enfiar o dedo lá dentro, rodando afincadamente até ao osso." E o que se tira daqui? É um exorcismo; espera-se no fim uma explosão de raiva, uma fúria catártica, qualquer coisa de - sai daí ó demónio. E pronto! Ao Zé descobriu-se-lhe o seu orgulho exagerado e o seu uso desenfreado da manipulação (que por coincidência são adjectivos que rotulam qualquer adicto). Depois da descarga apoteótica do "modelo na passadeira" vem o reconhecimento de que falhas de carácter são humanas, mas que terão que ser sempre reconhecidas.
Sei que a taxa de sucesso na recuperação de toxicodependentes e alcoólicos nesta comunidade é das mais elevadas no país. Não sei como justificar os meios.

Wednesday, July 12, 2006

Os aniversários dizem outra vez.
O improptum tem um ano. Fez desta vez.
Um ano passado, com tantas faltas. E a justificação não é aceitável. Faltei ao blogue porque não parece ser fácil a quem lê, acreditar nas minhas "histórias".
Quando escrevo, confundo. As palavras intimidam-me, transmutam-se.
Só prova que aprendi muito pouco. Chumbei.

Tenho feito muitas perguntas. Devia tentar responder.
Lá em baixo, perguntava porque é que as crianças nos seus traços informes procuram tudo o que é redondo.
Acho que procuram o limite da forma diferenciada.

A interacção gravitacional (interacção de intensidade muito fraca, sempre atractiva, de longo alcance, abrangendo todas as partículas) é muito fraca à escala das partículas; torna-se no entanto preponderante à escala macroscópica. O facto de ser sempre atractiva faz com que se acumule eficazmente. A força gravitacional é cumulativa. As interacções electromagnéticas não possuem esta propriedade; são atractivas ou repulsivas segundo o sinal das cargas em presença, apesar da neutralidade eléctrica da matéria anular os seus efeitos a longa distância.
"Um objecto compacto de massa fraca é dominado pela interacção electromagnética. Ele pode, por isso, ter qualquer forma: mesa, garrafa, bicicleta... Mas quando a quantidade de matéria em causa ultrapassa um certo limiar, as forças de gravitação acabam por se sobrepor às forças eléctricas e o objecto em questão apenas pode existir sob uma forma grosso modo esférica. Assim, os planetas e as estrelas somente podem ser redondos, enquanto os asteróides com um raio inferior a 300 Km têm ainda o direito de possuir formas irregulares."
Étienne Klein. Sob o átomo, as partículas.

As crianças procuram com os seus primeiros traços desenhar o redondo
O redondo é grosso modo o limite da forma diferenciada
post hoc, ergo propter hoc
As crianças procuram o limite da forma diferenciada

Poderia dizer que procuram a forma esférica porque é a forma que apresenta a menor área de superfície para um dado volume; a forma que apresenta melhor resistência à pressão exterior. Mas, diz-me o bom senso que as crianças gostam de grandes superfícies; e não sabem defender-se das pressões exteriores.
Há mais respostas, claro. Esta poderia ser a do Renatus Cartesius - as crianças procuram o grande espírito.
" (...)Todos os corpos líquidos ou gasosos suspensos no ar têm a forma esférica, (...) Assim a energia que chamamos de espírito também obedece a este sistema. Quando nascemos temos esta energia esférica muito pronunciada e o sistema funciona da seguinte maneira, - no começo somos menos matéria e mais energia (...) "
Regulae ad directionem ingenii - regras para a direcção do espírito
René Descartes, o do "penso, logo existo"

Respostas estão no tudo. Para responder escolhe-se a parte "simples" e zás, aplica-se a lógica da síntese. Há resposta, no que existe. Existe, logo cogito.

A propósito de redondo; tenho-me comportado aqui como um quadrado, uma besta-quadrada. Peço desculpa aos redondos/as. E também aos bicudos/as.

Saturday, April 22, 2006

Apetece-me estabelecer como postulado:
A poesia desloca-se de um ponto ao outro no plano espacial sem direcção temporal.
(a velocidade deste deslocamento será infinita, já que a velocidade inclui um deslocamento pelo intervalo de tempo - que na poesia é zero)

Feito um postulado, vou escrever à poesia.

Olha, porque não me ensinas
onde se pousam momentos?
Sem tempo e com tal tamanho
como paro os movimentos?
Onde se aportam as asas?
Como vou prender os ventos?

Friday, April 14, 2006

A teoria do centésimo macaco - consciência colectiva

Toda a gente tem uma ideia do que é um campo magnético ( quem não brincou com um íman, uma folha de papel e um qualquer pequeno objecto de ferro? ) Agora imagine-se um campo afectando toda a região à sua volta. Campo esse que molde a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material, actuando sobre qualquer sistema que apresente algum tipo de organização inerente. Haveria um campo específico para cada estrutura de ordem - átomos, moléculas, cristais, organelas ... sistemas solares, galáxias. A esses campos " formadores" chamou Rupert Sheldrake - campos mórficos.
Para nos dar uma ideia da teoria:

" Era uma vez duas ilhas tropicais, habitadas pela mesma espécie de macaco, mas sem qualquer contacto perceptível entre si. Um símio da ilha A descobre uma maneira engenhosa de quebrar cocos, que lhe permite aproveitar melhor a água e a polpa. Ninguém ainda tinha partido os cocos dessa forma. Por imitação, o procedimento rápidamente se difunde entre os seus companheiros e logo uma população crítica de 99 macacos domina a nova metodologia. Quando o centésimo símio da ilha A aprende a técnica recém-descoberta, os macacos da ilha B começam espontaneamente a quebrar cocos da mesma maneira."

A partir do momento em que o centésimo macaco adopta o mesmo comportamento cria-se uma consciência no hábito da espécie - um campo mórfico. ( a história dos macaquinhos não é verídica )
O conhecimento adquirido torna-se património colectivo, memória e consciência colectiva da espécie.
E como se propaga a informação nos campos mórficos? Bom, a isso chamou Sheldrake ressonância mórfica. E como? "(...) a ressonância mórfica é um processo básico, difuso e não intencional (...)". Segundo o biólogo os campos mórficos não utilizam energia, por isso a intensidade não decai com a distância. O que se transmite através deles é informação pura. Actuam sobre a matéria impondo padrões restritivos sobre processos energéticos cujos resultados são indeterminados ou probabilísticos.
Apresenta como "exemplo real " o comportamento de novas substâncias químicas sintetizadas em laboratório.

" (...) Dependendo das características da molécula, várias formas de cristalização são possíveis. Por acaso ou pela intervenção de factores puramente circunstanciais, uma dessas possibilidades efectiva-se e a substância segue um padrão determinado de cristalização. Uma vez que isso ocorra, porém, um novo campo mórfico passa a existir. A partir de então, a ressonância mórfica gerada pelos primeiros cristais faz com que a ocorrência do mesmo padrão de cristalização se torne mais provável em qualquer laboratório do mundo. E quanto mais vezes ele se efectivar, maior será a probalidade de que aconteça novamente em experiências futuras."

A ser verdade, estes campos "legisladores" ao preço da quantidade oferecer-nos-iam informação pura, mas sem discernimento de conteúdos. Consciência de massas, a partir da repetição.
As estruturas existentes seriam um produto de fenómenos semelhantes, transmitidos sem energia.

A ordem das minhas ideias não acredita nesta hipótese dos campos mórficos; se mais noventa e nove macacos passassem aqui e se juntassem à minha opinião, tínhamos a teoria da consciência colectiva negada. Ou sendo mais precisa; teríamos um campo mórfico da negação dele próprio.

Saturday, April 08, 2006

Alecrim madressilva, açafrão e Primavera

O sol acordou chama .
Acordou
desceu as escalas
em modos quentes
e sussurou
não chamou
acordou
cores
nos ouvidos
das sementes

Wednesday, March 08, 2006

Frida Khalo

É só uma tela nas cerdas frementes
que pinta, repinta com cabos de dor

É só uma corda na crina tremente
que rincha, relincha com arcos de cor

Só um pincel
quilha voante
de corda dorsal

Friday, March 03, 2006

Quando aqui venho, volto ali abaixo e leio aquilo que me pareceu uma inequação ( da Shophia Andresen).
Não é uma inequação. São frases. Contraponto, que se pode sujeitar a inversões e a cruzamento de vozes, beneficiando assim os movimentos melódicos.
Espero ter resolvido a charada. (descobrir é novo, aprender é acrescentar)

A música é número e é frase.
A música é onda longitudinal, fenómeno físico, perturbação oscilante.
É tudo mais que isto.

Tuesday, February 28, 2006

lenga-lenga
lenga-lenga

balanço na areia
do vidro do tempo
baloiço uma pedra
no meu pensamento

rasgar
os olhos
co'a pedra
rosada
macia

fluida
fluído

chá de pedra alaranjada
um rasgo de madrugada

Wednesday, February 22, 2006

Não deve ser poesia aquilo que ali escrevi, não fiquei paralalética.
Inventei um poemómetro.

Estou mais tranquila, o meu pai continua a melhorar. Já respira sozinho, alimenta-se com sopa (ainda num tubo) e o coração está a restabelecer.
Enganei-me no nome do Hospital. É Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil. Está escrito na colcha da cama.
No segundo piso fica o bloco operatório, se repararem nas ombreiras das portas verão que a tinta está lascada numa altura que corresponde rigorosamente à altura das macas.

Tuesday, February 21, 2006

Oito meses de blog

Engravidei
de palavras fecundadas
caudadas
caudal
a crescer e a mexer
estão cá dentro
não sei o que vai nascer.

Friday, February 17, 2006

Não devia ter falado assim.
Tinha estado na sala dos cuidados intensivos com o meu pai, tinha discutido com a enfermeira, tinha chorado.
Quando cheguei, tinha uma namorada de um amigo, que chorava, com a sua bebé, que vomitava. Ficaram para jantar.
E também há o Zé, um dos mendigos (eu sei o nome de todos os mendigos com quem falo). Ontem o Zé também chorou, tinha consumido mas tinha dores. Queria atirar-se para debaixo do comboio, queria falar, queria que eu o ouvisse. Queria ser gente.

(Este blog está transformado num diário)

Thursday, February 16, 2006

Na sexta-feira passada, às três da tarde, uma equipa de cirurgiões do Hospital de Oncologia serrou as costelas do meu pai.
Não é uma imagem metafórica, se fosse escreveria qualquer disparate como - Ontem levei o piano para cima da bancada de mármore. Disseram-me que o deitasse, só assim ficaria vivo. E com uma grosa limaram as cordas .
Cortaram-lhe o lóbulo superior esquerdo do pulmão.
Anteontem teve um enfarte do miocárdio, e os visionários médicos verificaram que a expectoração que se acumulou no três quartos de pulmão originou uma pneumonia.
Está nos cuidados intensivos, sedado e estável. Não é uma alegoria, é mesmo a vida do meu pai.
A vida do meu pai está presa, não por um fio, mas por vinte tubos de diâmetros diferentes.

( Desculpem o amargo, é evidente que a literatura não tem culpa, talvez nem mesmo os médicos;... é a vida )

Monday, February 13, 2006

Descobri que a poesia me deixa com paralalia (desaparecimento permanente ou temporário da fala).



“O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome é a sua moral. E não há outra.Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade (...) é impossível destrinçar o que é da razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse “pastor do Ser”, na tão bela expressão de Heidegger, é, como nenhum outro homem, nostálgico de uma antiga unidade (...) Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem.
(...) Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis – a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens.
(...) Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?(...) "

Eugénio de Andrade. Poesia e prosa.


Os dois últimos parágrafos parecem ter a fatalidade de um terrível sortilégio. Criar poesia é então a mais dura das sinas, o abdicar da vida para dar lugar à obra que só servirá os outros. Uma paixão de Cristo gota a sílaba? Será verdade? Ao fim de quantos poemas estará morto o poeta?
A ideia da criação poética como um esvaziamento da vida aparece também em autores como Herman Hesse (viagem ao país da manhã) ou José Régio (três ensaios sobre arte). Será uma proposição verdadeira? Como fundamentar esta asserção? A ser verdadeira a mutilação da vida pela arte, estranho como lhes terá sido possível escrever roubando à vida. Até onde terão chegado?
Talvez aqui – “ palavra inaugural, óvulo e matriz de todas as iluminações e de todas as metamorfoses” (Albano Martins. Do mundo grego outro sol)


Também encontrei esta inequação
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.
O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais.
Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Sophia de Mello Breyner Andresen
( como se resolverão inequações com “mas”?)


Olhem, e mais isto:
[Neste livro são relatadas uma série de conferências proferidas na Universidade de Princeton entre 1997/98. Coetzee, romancista, propõe a sua conferência em forma de ficção. Cria um evento académico (acaba por ser uma conferência ficcionada, dentro de uma conferência ), e a convidada que expõe as duas comunicações é também uma romancista, que escolhe como tema, não a literatura, mas sim o abuso dos humanos para com os animais ]
“ A poesia não faz nada acontecer, escreveu W. H. Auden. Mas é verdade? E deve ser verdade? O que tem a poesia a oferecer, o que tem a linguagem a oferecer, com excepção da arte da palavra? Nestas duas elegantes comunicações, pensámos que John Coetzee estava a falar de animais. Será possível que, durante todo o tempo, ele estivesse realmente a perguntar: - Qual o valor da literatura? “

J. M. Coetzee. As vidas dos animais



Já aqui disse que para mim as palavras não são exactamente nada, e por não serem exactas são tão fascinantes e inquietas como as pessoas.

Monday, January 09, 2006

Para 2006


Peço uma montanha que se oiça degelar
com torrentes a pulsar
os peixes dancem no ar
e as flores rebentem devagar
a cheirar
a beijar
as folhas acordadas
Que não parem sossegadas
as folhas todas pintadas
caminhem enfeitiçadas
iridescentes e enluaradas
Que o som se propague nos pulsares da torrente
as estrelas dancem na terra nascente
e a montanha rebente devagar no ar
deixando cascatas a flutuar

Friday, December 30, 2005

E a propósito da quadra

Ter sabido que Jesus não deixava prendas no sapatinho ensinou-me a invenção da mentira.
Saber agora que afinal o Natal existe ensina-me que a mentira tem movimento contrário. Ensina-me também que se existe, deixa sentir falta.

Thursday, December 22, 2005

E no princípio era o verbo ...

"Enquanto os livros estão escritos em palavras de comprimento variável, utilizando vinte e seis letras, os genomas estão inteiramente escritos com palavras de três letras, utilizando apenas quatro letras: A, C, G e T ( que significam adenina, citosina, guanina e timina). E em vez de estarem escritos em páginas planas, estão escritos em longas cadeias de açucar e fosfato, chamadas moléculas de ADN, às quais as bases estão ligadas como escadas de mão laterais. Cada cromossoma é um par de moléculas ( muito) longas . Colocados de extremidade a extremidade e estendidos a direito, todos os cromossomas de uma única célula teriam um comprimento de cerca de 183 cm. Todos os cromossomas de todas as células de um corpo cobririam 160 mil milhões de quilómetros (...) A ideia do genoma como um livro não é, estritamente falando, sequer uma metáfora. É literalmente verdade. Um livro é um pedaço de informação digital, escrito de uma forma linear, unidimensional e unidireccional e definido por um código que transcreve um pequeno alfabeto de símbolos num grande léxico de significados através da ordem dos seus agrupamentos. Assim é o genoma."

Genoma. Matt Ridley, Gradiva


Tuesday, December 20, 2005

Já estamos tão perto do Natal. Há tanto a fazer, a preparar. E eu gosto de cozinhar, de sentir o cheiro mais cheio. Cozinhar o Natal materializa memórias de paz.
Os meus filhos também preparam o Natal. Ensaiam canções, pintam Jesus bebé, recortam estrelas, e as duas meninas, com as primas, experimentam dançar como os anjos.
Faltam as prendas, ainda não comprei nenhuma. Vou passar estes dias nos centros comerciais à procura do que não está lá.

Friday, December 16, 2005

A ciência do século XVII, até ao primeiro quarto do século XX , chegou a uma visão do mundo em que os acontecimentos seriam perfeitamente determinísticos, ou seja – o que acontece tem uma causa. (A física quântica com a interpretação mais correcta dos quanta, verificou que o determinismo não pode ser completo) .
Julgo que a ciência não tem a verdade, observa efeitos e procura as causas por exclusão. Mas cabe numa parte. É um retalho verosímel.
A justiça nunca é um retalho verosímel, precisa do todo.
O todo é ordenado? As injustiças serão partes desordenadas? As leis são ordens? As agraphoi nomoi – leis naturais, não escritas -, impulso de filantropia e solidariedade estarão presentes nos Homens? Sempre?
E a liberdade parece-me ainda mais complicada, com a sua dicotomia – autonomia/responsabilidade.
A autonomia, decidir e agir. A responsabilidade, os efeitos nos outros envolvidos que muitas vezes não têm responsabilidade na causa da decisão.
Compatibilizar liberdades , não será esse um dos maiores mistérios guardados no Universo?

Wednesday, December 14, 2005

Tenho andado doente, não gosto de estar doente. A boca sabe mal, o corpo assusta-se e treme.
Quando me doi a cabeça gosto de ler.
Então li.

Do Edgar Poe: O corvo e outros poemas, tradução de Fernando Pessoa.
Nas últimas páginas trazia uma análise à génese de um poema, feita e feito (a análise e o poema) pelo próprio Poe, à qual chamou - A filosofia da composição.
" (...) e visto que o interesse de uma tal análise ou construção, que considerei como um desideratum em literatura, é completamente independente de qualquer interesse real suposto na coisa analisada, não me acusarão de faltar às conveniências, se desvendar o modus operandi graças ao qual pude construir uma das minhas próprias obras (...) a minha intenção é demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído ao acaso ou à intuição, e que a obra avançou, passo a passo, para a solução, com a precisão e a lógica rigorosa de um problema matemático (...)"


Já não me doi a cabeça.
Então escrevi.

Prova o mar. Que sabor doce e quente tem?
(são rabanadas? ou aletria?
sabe-te a prosa ou poesia?)
É sal atirado pela Terra mãe.

Sente. Estátua metrificada?
(mexes na tinta? pintas com preto?
nadas frases, flutuas sonetos?)
Mar é pai de toda a vida criada.

Wednesday, December 07, 2005

Fiz girar a roda do leme. Ofereci a proa ao vento. As velas por um momento tornaram-se bambas, depois, sob o impulso do stretto, vibraram num movimento inconcebível.
As vagas inundaram o castelo de proa. A meia-nau, sinto violentos esticões provocados pelas correntes das âncoras.
O vento fala-me das sonoridades impressas no ar.

Em termos náuticos, o caminho seguido numa viagem por mar é chamado de derrota.
Este, ali em cima, ancorado, é a minha derrota.

Monday, December 05, 2005

Ontem um familiar meu foi preso. Estranho, o que me contaram foi que não esteve presente em julgamento; faltou como testemunha. Apesar de ter justificado a falta, esta não chegou ao juiz.
Hoje, agora, já está em tribunal. Ainda não sei nada. Imagino que tenha tido uma noite que nunca mais vai passar.



Já está em casa, foi um engano do tribunal, a juíza aconselhou-o a processar o tribunal.
( agora sei modificar isto, posso actualizar a notícia)

Sunday, December 04, 2005

respiração

Inspiro e recebo. Expiro, dou e preciso. Inspiro e reencontro. Reconcilio-me.

O aparelho respiratório é um tubo que começa no nariz, continua pela faringe, a laringe, a traqueia e os brônquios. Alarga-se numa maior superfície ao nível dos alvéolos pulmonares, e aí permite o intercâmbio de gases com o sangue. Esse intercâmbio de oxigénio e dióxido de carbono recebe o nome de respiração. É claro que nada disto é novidade. É também senso comum constatar que o sistema respiratório e o sistema circulatório trabalham em estreita colaboração. Todos sabemos que um choque emotivo estrangula a respiração ainda antes de se sentir o aceleramento do coração. Pelo contrário, quando estamos tranquilos a respiração é naturalmente lenta.
Nas nossas heranças ancestrais, o ritmo respiratório controlado e constante (muitas vezes acompanhado de movimento balanceado), faz parte de rituais de oração, de procura de essência espiritual, energia única.
Mais curioso é saber que há quem associe o ritmo respiratório ao comportamento. Há quem afirme que o ritmo respiratório condiciona e orienta o comportamento de massas. Que os hinos, marchas ou slogans impõem ritmos colectivos que transpõem o individual.

Wednesday, November 30, 2005

E os setenta anos da morte de Fernando Pessoa

A morte acompanha-nos sempre, a morte é o que a vida recusa.
A vida é muito. Cresce na morte.
A morte é a vida a transformar-se.
Assim a vejo eu.

O Fernando Pessoa, daquilo que o conheço escrito, parece ter visto exactamente o oposto - a vida é a morte a transformar-se.
"(...) Pela morte vivemos, porque só somos hoje porque morremos ontem. Pela morte esperamos, porque só podemos crer em amanhã pela confiança na morte de hoje. Pela Morte vivemos quando sonhamos, porque sonhar é negar a vida. Pela morte morremos quando vivemos, porque viver é negar a eternidade! (...)"

É tido como sabido que Pessoa escreveu com o fingimento da sinceridade.
Como viveu e morreu não vi.

Monday, November 28, 2005

Mareorama


O Mar aqui, em Novembro, de manhã tem muitas cores. Não sei porquê.
Ao fim da manhã, gradualmente, as matizes intrometem-se, e vistas daqui, aproximam-se de um tom monocromático.
Hoje, como em muitos fins de semana, veêm-se velas brancas. Perfilam-se numa simetria sossegada.
Ao fim da tarde as nuvens descem ao mar e recebem o Sol.

Friday, November 25, 2005

O neutrino é uma partícula neutra, e parece que atravessa a matéria sem chocar com nada. São uma imensidão deles; em cada cm quadrado passam 60 mil milhões por cada segundo. Viajam a uma velocidade um pouco menor que a da luz. A sua massa é ainda desconhecida (julgo eu), mas é com certeza um "peso pluma".
Foi "inventado" em 1930 por Wolfgang Pauli. Criou-se para fundamentar a lei da conservação de energia.
É prodigioso pensar que são emitidos em quantidades "astronómicas" pelo Sol e pelas estrelas, e que percorrem o Universo em todos os sentidos. Atravessam de lado a lado um planeta ou um de nós sem chocar com nenhum átomo.
Ontem pensei neles como partículas livres, mas, sem chocar com nada, não deve ser liberdade.O mais provável é ser uma partícula solitária.

Só agora fui buscar o resultado das análises. Há uns meses caiu-me muito cabelo, mais de metade. Agora cresceu tanto que não se vê a risca, estão a ver? Aquele risco no cabelo, quando nos penteamos. Nas análises está tudo nos parâmetros normais, a causa é desconhecida. Por outro lado emagreci cinco quilos, mas a causa é reconhecida. É o Outono, fico sem fome.
Um bom dia!

Thursday, November 24, 2005

E hoje queria ser um neutrino, a partícula que se introduz no vazio intersticial da matéria tão fácilmente e livremente como um cometa atravessa o espaço intercósmico.

Sunday, November 20, 2005

Aqui descobri palavras. Penso por isso mais, nestes “sons” articulados. Expressões de pensamento, dialectos de significação.

Tenho andado a ler aos meus filhos a “Alice” de Lewis Carroll.

“- Quando uso uma palavra ela significa aquilo que eu quero que signifique...nem mais nem menos.- A questão é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes, ponderou Alice. A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.”

A legislação, a lei, é feita de palavras. Apesar de toda a jurisprudência e doutrina, muitas vezes, quem mais manda decide o significado das palavras.

Friday, November 18, 2005

Ontem fui ao teatro. Um dos meus irmãos é actor. Lá em casa, algumas vezes fiquei de castigo por ele ter nascido encantactor. Todos sabiam lá na casa , mas ele é que não sabia, por isso ultrapassava-se. Chorava de mansinho, num crescendo que caía no chão. Até eu acreditava que pudessem ter sido duendes a comer os bombons que tinham desaparecido da caixa debaixo da cama dos pais. O embrulho todo rasgado; alguém tinha que ficar de castigo. E os bombons eram para a dona Aida, a condessa. Não sei se era condessa, baronesa, ou marquesa, mas vivia num palacete que tinha uma sala, que tinha um piano, que tinha uma cauda. Quando a visitávamos, encontravámo-la sempre no jardim a podar as rosas. Lanchávamos no jardim e cantávamos “ainsi font, font, font...”. Comíamos scones com doce de morango, bebíamos chá, e como numa história da Condessa de Ségur, éramos uns amores de crianças durante duas horas.
O teatro, ontem.
A peça não me disse nada, por isso não tenho nada a dizer.
O meu irmão ultrapassa-se agora em palco. Já sabe que é actor, e continua encantador.

Thursday, November 17, 2005

Aqui, e talvez ali e acolá, parece ser importante saber se aquilo que se faz profissionalmente é reconhecidamente e publicamente mensurável, qualificável, "valorável", "catalogável", "quantificável", ..ável..vel..el
Eu não faço nada que possa ser reconhecidamente ou publicamente mensurável, qualificável, "valorável", "catalogável", "quantificável",...ável...vel...el
Parece-me que aqui , como acolá ou ali, esclarecer isto, possa ser "importantável"

Tuesday, November 15, 2005

Uma ciência que gosto muito é a química. De alguma maneira sempre a associei a poções mágicas , a alquimia, à transformação.

Não deixa de ser curioso que os alquimistas possam ter estado tão perto da realidade ao acreditarem que podiam transformar uma substância numa outra. Desconhecendo o que são os elementos, misturavam e aqueciam substâncias. Faziam química ao sintetizar e decompor, mas não podiam modificar a estrutura que define um elemento - a composição do seu núcleo. A sua concepção da matéria era falsa. Há no entanto uma presciência na alquimia.

Monday, November 14, 2005

Neste dia nasceu a minha pequenina, a última a morar em mim.
Eu amo os meus filhos, sei que já saíram, mas ainda os sinto crescer cá dentro.

Sunday, November 13, 2005

Porque é que as crianças nos seus traços informes procuram o que é redondo?
E porque é que os braços nascem sempre antes do corpo? E o corpo quando é desenhado precisa de pernas?
E porque são todas assim?
Eu não sei, mas já soube.

Friday, November 11, 2005


Hoje ao fazer mais uma lista de compras imaginei

- madeira de carvalho
- pano latino
- dois ou três mastros
- quilha
- um convés
- um castelo de proa
- uma coberta
- uma balestilha
- a estrela polar

Pensei de ouvido

O ranger do cordame, o bater das pontas dos rizes no estai, o impulso do vento a rondar a popa, o matraquear das adriças, o sussurrar da água contra o costado.
Largar as velas, navegar à bolina.

Wednesday, November 09, 2005

Enquanto deitava os meus filhos, lembrei-me que eu na idade deles tinha mil colchões em casa. Sei que parece mentira, mas é verdade. Durante grande parte do tempo não eram utilizados e antes de serem arrumados, atiravam-nos cá de cima do hall da rampa lá para baixo para um outro hall, o da televisão. Ficavam lá uns dias e eram depois levados progressivamente para o pátio para serem batidos antes de hibernarem. Durante esses dias eu e os meus irmãos tínhamos o nosso desporto radical . Mergulhávamos de uma altura que não sei precisar. Sei que quando aterrávamos ficavamos submersos nos colchões. O truque era saltar de braços abertos. Para que os braços nos impedissem de descer muito fundo.
Acho o erro essencial e indispensável. É característico da vida. Impele-nos a mudar.
O erro parece ser variabilidade, diversidade e evolução.
Cometo muitos erros, uns propositados (como o título deste blog, por exemplo), outros completamente despropositados . Um dos disparatados foi ter apagado tudo que estava ali para baixo.

Gosto do erro porque se revela.


Segundo neurologistas, o nosso cérebro dá-nos percepções erradas da realidade.
O curioso é que são esses erros que permitem um comportamento inteligente numa realidade tão complexa. Uma máquina que aborde o mundo numa perspectiva pura da lógica, é incapaz de se comportar inteligentemente na nossa realidade. Percebe-se que as falhas no tratamento de informação feito pelo nosso cérebro, são capacidades inigualáveis, que nenhuma máquina pode ainda reproduzir.
Há no entanto erros que tendo nós conhecimento deles, poderíamos tentar limitar.
Este poderá ser um exemplo:
- Ser coerente a qualquer preço.
Verifica-se que o nosso cérebro tem tendência a agir mais fácilmente no sentido de confirmar as nossas posições iniciais, do que pelo contrário, agir de maneira a contradizer a posição já tomada.
Uma experiência realizada não me lembro por quem, mas que imagino que possam ter sido psicólogos, verificou este facto:
-Apenas 30% dos transeuntes que viam caír uma nota da bolsa de uma outra pessoa (alguém contratado para o efeito) , a devolviam espontâneamente ao seu proprietário.
Por outro lado, a taxa subiu para 70% quando alguém dez minutos antes (também um "actor"), pediu que lhe indicassem o caminho, agradecendo calorosamente a sua civilidade.
Concluiu-se que transmitir a alguém a ideia de que é civilizado, semeia nele a ideia de confirmar essa imagem. (Neste caso uma indução pela positiva)

Tenta-se evidenciar que o facto de um indivíduo adoptar uma escolha, o faz sentir aprisionado. A tendência é conformar-se e adoptar comportamentos no mesmo sentido.
Eu decidi parar de escrever, mas não me sinto de maneira nenhuma aprisionada a essa escolha. Conhecendo este "erro " do cérebro de se enformar num comportamento anterior, não deixo de fazer aquilo que agora tenho vontade - escrever aqui.

Saturday, November 05, 2005

De um episódio de fuga - a apoptose ou o silêncio da anulação da linguagem.


Uma vez escrevi (estava ali em baixo, agora não sei onde está) que só dividimos o que diminui. No entanto acrescentei no fim, que dividíamos a vida (e que nos ofereciam a morte).

É evidente que falava de nós, de complexos de sistemas vivos.
As células dividem-se e aumentam, criando tecidos e formando orgãos. Existem no entanto no ciclo celular dois processos opostos. A divisão celular, e a morte celular. A esta morte celular chama-se apoptose.
A apoptose remove determinadas células durante o crescimento e desenvolvimento, permitindo, em equilíbrio com a mitose (divisão celular), manter a forma dos orgãos, do corpo.
Os mecanismos que controlam o ciclo celular ainda não são totalmente conhecidos. Sabe-se no entanto que há sinais químicos que controlam o ciclo celular; sinais que provêm de fora e de dentro da célula. Os sinais exteriores são os hormônios, que agem à distância. Os sinais internos são duas proteínas, uma delas a ciclina, a outra - a quinase. A quinase poderia chamar-se quinau ( acto ou efeito de corrigir um erro ), vinha mais a propósito.

A mudança do estado de quiescência é essencial para um estado de crescimento activo.