Wednesday, November 26, 2008
Sei pai, que nasceste no Algarve, mas sempre me disseste que querias morrer no Alentejo, sozinho com um cão. Morreste aqui, comigo ao lado.
Sei, não, não sei, se aí há palavras, espero que não, quem descansaria?
Mas canto, canto talvez aí chegue, a música não é daqui.
Um abraço, parabéns pelos teus setenta anos.
Sunday, November 16, 2008
Tuesday, November 11, 2008
Monday, October 27, 2008
A murmurar...
E altas canções,
Vindas no fresco Zéfiro do mar....
in Senhora da Noite, Teixeira de Pascoaes
À Chloris (Reynaldo Hahn)
Descobri-a há uns meses, aqui, através da blogosfera.
Aos meus ouvidos, é extraordinariamente bela. Sendo imitação ou homenagem ao período barroco, não deixa de ser um surpreendente fresco.
Friday, October 24, 2008
Animo-me com este cinema desenhado pelas linhas das danças eslavas, a nº7, op.46, de Dvorak. De Bruno Bozzetto, uma caricatura do comportamento humano - a galinha da vizinha não será melhor que a minha - seguidismo ma non troppo.
Friday, October 17, 2008
Não há quem não saiba que não é uma soma de grandezas físicas, mesmo que estas se pudessem medir com exactidão.
Que não é porção misturada, que não é replicação transcrição e tradução de informação, que não é banco de dados de experiências dentro de conhecimento a priori.
Não há ser que não saiba que não sabe o que é.
O que é o homem da mão e da voz.
Wednesday, October 15, 2008
30 anos
Toi
Toi si tu étais le Bon Dieu
Tu ferais valser les vieux
Aux étoiles
Toi
Toi si tu étais le Bon Dieu
Tu allumerais des bals
Pour les gueux
Toi
Toi si tu étais le Bon Dieu
Tu ne serais pas économe
De ciel bleu
Mais
Tu n'es pas le Bon Dieu
Toi tu es beaucoup mieux
Tu es un homme
Tu es un homme
Tu es un homme.
Sunday, October 12, 2008
Discover Gavin Bryars!
Ouvi isto uma primeira vez à entrada do Cabo da Roca, “Donde a Terra se acaba e o mar começa”. Assim, com aquela imensidão de mar muito maior que a orquestra, e por isso, com esta voz muitíssimo mais só.
Em casa, depois, pude perceber que se tratava de uma gravação recolhida à voz de um sem abrigo numa das ruas de Londres.
Parece o outro lado da história da menina dos fósforos. Cada mantra, cada frase repetida, é como um fósforo que a menina acende.
O velho sem abrigo também morreu na rua, sem ter chegado a ouvir a gravação e a remistura.
Friday, October 10, 2008
O texto entretece urdiduras poéticas verticais, a teia da tela, com o fio da trama em linhas de riso de bergson - “anestesia momentânea do coração”.
As frases sucedem-se com picos de grave ao agudo, sem respiração. Oscilam com a palavra e o palavrão, com a introspecção e a insignificância mordente. Agilidade é o que se pede aos actores. Na minha opinião conseguiram dizê-las sem que se ouvissem as mudanças de registo. Cabia aos espectadores escolher um registo, ou, o que me parece que foi conseguido, ouvir em estereofonia. Escrita ágil, sim, foi o que me pareceu. Quanto à grande forma, não me pareceu tão bem conseguida, muito mais frágil. As ligações entre épocas e personagens pouco consistentes, uma espécie de truque de dramaturgia, truque e não magia.
A tonalidade lembrou-me a da casa de Bernarda Alba, a dominante, o filme Agnes de Deus.
Informações aqui
Sunday, October 05, 2008
Ponho aqui a voz do padrinho. Dizem que um alentejano nunca canta só, não imaginariam que viesse a cantar fado.
Discover Antonio Zambujo!
Bem-vinda menina rama, que fortaleças com madrepérola
Wednesday, October 01, 2008
Monday, September 29, 2008
Friday, September 19, 2008
Pediu-me a filha mais nova enquanto ouvíamos na rádio, no carro, uma entrevista a José Saramago. À pergunta - como gostaria de ser lembrado? - Respondeu que como quem escreveu a cena da mulher do médico sentada com um cão que lhe bebe as lágrimas. Referia-se ao ensaio sobre a cegueira e acrescentou que assim como aquela mulher tentou salvar aquele grupo e se sente impotente, o cão se sente impotente com a sua tristeza e lhe bebe as lágrimas.
O Zé Aramago, José Saramago, a humanidade, a mulher e o cão; o Nobel está agora n"a página infinita de internet"
Monday, September 08, 2008
Cubismo
Na forma facetada Braque, na fragmentada Stravinsky, estilhaçada Picasso.
Volumes decompondo planos.
"Quatre tendances se sont maintenant manifestées dans le cubisme tel que je l’ai écartelé. Dont, deux tendances parallèles et pures.
Le cubisme scientifique est l’une de ces tendances pures. C’est l’art de peindre des ensembles nouveaux avec des éléments empruntés, non à la réalité de vision, mais à la réalité de connaissance. Tout homme a le sentiment de cette réalité intérieure. Il n’est pas besoin d’être un homme cultivé pour concevoir, par exemple, une forme ronde. L’aspect géométrique qui a frappé si vivement ceux qui ont vu les premières toiles scientifiques venait de ce que la réalité essentielle y était rendue avec une grande pureté et que l’accident visuel et anecdotique en avait été éliminé.
Les peintres qui ressortissent à cet art sont : Picasso, dont l’art lumineux appartient encore à l’autre tendance pure du cubisme, Georges Braque, Metzinger, Albert Gleizes, Mlle Laurencin et Juan Gris.
Le cubisme physique, qui est l’art de peindre des ensembles nouveaux avec des éléments empruntés pour la plupart à la réalité de vision. Cet art ressortit cependant au cubisme par la discipline constructive. Il a un grand avenir comme peinture d’histoire. Son rôle social est bien marqué, mais ce n’est pas un art pur. On y confond le sujet avec les images.
Le peintre physicien qui a créé cette tendance est Le Fauconnier.
Le cubisme orphique est l’autre grande tendance de la peinture moderne. C’est l’art de peindre des ensembles nouveaux avec des éléments empruntés non à la réalité visuelle, mais entièrement créés par l’artiste et doués par lui d’une puissante réalité. Les œuvres des artistes orphiques doivent présenter simultanément un agrément esthétique pur, une construction qui tombe sous les sens et une signification sublime, c’est-à-dire le sujet. C’est de l’art pur.
La lumière des œuvres de Picasso contient cet art qu’invente de son côté Robert Delaunay et où s’efforcent aussi Fernand Léger, Francis Picabia et Marcel Duchamp.
Le cubisme instinctif, art de peindre des ensembles nouveaux empruntés non à la réalité visuelle, mais à celle que suggèrent à l’artiste, l’instinct et l’intuition, tend depuis longtemps à l’orphisme. Il manque aux artistes instinctifs la lucidité et une croyance artistique ; le cubisme instinctif comprend un très grand nombre d’artistes.
Issu de l’impressionnisme français ce mouvement s’étend maintenant sur toute l’Europe."
Apollinaire, les Peintres cubistes
À Mademoiselle Yvonne M...
Yvonne sérieuse au visage pâlot
A pris du papier blanc et des couleurs à l'eau
Puis rempli ses godets d'eau claire à la cuisine.
Yvonnette aujourd'hui veut peindre. Elle imagine
De quoi serait capable un peintre de sept ans.
Ferait-elle un portrait ? Il faudrait trop de temps
Et puis la ressemblance est un point difficile
À saisir, il vaut mieux peindre de l'immobile
Et parmi l'immobile inclus dans sa raison
Yvonnette a fait choix d'une belle maison
Et la peint toute une heure en enfant douce et sage.
Derrière la maison s'étend un paysage
Paisible comme un front pensif d'enfant heureux,
Un paysage vert avec des monts ocreux.
Or plus haut que le toit d'un rouge de blessure
Monte un ciel de cinabre où nul jour ne s'azure.
Quand j'étais tout petit aux cheveux longs rêvant,
Quand je stellais le ciel de mes ballons d'enfant,
Je peignais comme toi, ma mignonne Yvonnette,
Des paysages verts avec la maisonnette,
Mais au lieu d'un ciel triste et jamais azuré
J'ai peint toujours le ciel très bleu comme le vrai.
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)
Monday, August 11, 2008
Fouetté
"Num movimento relativamente brusco, os músculos da perna de apoio contraem-se de forma a impulsionar o corpo na direcção superior, levando à extensão dessa mesma perna. É nesta altura que o pé sofre uma flexão plantar severa que, com o calçado adequado, resulta no em trabalho de pontas. Simultaneamente, a perna de trabalho, sem se mover do plano frontal, flecte até que o pé de trabalho, em flexão plantar, atinja a altura do joelho. O ângulo formado depende portanto da altura de perna do executor. Ao atingir esta posição, o executor deve rodar para o lado da perna de trabalho (todo o corpo roda segundo o eixo longitudinal), cerca de 315º – ou seja, quase uma volta completa. Ao atingir os 315º, a perna de trabalho deve rodar segundo o eixo transversal até ser atingida a flexão do membro inferior como um todo, rodado para o plano frontal, altura em que a rotação de 360 é completada. Nesta altura, o pé de apoio deve retornar à posição de preparação (rodado de 90º lateralmente segundo o eixo longitudinal, estando alinhado segundo o plano frontal), e deve repetir o plié (na perna de apoio), de forma a amortecer a queda."
Rute M. Baptista. Disciplina de biomecânica do movimento.
Wednesday, July 23, 2008
"ou seja, gato vivo mais gato morto juntamente com a pessoa com a percepção do gato vivo mais a pessoa com a percepção do gato morto, mais gato vivo menos gato morto juntamente com a pessoa que tem a percepção do gato vivo menos a pessoa com a percepção do gato morto. É apenas um pouco de álgebra."
O grande, o pequeno e a mente humana. Roger Penrose. Gradiva
Tuesday, July 08, 2008
Monday, July 07, 2008

Não é só o balcão do Salão Nobre do Conservatório que está a cair. Por cima desta clarabóia, no corredor em frente à sala 231, caiu uma "não acaba a primavera". Acudam ao verão, façamos uma petição. Eu sei, com coisas assim não se brinca. Mas não pude deixar de reparar (e tirar a fotografia com o telemóvel)
Thursday, July 03, 2008
"Poética da música"
Sob a influência de Wagner, as leis que defendem a vida do canto foram violadas e a música perdeu o seu sorriso melódico.
Pág 85(.)
Resumindo: O que é importante para a ordenação lúcida do trabalho - para a sua cristalização - é que todos os elementos dionisíacos que põem a imaginação de um artista em movimento e fazem revigorar a seiva da vida têm de ser devidamente dominados antes que nos intoxiquem, e devem, finalmente ser feitos para se submeterem à lei: Apolo exige-o.
Pág.108(..)
Parece que a unidade que procuramos é forjada sem o sabermos e estabelece-se dentro dos limites que impomos sobre o nosso trabalho. Quanto a mim, se a minha própria tendência me leva a procurar a sensação em toda a sua frescura, rejeitando o entusiasmo, o lugar-comum - o ilusório, numa palavra -, estou, no entanto, convencido de que variando constantemente a procura se acaba apenas em fútil curiosidade. É por isso que acho inútil e perigoso aperfeiçoar em demasia as técnicas da descoberta.
Uma curiosidade que é atraída por todas as coisas revela um desejo pela tranquilidade na multiplicidade. Ora este desejo nunca pode encontrar uma verdadeira nutrição na variedade interminável.
Ao desenvolvê-la, adquirimos apenas uma falsa fome, uma falsa sede: são de facto falsas porque nada as pode saciar. Quanto mais natural e mais saudável é lutar para uma realidade única, limitada, do que para uma divisão interminável."
Pág.184(...)
Poética da música. Igor Stravinsky. Publicações Dom Quixote.
Friday, June 27, 2008
Estou há uns dias aqui, ainda não está muita gente. As ilhas estão cheias de areia sem sombras.
A Deserta, o Farol e os Hangares, a Culatra ou a Armona; todas elas têm a ria no cais e o mar nas traseiras. À noite estão repletas de estrelas, passear no pontão da Ilha do Farol por cima do Oceano é como caminhar na via lenta da História, na via rápida da luz.
Friday, June 20, 2008
(22), (30), (18), (4) entradas registadas nestes anos.
Reformular-me, achei que era isso que faria, escrevendo. Que tinha ideias arrumadas sem ter retido o percurso, que tinha preguiça mental, escrever ajudaria.
Totó, escrever ajudaria.
Que agora tenho ideias desarrumadas, percursos retidos, mas vários para a mesma ideia, desvios desvario mental; imaginação fixa.
Não, não é um discurso de "porque é que eu tenho um blogue?", é - porque tenho um blogue com tão poucas entradas? Escrevi menos para menos ao longo do tempo.
Mas fiz um curso de escrita criativa! Não me saí muito bem, fui a pior, para ser mais correcta. Aquilo era expressão plástica escrita; escreve sem erres, reconta sem és, utiliza cem palavras. A três palavras dadas, acrescenta cinco tuas, e mais três dadas, e mais cinco, dez, vá lá, dez tuas para acabar. Que tenha sentido, a história. Chiça, e isto com limite de tempo. Hei-de lá voltar.
Friday, June 13, 2008
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Tuesday, April 29, 2008
Dança sobre óleo
" Dançam sem música, pisando no profundo silêncio de África como numa carpete.O seu movimento é lento, precavido, não as ouviríamos ainda que dançassem entre sinos. São de sombra. De uma sombra ardente e dura, já para sempre colada ao metal recto dos seios, à força de pedra de todos os membros. Alimentam a dança com vozes internas, gastrálgicas, e o ritmo torna-se leve, de frenesi. Os calcanhares atingem o chão com pesado fulgor: impele-as uma gravitação sem sentido, um ditado irascível. Os seus corpos negros brilham de suor, como móveis molhados; as mãos erguendo-se, sacodem o som dos braceletes "
Pablo Neruda. Nasci para nascer.
Monday, April 28, 2008
Cores das florestas e dos frutos das aves ou da pele encontrava-as nos nomes.
Nomes, nomes de madeiras, de utensílios, das estações em cultivo, dos panos de velas, dos cabos e correntes do mar, das terras, das pedras. Quando não os reconhecia sabia que ali escrito não tinha estado ninguém.
Se eu soubesse nomear tudo não sobrava nada, como se tivesse em mim ligações ao mínimo múltiplo raiz.
As coisas não se importam :) Falar é humano.
Sunday, April 13, 2008
SAMUEL BECKETT13 de Abril 1906 - 22 de Dezembro 1989
VLADIMIR Vamos esperar para ver o que é que ele diz.
ESTRAGON Quem?
VLADIMIR O Godot.
ESTRAGON Boa ideia.
VLADIMIR Vamos esperar para saber exactamente em que pé estamos.
ESTRAGON Por outro lado talvez não fosse mau malhar o ferro enquanto está quente.
VLADIMIR Estou com curiosidade para saber o que ele tem para nos oferecer. Depois, ou pegamos ou largamos.
ESTRAGON O que é que nós lhe pedimos exactamente?
VLADIMIR Não estavas lá?
ESTRAGON Não devia estar a ouvir.
VLADIMIR Oh... nada de concreto.
ESTRAGON Uma espécie de oração.
VLADIMIR Precisamente.
ESTRAGON Uma súplica vaga.
VLADIMIR Exactamente.
Samuel Beckett. À espera de Godot; Livros Cotovia, pág 27
Reposição da peça "Começar a Acabar" na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II até dia 1 de Junho. João Lagarto encena e interpreta. Sinopse e biopse aqui : http://www.teatro-dmaria.pt/Temporada/detalhe.aspx?idc=845
Hoje em vez de Beckett fui ver Barker, "O ladrador do teatro"
"Tio Vânia, escrito em 1991, é livremente inspirado na conhecida obra de Tchecov. Na peça de Barker, as personagens libertam-se de um criador que as sufoca. Reclamam direito de exercer a sua vontade, subtraindo-se desta forma à paralisia a que Tchecov as condenou. A fatalidade do seu destino humano, presente no texto original do dramaturgo russo, é completamente despedaçada na versão de Barker"
Saturday, December 22, 2007
As outras coisas, não se importam. À nuvem podemos chamar-lhe carta ou canoa. Ao rio, rua do nilo. Rei ao sol, lua à lagoa, caravela à planta do mar. Epifania ao vento ou qualquer outro lugar. As coisas não se fizeram palavras.
(...)
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
Natal à Beira-Rio. David Mourão-Ferreira
O Clavis David. À nuvem podemos chamar-lhe epifania, menino mitra, luz poesia, lagoa ou mar ou qualquer outro lugar.
Monday, December 10, 2007
Quente foi o que Olga Prats serviu num intervalo de três séculos e meio, transposto a piano aumentado. (O som é movimento material, transporta energia)
Parabéns Olga pela carreira que a fez tão grande.
Lembro-me que a Olga Prats levou, ou deixou que levassem, o seu piano à casa onde vivi, a dos mil colchões. Levou-o mais de uma vez, e de cada uma dessas vezes tocou no hall para seiscentas crianças que mal conheciam o mar. Eu, que ali vivia todo o ano, o que mais me empolgava era a chegada do piano. Vê-lo com as pernas no ar, adivinhar qual delas tocaria primeiro o chão, que som produziria. Do repertório, não me lembro; sei que não eram as canções do livro da Raquel Simões, que eu aprendia na escola primária.
Os seiscentos meninos sossegavam encantados. (Gostava que pudessem imaginar a reverberação do hall, e o eco). O som subia às camaratas, atravessava-as e voltava ainda cheio. Mas mais cheio que tudo isso, era a gargalhada da Olga.
Monday, December 03, 2007
Não impinjo a sinopse, lá se vai a minha oportunidade de vaidade. Incorreria na possibilidade de plagiar o co-autor, quem fez a encomenda.
Fiquei a saber que não sou a autora do que escrevi. Passei na SPA (sociedade portuguesa de autores) e quem me atendeu disse que para eles o autor é quem tem a ideia. Não achei graça; até porque lá não se registam ideias. Fez-se-me luz. Inspiram-se na criação divina!
- "Então Deus disse: «Que a luz exista!» E a luz começou a existir. (...) Depois Deus disse: «Que exista um firmamento entre as águas para as separar umas das outras» (...) E assim aconteceu (...) [etecéteras] (...) E Deus achou que tudo aquilo que tinha feito era muito bom (...) Esta é a história da criação...
Aprendi que escrever por encomenda uma ideia, é para cobrar antecipadamente, à linha, ao metro, litro, metro por segundo por segundo.
Monday, November 26, 2007
Quem os trouxe? Dizem que as águas ondulantes do Mediterrâneo os arrastaram das ilhas gregas.
Mas à noite, a geometria fluída precipita-se planificando-se e modelando visões: pardos trapézios, penumbras de chaminés truncadas, negros triângulos, sombras de portas entreabertas. Os arcos das escadas evocam moiras com véus de tule e na luz de raras janelas ondeiam odaliscas com lantejoulas dançando à música do levante.
Avistar as velas na ria, as traineiras na barra e o infinito oceano. Sou menino e do meu mirante avisto um bioco que avista um caíque."
Mirante. Contos de Olhão. Diamantino Piloto
O meu pai hoje faria anos. Também ele tinha um mirante, e o mais alto de Olhão.
Diamantino foi seu amigo e seu professor.
Thursday, November 22, 2007
Passou, felizmente, passou. Ficou sem sequelas, mas foram muitos dias a olhar e esperar. Ela não olhava, fotofobia, ataxia, vómitos e cefaleias. Vinte e dois dias sem comer, e nesta complicação não se melhora gradualmente; se há um dia em que vomita menos, em troca não abre os olhos, ou dói mais a cabeça. Tantas vertigens; acordava a cair, a sonhar que caía. Nunca perdeu a consciência, sabia quantos dias tinham passado, o nome dos médicos e enfermeiros, e perguntou se ia morrer. Disse-lhe que não. Que ia passar, eu sabia; soube quando piorou e soube quando começou a melhorar, apesar de exteriormente nada o revelar.
Agradeço ao neuropediatra José Carlos, nada fez, nada havia a fazer, mas esteve sempre presente.
Agradeço a toda a equipa de pediatria do São Francisco Xavier, e à de Cascais. Foram extraordinários, são todos os dias, extraordinários.
Aconteceu-me não acreditar que já passara. Disseram-me os médicos, que vulgarmente a meningoencefalite originada pelo vírus da varicela desaparece no prazo de seis a oito dias. Passaram vinte e dois, a minha filha também os contava, e acho que por isso, tentei pará-los. Só agora, que ela fez anos, que já engordou oito quilos, que continua esperta como ela é, corre salta e trepa, só agora acredito.
A peça que escrevi vai ser encenada. Para a semana terei a confirmação, mas é quase certo. Na altura não especifiquei porque me pediram segredo; que há muito quem queira roubar ideias. Acho graça, dá um trabalhão escrever ideias. Quando tiver a confirmação, pespego aqui a sinopse.
Wednesday, November 14, 2007
Não é a primeira vez que fazem isto, sair a abraçá-la. Durante este ano esteve internada vinte e dois dias com uma meningoencefalite. Quando saiu do hospital ainda não andava, mas uma semana depois quis voltar à escola. Aí já andava, os irmãos ajudaram-na muito, mas os passos eram curtos, incertos, com os pés a apontar para dentro; o equilíbrio estava ainda comprometido. Foi ela que escolheu a escola em vez da fisioterapia. Saberia que a receberiam assim? Hoje pensei - O que é que eles sabem tão bem?
Sunday, November 11, 2007
Sendo os meus pais técnicos de serviço social, e tendo eu e os meus irmãos vivido dentro do trabalho deles, aprendemos, seguramente, a apagar fronteiras de preconceito. E o preconceito parece começar com a elaboração de grupos. Os grupos são tantos quanto a ignorância diante de cada pessoa.
Aquele é toxicodependente, e falo do Carlos. Ontem ligou-me.
Já aqui falei do Carlos, quando voltei a falar do Zé. Recuperou, desde que o conheço, três ou quatro vezes, e conheço-o há menos de dois anos. Voltou lá com a cabeça, foi dar nela, recaiu. O que o perturba muito mesmo é a companheira, mãe do seu segundo filho; é isso que me vai dizendo.
Conheço-a; visitei-a na prisão de Tires duas ou três vezes. Quando saiu foi para a minha porta (desconfio que é por isto que quase ninguém quer ver ou saber da realidade dos muitos que nos cercam). E conheço também o seu segundo filho, o Fábio que tem três anos.
Ontem o toxicodependente ligou-me e disse com a voz que tem sempre
- Nem vais acreditar; o menino tem um cancro no sangue. Está magrinho e não se lhe pode tocar, fica cheio de nódoas negras.
O menino é igualinho a um menino. Visitei-o em casa da avó. Na verdade fui lá para que a mãe do Carlos abrisse a porta. É que o Carlos tinha partido a murro essa mesma porta na última vez que lá tinha estado. Tinham-se zangado e ele, agora recuperado, queria estar com o seu filho.
Quem abriu a porta afinal foi o irmão gémeo do Carlos, o Paulo que pertence ao grupo dos alcoólicos. Semi-abriu e estava ainda mais assustado do que eu.
Assustei-me ao subir as escadas mais feias que algum dia vi. Assustou-se o Paulo por ver o irmão toxicodependente; por saber que a mãe não o queria ali, não fosse ele querer levar o menino com ele. Por saber que a mãe estava deitada, paralisada do lado direito, consequência de um AVC. Assustado, porque para além de pertencer ao grupo dos alcoólicos, era também responsável por uma mãe acamada e por um menino do grupo dos filhos de seropositivos.
Garanto-vos que o menino é igualzinho a um menino apesar de ainda quase não falar. Garanto-vos que não entendo porque é que o menino subiu as escadas mais feias que algum dia vi. Porque é que um menino que ainda não sabe dizer nada de bom está a morrer.
Tinha escrito isto há dois meses, não cheguei a publicar porque me pareceu que ninguém queria saber disto.
É muito real e está próximo; não é notícia distante nem filme aproximado, não tem plano, nem campo de profundidade. Talvez esteja a ser injusta e preconceituosa. De qualquer forma fica o registo, o Fábio fez quatro anos ontem e morreu ao fim do dia a caminho do hospital. Estou desolada.
Friday, October 19, 2007
Fiquei sem a janela do mar; já não vivo na casa da praia. Agora tenho uma varanda estreita como as varandas; um segmento de prédio à frente, e o mar lá está ao fundo. A paisagem é aguda, gostava de um angulo giro. Do outro lado uma marquise despropositada; em frente uma copa carregadinha. Hoje, por exemplo, vi os pássaros pousarem nas folhas, e foi como se lhes pegasse, tão leves.
Não é a espuma do mar, no meu quintal estendia a roupa ao sol e ao sal. E à noite, já tarde, ouvia as ondas por cima da colcha.
Tinha um jardim com estrelícias , margaridas, zinias e sécias, goivos e lírios. Muitas rosas, hera e vinha virgem. Relva e o mar a dez braças.
Agora são duas varandas [(outra tem - já não tenho a casa da marginal) A vida corre tão mal e eu rio]
Wednesday, October 03, 2007
Thursday, August 16, 2007
Tuesday, July 17, 2007
Saturday, April 07, 2007
“O problema é que temos de encontrar as palavras primas, em sentido matemático; as que só são divisíveis por si mesmas e pela unidade e trabalhar com elas. Estou a ser claro?
- Não muito, o que seria uma palavra prima?
- As palavras essenciais. ”
À Maria Luisa Blanco, conversando com o Lobo Antunes, bem lhe poderia ter ocorrido uma outra pergunta que não – ‘o que seria uma palavra prima? ’- mas sim – qual é a unidade que permite trabalhar com as palavras?
Usava as palavras como quem ouve mas tem um fim.
O meu pai disse-me: - Acredita, não há mais nada. Eu que vim até aqui digo-te, não há mais nada.
Há qualquer coisa em nós de palavra, de incontável. Culpo-as de muito.
Monday, April 02, 2007
Sunday, April 01, 2007
Wednesday, March 07, 2007
Andando o senhor padre-cura de lugar em lugar, em cima da cabeça de Virgílio foi parar. – Para que mentes tu? (pergunto eu a Virgílio, que comecei a melopeia) – E onde estavas tu quando eu menti? ( este é Virgílio a perguntar) – Estava em cima da cabeça de Dante. Cantilena-se outra vez. Andando o senhor padre cura de lugar em lugar, em cima da cabeça de Dante Alighieri foi parar. Agora quem pergunta é Dante, a Virgílio. – Para que mentes tu? – E onde estavas tu quando eu menti? – Estava em cima da cabeça da Dido & Aeneas & Vénus & Mercúrio & Sasha & Guests & etecétera . Também jogavam a esta roda? A estes cantos lúdicos, sentadinhos no chão?
A coreógrafa intentou “unir organicamente” o coro e os bailarinos. Quis também que a música a palavra e a dança se unissem, sem que nenhuma delas tomasse mais espaço.
Gostei da música e na voz, talvez por estar ali em cima. As entradas na água não estavam com as cordas, mas lá dentro era muito bonito. E dançar com silêncio é muito suspenso, na água podemos saber quando vão subir para respirar.
Agora escrevo muitos disparates como se jogasse à cantilena.
Saturday, February 17, 2007
Wednesday, January 31, 2007
Friday, January 05, 2007
há força partida
e escrevesse
"Mas agora perguntar-me-ás como te será possível destruir a consciência nua do teu próprio ser (...)
A capacidade de que falo nada mais é do que uma profunda e intensa dor espiritual (...)
Todos têm as suas mágoas, mas quem sente maior desgosto é quem está consciente de existir. Qualquer outro sofrimento, comparado com a consciência de existir, é como uma brincadeira de crianças (...)
E quem nunca conheceu esta dor, bem se pode condoer deveras, pois ainda não experimentou a dor perfeita."
A Nuvem do Não-Saber (anónimo do séc. XIV)
Perfeita?!
A Dona Tristeza é consciência de existir, e é possibilidade de destruir o ser consciente que existe.
"Uma tal dor capacita a alma para receber aquela alegria em que o homem perde totalmente a consciência do seu próprio ser"
(idem)
Ora, em que é que consciência ficamos?
A ignorância, a tristeza ao encontrar, a alegria de a perder
Como quando
há força partida
e escrevesse
perfeita a dor
como se
a força partida
tristeza
escrevesse
poetas
poemas
do amor
partidos
como se perdidos
da perfeita dor
Wednesday, December 13, 2006
Tuesday, December 12, 2006
" Escuto estes desenhos como a um homem do campo que diz, sem querer, coisas mais importantes do que o que está a contar, e que põe tudo à mostra sem dar por isso. Através destes desenhos sigo grafologicamente o meu instinto à espera da minha vontade, - a minha querida ignorância a aquecer ao sol e a transformar-se na minha vez cá na terra."
Almada Negreiros
Acho que o homem do campo diz coisas que conhece; coisas que o conhecem a ele.
A terra espera pela vontade do homem do campo e o homem do campo espera pela vontade da terra. São coisas importantes, as vontades; a nossa vez de existir.
Wednesday, November 29, 2006
Conheci uma tristeza diferente, não sei dizer como, dobrada, dobrada em muitos.
Um quadrado, quatro triângulos dobrados atrás, fica outro quadrado e são quatro triângulos unidos num ponto, num centro. Quatro pirâmides; quantos queres? Um quatro e dezasseis.
É mais ou menos assim. Um "quantos queres" de tristeza.
Dizer que não escrevo é mentira. Escrevi uma peça, teatro. De encomenda.
Como não sabia nada, imaginei tudo. Os cenários e os adereços, as imagens para o ciclorama, os roteiros de luz, a sonoplastia e as paisagens sonoras. As entradas em cena, as altas e baixas do palco, as telas e os telões. Ficou um balão, colorida e vazia.
Se vier a ser encenada estarei lá a aprender a sério.
Não fiz nenhum curso de escrita criativa ou dramaturgia.
Continuo sem saber o possível na escrita, mas faz-me caminhar, ao acaso, conduz-me.
Hoje li no diário digital do sapo um artigo sobre os pulsares da torrente
"Astrónomos europeus descobriram um feixe modulado de muito alta energia vindo do espaço que varre a Terra com a regularidade de um farol, com uma intensidade 100.000 vezes superior ao mais potente até agora observado (...) A modulação do sinal das «pulsars» está compreendida entre alguns segundos e alguns milissegundos. Em contraste, a do sinal emitido pelo LS 5039 é de 3,9 dias. A energia libertada é também invulgar e os cientistas estão ainda na fase das hipóteses para explicar a sua origem."
(não sei pôr a ligação, é :http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=60&id_news=252445)
Desdobrou-me a tristeza, sei lá eu porquê.
Wednesday, October 18, 2006
Sunday, October 08, 2006
Nestas duas últimas semanas transformei-me em formiga de biblioteca; passo as horas que posso lendo e escrevendo.
Leio muito. Na verdade irrita-me esta dificuldade que tenho em entender o possível na escrita. Semiótica, filosofia da linguagem, prosódia, signos e grafos, ícones, símbolos, significados, proposições e inferências, falácias lógicas.
Neste momento leio Blanchot, mas já passei por, Peirce, Eco; Derrida, Foucault que fica sempre bem e até rimou.
Blanchot e o movimento incessante da escrita. "...comme si écrire, le mouvement incessant d'écrire, nous libérait du jeu de l'écriture."
Seria um exercício interessante fazer um paralelo entre os jogos da linguagem e a "moderna" teoria dos jogos.
Em "investigações filosóficas" WIttgenstein diz-nos que o significado das palavras é independente daquilo a que se referem. O significado depende de como são usadas. A linguagem é um tipo de jogo em que as palavras são as peças de um conjunto de regras ( convenções linguísticas)
A teoria dos jogos estuda decisões que são tomadas por vários jogadores que interagem entre si num determinado meio. A estratégia na escolha de comportamentos depende da escolha de outros indivíduos. Não será completamente inverosímil considerar cada palavra como indivíduo, individual e em crescimento; no entanto atribuir decisão ou escolha de comportamento à palavra é, do meu ponto de vista, disparatado. A palavra cresce em significados, tem comportamento diferenciado quando interage com outra ou outras palavras, mas não escolhe. Quem escolhe é quem fala ou escreve.
Em princípio a linguagem das palavras deveria centrar-se no jogo cooperativo. A solução cooperativa é aquela que permite encontrar o par de ganhos que garanta a cada uma das partes ao menos aquilo que poderia assegurar jogando sozinhos. Mesmo falando para o boneco se pode assegurar ao menos aquilo que ganhamos a falar sozinhos. A não ser que afinal o boneco afinal ouça. Provavelmente ouvirá não o que foi dito, mas sim o que ouviu. Ganha-se alguma coisa ouvindo o que não foi dito? Parece que sim. Perde-se com as palavras? Provavelmente, que isto está tão confuso que até eu dou o dito por ouvido.
A que tipos de jogos se referia Wittgenstein?
Há os simétricos e os assimétricos, os de soma zero e os de soma diferente de zero, os simultâneos e os sequenciais, os de informação perfeita e os de informação imperfeita, os infinitamente longos.
E já agora
- Imagine um diálogo entre o Capitão gancho e o Peter Pan; quais seriam os tipos de jogo adoptados? Riscar o que não interessa (o infinitamente longo por não ter par é verdadeiro por defeito)
- Quais os aspectos paradoxais que atestam a ambiguidade da opinião pública?
- Porque é que quanto mais escrevo mais sarcástica me torno?
"...comme si écrire,le mouvement incessant d'écrire, nous libérait du jeu de l'écriture."
Blanchot e o movimento incessante como estratégia de libertação do próprio jogo.
" Par le livre, l'inquiétude d'écrire - l'énergie - cherche à se reposer dans la faveur de l'ouevre, mais l'absense d'ouevre l'appelle toujours dès l'abord à répondre au détour du dehors, lá où ce qui s'affirme ne trouve plus sa mesure dans un rapport d'unité"
(L'entretien infini)
Thursday, September 14, 2006
Saturday, September 09, 2006
“Driving Miss Daisy” estreou em Nova Iorque em 1987 e esteve três anos em cena, ganhando o prémio pulitzer de 88. Em 989 é feita a adaptação ao cinema pelo próprio autor – Alfred Uhry. Valeu-lhe o Oscar da “melhor adaptação”.
A tradução feita para Eunice Muñoz, Guilherme Filipe e Thiago Justino, é da responsabilidade de António Barahona. Com a minha escassa cultura, não o conhecia. Fiquei a saber que é poeta.
Não pretendo fazer aqui uma crítica ao espectáculo, aos actores, ao encenador ou aos técnicos. A um crítico, julgo eu, cabe “meter-se” dentro do criticado e tentar perceber porque escolheu ele fazer assim. Só o poderá fazer se conhecer a técnica utilizada na produção da obra. Estou a falar do crítico e não de quem opina. Acho muito bem que se opine, e que se critique.
Posso fazer uma crítica ao público, eu estava metida na plateia.
O público é parte de um espectáculo. Aquele público ontem era de estreia, ou seja, convites e muita gente do meio (fui com o meu irmão actor). Esperava eu que acompanhassem as tensões e descontracções do texto, os sentidos de humor claros e escuros; as modificações nas frases, que repetidas ao longo dos vinte e cinco anos em que decorre a acção, deixam de ter o sabor da ironia incisiva e graduam até ao hábito envelhecido, enriquecido.
As gargalhadas do público não graduaram; não sei porque escolheram rir assim.
Nunca tinha visto a Eunice Muñoz ao vivo. O seu gesto é extraordinário e oportuno. Os pés, as mãos, dizem as falas. Se as perde por vezes, é só na voz; o seu corpo mostra que não se perdeu.
O seu sorriso no fim mostrou o que todos ganhámos.
[Sempre que releio o que escrevo encontro “novas interpretações”; não faz sentido apagar o que escrevo, ou modificar de cada vez que cá venho. Ao ler isto, pareceu-me que estava a fazer uma critica velada ao texto da peça, e sendo assim, a armar-me em espertinha. Como se conhecesse a técnica utilizada na elaboração daquele, ou de outros textos. Não conheço. A fazer fé na Maria: “quem escreve escreve-se”, devo ter pretensões à esperteza.]
Monday, September 04, 2006
E não deve haver som igual em cada onda. Nenhuma se levanta da mesma forma. Começa aí, como se dançar emitisse som sustentado. Nenhuma prepara o ataque com a mesma força; não tem repouso o silêncio.
A cor está pintada, pouco dizível. É aproximada ao brilho de penas ónix, azuladas pela lua.
Sunday, August 27, 2006
Vou tentar arranjar.
Salguei a neve
de um dia ao passado
gelado
Não sei o lugar
mas estava vazio
caiu aberto
esculpiu um rio
e é tão comprido
traça tão cheio
enche perdido
cresce p’lo meio
Chamo-lhe rio, pois
não sei o lugar
da neve sem frio
que é fonte de mar
[Adenda- apêndice.
Ficou pior. A répétition parece:
- Patáta patáka patica pató
e trálalé troleli trololo lo]
Friday, August 25, 2006
Monday, August 21, 2006
É engraçado ao olhar o mar, lembrar que os pontos de luz ao chegar são corpo de estrela viva. Ao tocar no mar reflectem as ondas no ar (com o timbre do sol) Outros mergulham, refractam; vão mais devagar.(a fotografia - grafia do fotão - é no lado esquerdo, uma imagem da galeria do HubbleSite, e no direito, o mar aqui à frente, tirada a semana passada)
Sunday, August 13, 2006
Pode ser bem alto no cimo da cordilheira. Dentro de um tronco com musgo do mar. Lá tão alto é onde vou morar.
De manhã o mar nascerá. Vou atirar as pérolas ao céu; o sol vai gostar de as pentear. E o barco será tecido algodão com as cores das luas já penteadas, aureoladas. Irei pescar as músicas da floresta para que na festa os pássaros possam dançar.
Ao pôr do mar voltarei ao ramo da cerejeira, à festa da cordilheira.
Não importa a altura, pois não?
Tuesday, August 08, 2006
A todas as horas. A cada hora uma nova ordem, um novo mundo. Deve ser do vinho. (bebi vinho – Monsaraz; um copo e meio)
Hora a hora; afinal após os primeiros três minutos, nada de importante aconteceu nos milhões de anos seguintes. Só quando o universo completou um milhão de anos de idade, nasceu o primeiro átomo. Mil milhões de anos, e o universo estava repleto de nuvens de hidrogénio e hélio rodopiando no espaço. A força chama os átomos ao centro, a velocidade aumenta, a energia multiplica-se. Dez milhões de anos depois, no centro contraído, a temperatura sobe a vinte milhões de graus fahrenheit. Deflagra a reacção nuclear, a energia flui para a superfície. Nasceu uma nova estrela. Hora a hora.
Friday, August 04, 2006
A guerra projecta-se no político, ultrapassa o domínio do individual.
Será assim?
“(...) o horror que nos convence de que o que ali se passou constitui um crime contra a humanidade, não reside no facto de, apesar de partilharem a humanidade com as suas vítimas, os assassinos os terem tratado como piolhos. Isso é demasiado abstracto. O horror consiste nos assassinos se terem recusado a imaginar-se no lugar das suas vítimas, ao contrário de todas as outras pessoas. Por outras palavras, fecharam os corações. O coração é a sede de uma faculdade, a compreensão, que nos permite partilhar, por vezes, a essência de outrem (...) Em cada dia há um novo holocausto e, no entanto, tanto quanto me consigo aperceber, a nossa essência moral permanece intocada. Não nos sentimos maculados.”
J. M. Coetzee
No domínio do político, cito Aristóteles
“Pertence à sabedoria, quer de cada homem tomado individualmente, quer de todo o Estado em geral, o dirigir as acções e a conduta para o melhor fim. Ora vários pensam que mandar nos semelhantes, se se faz de uma forma despótica, é uma grande injustiça; se se faz duma forma civilizada, não é uma injustiça, mas somente um obstáculo para a sua tranquilidade (...) Um legislador deve gravar profundamente no espírito do seu povo que aquilo que é bom para cada um em particular é igualmente bom para o Estado; que não é conveniente dedicar-se aos exercícios militares com a intenção de sujeitar aqueles que o não merecem; que tais exercícios só devem ter por finalidade o defender-se a si próprios da escravidão e até o tornar-se úteis aos vencidos. A finalidade não é dominar todo o mundo, mas unicamente os que não são capazes de bem usar da sua liberdade e que mereceram a escravidão por causa da sua malvadez”
(tratado da política, Aristóteles)
A “malvadez” lembra o “eixo do mal”.
A guerra - o mal – os maus.
O mundo não reproduz o conto de fadas onde os maus sofrem justos castigos e os bons vivem felizes para sempre. No mundo da humanidade os “maus” seguem e respeitam as ordens dos seus legisladores, e os “bons” não vivem felizes com as ordens dos “escravos da malvadez”.
Nunca estive num país islâmico, (quando eu era pequena, a minha mãe dizia-me que o meu trisavô era um príncipe árabe; se lhe perguntar hoje é bem capaz de reafirmar; a imaginação ocupa-lhe a história) não sei como sentem as suas leis, se as vivem ou se simplesmente as seguem. Sei, ou fazem-me saber, que a grande maioria dos muçulmanos não são extremistas, fanáticos. Sinto no entanto, que o Ocidente ficaria mais tranquilo se os infiéis se convertessem, não ao cristianismo, mas à democracia, ao Estado de direito, ao secularismo.
Já há um tempo chegou-me aqui a casa um livro pelo correio, cujo destinatário era o Eduardo Prado Coelho. Deduzo que aqui morou, e não sabendo eu como o devolver, sendo um livro, paciência, desculpe lá ó Eduardo, fiquei-lhe com o livro. É uma compilação das intervenções de alguns oradores num curso livre de História Contemporânea, cujo tema foi, a globalização e democracia.
Uma das oradoras, Teresa Patrício Gouveia, afirma que em meados do séc. XXI, a civilização ocidental representará apenas 1 a 5% da população mundial (devo dizer que este número me espanta, não sei se terá algum fundamento real). Mas seja qual for a percentagem – “talvez tenhamos, sabiamente, que aceitar, nas sociedades, a conflitualidade; de compreender que os homens não querem todos as mesmas coisas; que os valores que adoptámos estão eles mesmos em conflito” Isaiah Berlin ( Four essays on liberty)
Monday, July 24, 2006
Monday, July 17, 2006
Na última noite que aqui jantou, antes de entrar para a comunidade onde está em tratamento, dizia assim aos meus filhos:" - Vocês não têm blocos vermelhos? Pois então, os blocos vermelhos comem os blocos brancos. E depois um gajo constipa-se e pode morrer. O HIV é quando é assim o princípio da doença, e a sida é quando a doença já está mesmo na morte."
Com ele aprendi como fazer um alambique na prisão. Corta-se um garrafão de lixívia de cinco litros, vazio, está claro! Com duas colheres e um pau no meio faz-se a resistência. Separa-se uma das extremidades de um fio eléctrico e une-se a cada uma das colheres; a outra extremidade liga-se à corrente eléctrica. Põe-se a chicha (fruta e pão que fermentaram quinze dias antes, dentro de um balde) no garrafão e mergulha-se a resistência lá no meio. Faz-se um orifício num dos lados e introduz-se um tubo de cobre. Esse tubo sai do garrafão, e passa dentro de um lavatório com água fria. É necessário deixar sempre um fio de água a correr na torneira para que a água não aqueça. Finalmente, termina dentro de uma garrafa, para onde pinga a aguardente destilada.
Aprendi muitas outras coisas. Como fazer uma "máquina" de tatuagens ou o que fazer em caso de overdose. Aprendi que o limão estragado, quando usado na preparação da "dose" provoca febre muito alta; que a ressaca provoca um descontrolo completo do organismo, desde as insónias ou dores musculares, aos vómitos e diarreias.
A manhã é a pior parte do dia, até se "orientarem", para a primeira dose. Mais que uma vez, ao abrir a porta de manhã, encontrei o Zé deitado no chão, agarrado ao estômago a gemer.
Um destes sábados visitei o Zé na comunidade onde faz tratamento. Comigo foi o Carlos, amigo e coabitante do mesmo carro abandonado; companheiro de expediente nos parques de estacionamento, nos peditórios à porta da igreja, nos pequenos furtos em supermercados. O Carlos também está em recuperação, mas num programa em regime mais aberto, podendo sair com alguém que se responsabilize por ele.
Engordou onze quilos, o Zé. A dicção também melhorou consideravelmente, apesar de continuar sem nenhum dente. Está dolorosamente resoluto. A coisa não parece fácil. No dia anterior à nossa visita tinha tido "reunião de sentimentos", evento a que eles (os utentes do pavilhão primário - primeira fase do tratamento) chamam a "passerelle". Daquilo que me contou, ficou-me a ideia de um apedrejamento terapêutico. Não é uma exposição feita por ele ao resto da assembleia (constituída pelos colegas de tratamento que com ele partilham o pavilhão primário - cerca de vinte). Passa-se ao contrário. Os colegas, um a um, apontam-lhe todos os defeitos que em dois meses de convívio enclausurado puderam descortinar. E o objectivo é, segundo as palavras do Carlos, que também ali esteve em tratamento, mas que não aguentou mais de quatro ou cinco meses; o objectivo diz então ele, é "encontrar as feridas e enfiar o dedo lá dentro, rodando afincadamente até ao osso." E o que se tira daqui? É um exorcismo; espera-se no fim uma explosão de raiva, uma fúria catártica, qualquer coisa de - sai daí ó demónio. E pronto! Ao Zé descobriu-se-lhe o seu orgulho exagerado e o seu uso desenfreado da manipulação (que por coincidência são adjectivos que rotulam qualquer adicto). Depois da descarga apoteótica do "modelo na passadeira" vem o reconhecimento de que falhas de carácter são humanas, mas que terão que ser sempre reconhecidas.
Sei que a taxa de sucesso na recuperação de toxicodependentes e alcoólicos nesta comunidade é das mais elevadas no país. Não sei como justificar os meios.
Wednesday, July 12, 2006
O improptum tem um ano. Fez desta vez.
Um ano passado, com tantas faltas. E a justificação não é aceitável. Faltei ao blogue porque não parece ser fácil a quem lê, acreditar nas minhas "histórias".
Quando escrevo, confundo. As palavras intimidam-me, transmutam-se.
Só prova que aprendi muito pouco. Chumbei.
Tenho feito muitas perguntas. Devia tentar responder.
Lá em baixo, perguntava porque é que as crianças nos seus traços informes procuram tudo o que é redondo.
Acho que procuram o limite da forma diferenciada.
A interacção gravitacional (interacção de intensidade muito fraca, sempre atractiva, de longo alcance, abrangendo todas as partículas) é muito fraca à escala das partículas; torna-se no entanto preponderante à escala macroscópica. O facto de ser sempre atractiva faz com que se acumule eficazmente. A força gravitacional é cumulativa. As interacções electromagnéticas não possuem esta propriedade; são atractivas ou repulsivas segundo o sinal das cargas em presença, apesar da neutralidade eléctrica da matéria anular os seus efeitos a longa distância.
"Um objecto compacto de massa fraca é dominado pela interacção electromagnética. Ele pode, por isso, ter qualquer forma: mesa, garrafa, bicicleta... Mas quando a quantidade de matéria em causa ultrapassa um certo limiar, as forças de gravitação acabam por se sobrepor às forças eléctricas e o objecto em questão apenas pode existir sob uma forma grosso modo esférica. Assim, os planetas e as estrelas somente podem ser redondos, enquanto os asteróides com um raio inferior a 300 Km têm ainda o direito de possuir formas irregulares."
Étienne Klein. Sob o átomo, as partículas.
As crianças procuram com os seus primeiros traços desenhar o redondo
O redondo é grosso modo o limite da forma diferenciada
post hoc, ergo propter hoc
As crianças procuram o limite da forma diferenciada
Poderia dizer que procuram a forma esférica porque é a forma que apresenta a menor área de superfície para um dado volume; a forma que apresenta melhor resistência à pressão exterior. Mas, diz-me o bom senso que as crianças gostam de grandes superfícies; e não sabem defender-se das pressões exteriores.
Há mais respostas, claro. Esta poderia ser a do Renatus Cartesius - as crianças procuram o grande espírito.
" (...)Todos os corpos líquidos ou gasosos suspensos no ar têm a forma esférica, (...) Assim a energia que chamamos de espírito também obedece a este sistema. Quando nascemos temos esta energia esférica muito pronunciada e o sistema funciona da seguinte maneira, - no começo somos menos matéria e mais energia (...) "
Regulae ad directionem ingenii - regras para a direcção do espírito
René Descartes, o do "penso, logo existo"
Respostas estão no tudo. Para responder escolhe-se a parte "simples" e zás, aplica-se a lógica da síntese. Há resposta, no que existe. Existe, logo cogito.
A propósito de redondo; tenho-me comportado aqui como um quadrado, uma besta-quadrada. Peço desculpa aos redondos/as. E também aos bicudos/as.
Saturday, April 22, 2006
A poesia desloca-se de um ponto ao outro no plano espacial sem direcção temporal.
(a velocidade deste deslocamento será infinita, já que a velocidade inclui um deslocamento pelo intervalo de tempo - que na poesia é zero)
Feito um postulado, vou escrever à poesia.
Olha, porque não me ensinas
onde se pousam momentos?
Sem tempo e com tal tamanho
como paro os movimentos?
Onde se aportam as asas?
Como vou prender os ventos?
Friday, April 14, 2006
A teoria do centésimo macaco - consciência colectiva
Para nos dar uma ideia da teoria:
" Era uma vez duas ilhas tropicais, habitadas pela mesma espécie de macaco, mas sem qualquer contacto perceptível entre si. Um símio da ilha A descobre uma maneira engenhosa de quebrar cocos, que lhe permite aproveitar melhor a água e a polpa. Ninguém ainda tinha partido os cocos dessa forma. Por imitação, o procedimento rápidamente se difunde entre os seus companheiros e logo uma população crítica de 99 macacos domina a nova metodologia. Quando o centésimo símio da ilha A aprende a técnica recém-descoberta, os macacos da ilha B começam espontaneamente a quebrar cocos da mesma maneira."
A partir do momento em que o centésimo macaco adopta o mesmo comportamento cria-se uma consciência no hábito da espécie - um campo mórfico. ( a história dos macaquinhos não é verídica )
O conhecimento adquirido torna-se património colectivo, memória e consciência colectiva da espécie.
E como se propaga a informação nos campos mórficos? Bom, a isso chamou Sheldrake ressonância mórfica. E como? "(...) a ressonância mórfica é um processo básico, difuso e não intencional (...)". Segundo o biólogo os campos mórficos não utilizam energia, por isso a intensidade não decai com a distância. O que se transmite através deles é informação pura. Actuam sobre a matéria impondo padrões restritivos sobre processos energéticos cujos resultados são indeterminados ou probabilísticos.
Apresenta como "exemplo real " o comportamento de novas substâncias químicas sintetizadas em laboratório.
" (...) Dependendo das características da molécula, várias formas de cristalização são possíveis. Por acaso ou pela intervenção de factores puramente circunstanciais, uma dessas possibilidades efectiva-se e a substância segue um padrão determinado de cristalização. Uma vez que isso ocorra, porém, um novo campo mórfico passa a existir. A partir de então, a ressonância mórfica gerada pelos primeiros cristais faz com que a ocorrência do mesmo padrão de cristalização se torne mais provável em qualquer laboratório do mundo. E quanto mais vezes ele se efectivar, maior será a probalidade de que aconteça novamente em experiências futuras."
A ser verdade, estes campos "legisladores" ao preço da quantidade oferecer-nos-iam informação pura, mas sem discernimento de conteúdos. Consciência de massas, a partir da repetição.
As estruturas existentes seriam um produto de fenómenos semelhantes, transmitidos sem energia.
A ordem das minhas ideias não acredita nesta hipótese dos campos mórficos; se mais noventa e nove macacos passassem aqui e se juntassem à minha opinião, tínhamos a teoria da consciência colectiva negada. Ou sendo mais precisa; teríamos um campo mórfico da negação dele próprio.
Saturday, April 08, 2006
Wednesday, March 08, 2006
Frida Khalo
que pinta, repinta com cabos de dor
É só uma corda na crina tremente
que rincha, relincha com arcos de cor
Só um pincel
quilha voante
de corda dorsal
Friday, March 03, 2006
Não é uma inequação. São frases. Contraponto, que se pode sujeitar a inversões e a cruzamento de vozes, beneficiando assim os movimentos melódicos.
Espero ter resolvido a charada. (descobrir é novo, aprender é acrescentar)
A música é número e é frase.
A música é onda longitudinal, fenómeno físico, perturbação oscilante.
É tudo mais que isto.
Tuesday, February 28, 2006
Wednesday, February 22, 2006
Inventei um poemómetro.
Estou mais tranquila, o meu pai continua a melhorar. Já respira sozinho, alimenta-se com sopa (ainda num tubo) e o coração está a restabelecer.
Enganei-me no nome do Hospital. É Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil. Está escrito na colcha da cama.
No segundo piso fica o bloco operatório, se repararem nas ombreiras das portas verão que a tinta está lascada numa altura que corresponde rigorosamente à altura das macas.
Tuesday, February 21, 2006
Friday, February 17, 2006
Tinha estado na sala dos cuidados intensivos com o meu pai, tinha discutido com a enfermeira, tinha chorado.
Quando cheguei, tinha uma namorada de um amigo, que chorava, com a sua bebé, que vomitava. Ficaram para jantar.
E também há o Zé, um dos mendigos (eu sei o nome de todos os mendigos com quem falo). Ontem o Zé também chorou, tinha consumido mas tinha dores. Queria atirar-se para debaixo do comboio, queria falar, queria que eu o ouvisse. Queria ser gente.
(Este blog está transformado num diário)
Thursday, February 16, 2006
Não é uma imagem metafórica, se fosse escreveria qualquer disparate como - Ontem levei o piano para cima da bancada de mármore. Disseram-me que o deitasse, só assim ficaria vivo. E com uma grosa limaram as cordas .
Cortaram-lhe o lóbulo superior esquerdo do pulmão.
Anteontem teve um enfarte do miocárdio, e os visionários médicos verificaram que a expectoração que se acumulou no três quartos de pulmão originou uma pneumonia.
Está nos cuidados intensivos, sedado e estável. Não é uma alegoria, é mesmo a vida do meu pai.
A vida do meu pai está presa, não por um fio, mas por vinte tubos de diâmetros diferentes.
( Desculpem o amargo, é evidente que a literatura não tem culpa, talvez nem mesmo os médicos;... é a vida )
Monday, February 13, 2006
“O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome é a sua moral. E não há outra.Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade (...) é impossível destrinçar o que é da razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse “pastor do Ser”, na tão bela expressão de Heidegger, é, como nenhum outro homem, nostálgico de uma antiga unidade (...) Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem.
(...) Porque o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis – a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens.
(...) Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?(...) "
Eugénio de Andrade. Poesia e prosa.
Os dois últimos parágrafos parecem ter a fatalidade de um terrível sortilégio. Criar poesia é então a mais dura das sinas, o abdicar da vida para dar lugar à obra que só servirá os outros. Uma paixão de Cristo gota a sílaba? Será verdade? Ao fim de quantos poemas estará morto o poeta?
A ideia da criação poética como um esvaziamento da vida aparece também em autores como Herman Hesse (viagem ao país da manhã) ou José Régio (três ensaios sobre arte). Será uma proposição verdadeira? Como fundamentar esta asserção? A ser verdadeira a mutilação da vida pela arte, estranho como lhes terá sido possível escrever roubando à vida. Até onde terão chegado?
Talvez aqui – “ palavra inaugural, óvulo e matriz de todas as iluminações e de todas as metamorfoses” (Albano Martins. Do mundo grego outro sol)
Também encontrei esta inequação
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.
O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais.
Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Sophia de Mello Breyner Andresen
( como se resolverão inequações com “mas”?)
Olhem, e mais isto:
[Neste livro são relatadas uma série de conferências proferidas na Universidade de Princeton entre 1997/98. Coetzee, romancista, propõe a sua conferência em forma de ficção. Cria um evento académico (acaba por ser uma conferência ficcionada, dentro de uma conferência ), e a convidada que expõe as duas comunicações é também uma romancista, que escolhe como tema, não a literatura, mas sim o abuso dos humanos para com os animais ]
“ A poesia não faz nada acontecer, escreveu W. H. Auden. Mas é verdade? E deve ser verdade? O que tem a poesia a oferecer, o que tem a linguagem a oferecer, com excepção da arte da palavra? Nestas duas elegantes comunicações, pensámos que John Coetzee estava a falar de animais. Será possível que, durante todo o tempo, ele estivesse realmente a perguntar: - Qual o valor da literatura? “
J. M. Coetzee. As vidas dos animais
Já aqui disse que para mim as palavras não são exactamente nada, e por não serem exactas são tão fascinantes e inquietas como as pessoas.
Monday, January 09, 2006
Peço uma montanha que se oiça degelar
com torrentes a pulsar
os peixes dancem no ar
e as flores rebentem devagar
a cheirar
a beijar
as folhas acordadas
Que não parem sossegadas
as folhas todas pintadas
caminhem enfeitiçadas
iridescentes e enluaradas
Que o som se propague nos pulsares da torrente
as estrelas dancem na terra nascente
e a montanha rebente devagar no ar
deixando cascatas a flutuar
Friday, December 30, 2005
Thursday, December 22, 2005
"Enquanto os livros estão escritos em palavras de comprimento variável, utilizando vinte e seis letras, os genomas estão inteiramente escritos com palavras de três letras, utilizando apenas quatro letras: A, C, G e T ( que significam adenina, citosina, guanina e timina). E em vez de estarem escritos em páginas planas, estão escritos em longas cadeias de açucar e fosfato, chamadas moléculas de ADN, às quais as bases estão ligadas como escadas de mão laterais. Cada cromossoma é um par de moléculas ( muito) longas . Colocados de extremidade a extremidade e estendidos a direito, todos os cromossomas de uma única célula teriam um comprimento de cerca de 183 cm. Todos os cromossomas de todas as células de um corpo cobririam 160 mil milhões de quilómetros (...) A ideia do genoma como um livro não é, estritamente falando, sequer uma metáfora. É literalmente verdade. Um livro é um pedaço de informação digital, escrito de uma forma linear, unidimensional e unidireccional e definido por um código que transcreve um pequeno alfabeto de símbolos num grande léxico de significados através da ordem dos seus agrupamentos. Assim é o genoma."
Genoma. Matt Ridley, Gradiva
Tuesday, December 20, 2005
Os meus filhos também preparam o Natal. Ensaiam canções, pintam Jesus bebé, recortam estrelas, e as duas meninas, com as primas, experimentam dançar como os anjos.
Faltam as prendas, ainda não comprei nenhuma. Vou passar estes dias nos centros comerciais à procura do que não está lá.
Friday, December 16, 2005
Julgo que a ciência não tem a verdade, observa efeitos e procura as causas por exclusão. Mas cabe numa parte. É um retalho verosímel.
A justiça nunca é um retalho verosímel, precisa do todo.
O todo é ordenado? As injustiças serão partes desordenadas? As leis são ordens? As agraphoi nomoi – leis naturais, não escritas -, impulso de filantropia e solidariedade estarão presentes nos Homens? Sempre?
E a liberdade parece-me ainda mais complicada, com a sua dicotomia – autonomia/responsabilidade.
A autonomia, decidir e agir. A responsabilidade, os efeitos nos outros envolvidos que muitas vezes não têm responsabilidade na causa da decisão.
Compatibilizar liberdades , não será esse um dos maiores mistérios guardados no Universo?
Wednesday, December 14, 2005
Quando me doi a cabeça gosto de ler.
Então li.
Do Edgar Poe: O corvo e outros poemas, tradução de Fernando Pessoa.
Nas últimas páginas trazia uma análise à génese de um poema, feita e feito (a análise e o poema) pelo próprio Poe, à qual chamou - A filosofia da composição.
" (...) e visto que o interesse de uma tal análise ou construção, que considerei como um desideratum em literatura, é completamente independente de qualquer interesse real suposto na coisa analisada, não me acusarão de faltar às conveniências, se desvendar o modus operandi graças ao qual pude construir uma das minhas próprias obras (...) a minha intenção é demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído ao acaso ou à intuição, e que a obra avançou, passo a passo, para a solução, com a precisão e a lógica rigorosa de um problema matemático (...)"
Já não me doi a cabeça.
Então escrevi.
Prova o mar. Que sabor doce e quente tem?
(são rabanadas? ou aletria?
sabe-te a prosa ou poesia?)
É sal atirado pela Terra mãe.
Sente. Estátua metrificada?
(mexes na tinta? pintas com preto?
nadas frases, flutuas sonetos?)
Mar é pai de toda a vida criada.
Wednesday, December 07, 2005
As vagas inundaram o castelo de proa. A meia-nau, sinto violentos esticões provocados pelas correntes das âncoras.
O vento fala-me das sonoridades impressas no ar.
Em termos náuticos, o caminho seguido numa viagem por mar é chamado de derrota.
Este, ali em cima, ancorado, é a minha derrota.
Monday, December 05, 2005
Hoje, agora, já está em tribunal. Ainda não sei nada. Imagino que tenha tido uma noite que nunca mais vai passar.
Já está em casa, foi um engano do tribunal, a juíza aconselhou-o a processar o tribunal.
( agora sei modificar isto, posso actualizar a notícia)
Sunday, December 04, 2005
respiração
O aparelho respiratório é um tubo que começa no nariz, continua pela faringe, a laringe, a traqueia e os brônquios. Alarga-se numa maior superfície ao nível dos alvéolos pulmonares, e aí permite o intercâmbio de gases com o sangue. Esse intercâmbio de oxigénio e dióxido de carbono recebe o nome de respiração. É claro que nada disto é novidade. É também senso comum constatar que o sistema respiratório e o sistema circulatório trabalham em estreita colaboração. Todos sabemos que um choque emotivo estrangula a respiração ainda antes de se sentir o aceleramento do coração. Pelo contrário, quando estamos tranquilos a respiração é naturalmente lenta.
Nas nossas heranças ancestrais, o ritmo respiratório controlado e constante (muitas vezes acompanhado de movimento balanceado), faz parte de rituais de oração, de procura de essência espiritual, energia única.
Mais curioso é saber que há quem associe o ritmo respiratório ao comportamento. Há quem afirme que o ritmo respiratório condiciona e orienta o comportamento de massas. Que os hinos, marchas ou slogans impõem ritmos colectivos que transpõem o individual.
Wednesday, November 30, 2005
A morte acompanha-nos sempre, a morte é o que a vida recusa.
A vida é muito. Cresce na morte.
A morte é a vida a transformar-se.
Assim a vejo eu.
O Fernando Pessoa, daquilo que o conheço escrito, parece ter visto exactamente o oposto - a vida é a morte a transformar-se.
"(...) Pela morte vivemos, porque só somos hoje porque morremos ontem. Pela morte esperamos, porque só podemos crer em amanhã pela confiança na morte de hoje. Pela Morte vivemos quando sonhamos, porque sonhar é negar a vida. Pela morte morremos quando vivemos, porque viver é negar a eternidade! (...)"
É tido como sabido que Pessoa escreveu com o fingimento da sinceridade.
Como viveu e morreu não vi.
Monday, November 28, 2005
O Mar aqui, em Novembro, de manhã tem muitas cores. Não sei porquê.
Ao fim da manhã, gradualmente, as matizes intrometem-se, e vistas daqui, aproximam-se de um tom monocromático.
Hoje, como em muitos fins de semana, veêm-se velas brancas. Perfilam-se numa simetria sossegada.
Ao fim da tarde as nuvens descem ao mar e recebem o Sol.
Friday, November 25, 2005
Foi "inventado" em 1930 por Wolfgang Pauli. Criou-se para fundamentar a lei da conservação de energia.
É prodigioso pensar que são emitidos em quantidades "astronómicas" pelo Sol e pelas estrelas, e que percorrem o Universo em todos os sentidos. Atravessam de lado a lado um planeta ou um de nós sem chocar com nenhum átomo.
Ontem pensei neles como partículas livres, mas, sem chocar com nada, não deve ser liberdade.O mais provável é ser uma partícula solitária.
Só agora fui buscar o resultado das análises. Há uns meses caiu-me muito cabelo, mais de metade. Agora cresceu tanto que não se vê a risca, estão a ver? Aquele risco no cabelo, quando nos penteamos. Nas análises está tudo nos parâmetros normais, a causa é desconhecida. Por outro lado emagreci cinco quilos, mas a causa é reconhecida. É o Outono, fico sem fome.
Um bom dia!
Thursday, November 24, 2005
Sunday, November 20, 2005
Tenho andado a ler aos meus filhos a “Alice” de Lewis Carroll.
“- Quando uso uma palavra ela significa aquilo que eu quero que signifique...nem mais nem menos.- A questão é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes, ponderou Alice. A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.”
A legislação, a lei, é feita de palavras. Apesar de toda a jurisprudência e doutrina, muitas vezes, quem mais manda decide o significado das palavras.
Friday, November 18, 2005
O teatro, ontem.
A peça não me disse nada, por isso não tenho nada a dizer.
O meu irmão ultrapassa-se agora em palco. Já sabe que é actor, e continua encantador.
Thursday, November 17, 2005
Eu não faço nada que possa ser reconhecidamente ou publicamente mensurável, qualificável, "valorável", "catalogável", "quantificável",...ável...vel...el
Parece-me que aqui , como acolá ou ali, esclarecer isto, possa ser "importantável"
Tuesday, November 15, 2005
Não deixa de ser curioso que os alquimistas possam ter estado tão perto da realidade ao acreditarem que podiam transformar uma substância numa outra. Desconhecendo o que são os elementos, misturavam e aqueciam substâncias. Faziam química ao sintetizar e decompor, mas não podiam modificar a estrutura que define um elemento - a composição do seu núcleo. A sua concepção da matéria era falsa. Há no entanto uma presciência na alquimia.
Monday, November 14, 2005
Sunday, November 13, 2005
Friday, November 11, 2005
Hoje ao fazer mais uma lista de compras imaginei
- madeira de carvalho
- pano latino
- dois ou três mastros
- quilha
- um convés
- um castelo de proa
- uma coberta
- uma balestilha
- a estrela polar
Pensei de ouvido
O ranger do cordame, o bater das pontas dos rizes no estai, o impulso do vento a rondar a popa, o matraquear das adriças, o sussurrar da água contra o costado.
Largar as velas, navegar à bolina.
Wednesday, November 09, 2005
O erro parece ser variabilidade, diversidade e evolução.
Cometo muitos erros, uns propositados (como o título deste blog, por exemplo), outros completamente despropositados . Um dos disparatados foi ter apagado tudo que estava ali para baixo.
Gosto do erro porque se revela.
Segundo neurologistas, o nosso cérebro dá-nos percepções erradas da realidade.
O curioso é que são esses erros que permitem um comportamento inteligente numa realidade tão complexa. Uma máquina que aborde o mundo numa perspectiva pura da lógica, é incapaz de se comportar inteligentemente na nossa realidade. Percebe-se que as falhas no tratamento de informação feito pelo nosso cérebro, são capacidades inigualáveis, que nenhuma máquina pode ainda reproduzir.
Há no entanto erros que tendo nós conhecimento deles, poderíamos tentar limitar.
Este poderá ser um exemplo:
- Ser coerente a qualquer preço.
Verifica-se que o nosso cérebro tem tendência a agir mais fácilmente no sentido de confirmar as nossas posições iniciais, do que pelo contrário, agir de maneira a contradizer a posição já tomada.
Uma experiência realizada não me lembro por quem, mas que imagino que possam ter sido psicólogos, verificou este facto:
-Apenas 30% dos transeuntes que viam caír uma nota da bolsa de uma outra pessoa (alguém contratado para o efeito) , a devolviam espontâneamente ao seu proprietário.
Por outro lado, a taxa subiu para 70% quando alguém dez minutos antes (também um "actor"), pediu que lhe indicassem o caminho, agradecendo calorosamente a sua civilidade.
Concluiu-se que transmitir a alguém a ideia de que é civilizado, semeia nele a ideia de confirmar essa imagem. (Neste caso uma indução pela positiva)
Tenta-se evidenciar que o facto de um indivíduo adoptar uma escolha, o faz sentir aprisionado. A tendência é conformar-se e adoptar comportamentos no mesmo sentido.
Eu decidi parar de escrever, mas não me sinto de maneira nenhuma aprisionada a essa escolha. Conhecendo este "erro " do cérebro de se enformar num comportamento anterior, não deixo de fazer aquilo que agora tenho vontade - escrever aqui.
Saturday, November 05, 2005
Uma vez escrevi (estava ali em baixo, agora não sei onde está) que só dividimos o que diminui. No entanto acrescentei no fim, que dividíamos a vida (e que nos ofereciam a morte).
É evidente que falava de nós, de complexos de sistemas vivos.
As células dividem-se e aumentam, criando tecidos e formando orgãos. Existem no entanto no ciclo celular dois processos opostos. A divisão celular, e a morte celular. A esta morte celular chama-se apoptose.
A apoptose remove determinadas células durante o crescimento e desenvolvimento, permitindo, em equilíbrio com a mitose (divisão celular), manter a forma dos orgãos, do corpo.
Os mecanismos que controlam o ciclo celular ainda não são totalmente conhecidos. Sabe-se no entanto que há sinais químicos que controlam o ciclo celular; sinais que provêm de fora e de dentro da célula. Os sinais exteriores são os hormônios, que agem à distância. Os sinais internos são duas proteínas, uma delas a ciclina, a outra - a quinase. A quinase poderia chamar-se quinau ( acto ou efeito de corrigir um erro ), vinha mais a propósito.
A mudança do estado de quiescência é essencial para um estado de crescimento activo.

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