Wednesday, July 20, 2011
Tuesday, May 31, 2011
Saturday, May 14, 2011
Arte poética
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
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Friday, May 06, 2011
Sunday, May 01, 2011
1º de Maio 1974
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
Wednesday, April 20, 2011
"Em cascabulhos incrustados nas bermas
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
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Sunday, October 03, 2010
"O facto de todas as nossas experiências sensoriais poderem ser organizadas por meio de um processo mental (operações com conceitos, criação e uso das relações funcionais precisas, e coordenação entre as experiências sensoriais e os conceitos) é em si mesmo o que nos infunde respeito, mas que nunca seremos capazes de compreender por completo."
Física e Realidade
Albert Einstein
Física e Realidade
Albert Einstein
Saturday, September 25, 2010
Saturday, September 18, 2010
Monday, March 01, 2010
"Se este fosse o momento de aprofundar algum assunto, eu sustentaria, talvez contra a vossa unânime opinião, que a melodia não é o que mais defende Chopin da acção do tempo.
Eu pensava que era a melodia. Mas não - agora não penso assim. Creio que a música de Chopin sobrevive incólume apesar das belíssimas melodias. Sobrevive pela sua formosura, que é palavra vinda de forma e aqui quero que signifique perfeitíssima harmonia formal (...)
A análise técnica minuciosa de uma página de Chopin pode em geral fazer-se com a décima parte das palavras necessárias para uma de Bach, ou de Mozart, ou de Beethoven.
Mas se, em vez de Bach, Mozart ou Beethoven, o termo de comparação fosse Schubert? A conclusão seria outra, não lhe parece?
- Evidentemente. Por isso tenho tido o cuidado de evitar alusões ao Schubert
Em todo o caso, não nos iludamos com a simplicidade de Schubert ou de Chopin. A simplicidade de um artista é sempre complicadíssima (...)
- Sim. Mas já pensou no que será o futuro de Chopin, se a música evoluir no sentido do cerebralismo total? Os duzentos anos do nascimento, os trezentos, os quinhentos, serão comemorados com tamanhos ecos em todo o Mundo? Continuará toda a gente a sentir as suas melodias, a intuir a sua maravilhosa perfeição na forma, como até hoje?"
João de Freitas Branco. Chopin - Um Improviso em Forma de Diálogo
Eu pensava que era a melodia. Mas não - agora não penso assim. Creio que a música de Chopin sobrevive incólume apesar das belíssimas melodias. Sobrevive pela sua formosura, que é palavra vinda de forma e aqui quero que signifique perfeitíssima harmonia formal (...)
A análise técnica minuciosa de uma página de Chopin pode em geral fazer-se com a décima parte das palavras necessárias para uma de Bach, ou de Mozart, ou de Beethoven.
Mas se, em vez de Bach, Mozart ou Beethoven, o termo de comparação fosse Schubert? A conclusão seria outra, não lhe parece?
- Evidentemente. Por isso tenho tido o cuidado de evitar alusões ao Schubert
Em todo o caso, não nos iludamos com a simplicidade de Schubert ou de Chopin. A simplicidade de um artista é sempre complicadíssima (...)
- Sim. Mas já pensou no que será o futuro de Chopin, se a música evoluir no sentido do cerebralismo total? Os duzentos anos do nascimento, os trezentos, os quinhentos, serão comemorados com tamanhos ecos em todo o Mundo? Continuará toda a gente a sentir as suas melodias, a intuir a sua maravilhosa perfeição na forma, como até hoje?"
João de Freitas Branco. Chopin - Um Improviso em Forma de Diálogo
Saturday, February 27, 2010
Sunday, February 07, 2010
Trouxe da biblioteca todos os poemas de Ruy Belo, numa edição da Assírio & Alvim estampada em 2001. São muitos, talvez três centenas, não os contei. (grande parte deles não conhecia, tudo o que tenho lido tem sido através da internet)
MEDITAÇÃO MONTANA
Há aviões às vezes que levantam
aviões que levantam
aviões certas vezes
às vezes uma ave um avião
um avião levanta voo da imaginação
um avião a mais a mesma imaginável imaginação
um aeroporto uma criança a mais sozinha solidão
um quintal o aeroporto mais real
ideias aviões que voam
aviões mais aves do que as aves
aves imitações dos aviões
um ser metálico a mais funda das humanas ambições
a mais humana a maior criação
motor metálico essa crente essa crível criação
crise do homem sua menos frágil mais fremente afirmação
metal mecânico mais quente coração
Há vários aviões que vários vão
que várias vezes vão
Há aviões às vezes que levantam voo
inconcebíveis aviões emersos da imaginação
inconcebíveis e por isso concebíveis
concebíveis na estrita medida em que inconcebíveis
aviões impossíveis mais reais do que os reais
perfeitos pássaros provindos da cessante condição
ó aviões antecessores das aves
palavras vindas de étimos das quais os étimos dimanam
movimento de mãos produtoras das próprias produções
umas mãos que ao mover-se movimentam
criaturas que incríveis criam coisas suas criadoras
aves imitação dos imitados aviões
natureza nascida onde visivelmente nasce a vida
aviões aos quais a ave deve o voo
aviões naturais e aves artificiais
o em princípio mais pelo em princípio menos produzido
o mais o menos
o menos máximo o muito mais
aviões aves vivas que vos levantais
do aeroporto da imaginação
Não fosse o coração muito metálico que muito mais sofria
quem verdadeiramente não podia sofrer mais
Emudece ó amigo deixa os aviões
deixa a imaginação o único aeroporto
regressa à vida que visível mais nos minerais
origina a verdade apenas vista nos jogos verbais
de quem é na imaginação que tem os aeroportos mais internacionais
Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais
MEDITAÇÃO MONTANA
Há aviões às vezes que levantam
aviões que levantam
aviões certas vezes
às vezes uma ave um avião
um avião levanta voo da imaginação
um avião a mais a mesma imaginável imaginação
um aeroporto uma criança a mais sozinha solidão
um quintal o aeroporto mais real
ideias aviões que voam
aviões mais aves do que as aves
aves imitações dos aviões
um ser metálico a mais funda das humanas ambições
a mais humana a maior criação
motor metálico essa crente essa crível criação
crise do homem sua menos frágil mais fremente afirmação
metal mecânico mais quente coração
Há vários aviões que vários vão
que várias vezes vão
Há aviões às vezes que levantam voo
inconcebíveis aviões emersos da imaginação
inconcebíveis e por isso concebíveis
concebíveis na estrita medida em que inconcebíveis
aviões impossíveis mais reais do que os reais
perfeitos pássaros provindos da cessante condição
ó aviões antecessores das aves
palavras vindas de étimos das quais os étimos dimanam
movimento de mãos produtoras das próprias produções
umas mãos que ao mover-se movimentam
criaturas que incríveis criam coisas suas criadoras
aves imitação dos imitados aviões
natureza nascida onde visivelmente nasce a vida
aviões aos quais a ave deve o voo
aviões naturais e aves artificiais
o em princípio mais pelo em princípio menos produzido
o mais o menos
o menos máximo o muito mais
aviões aves vivas que vos levantais
do aeroporto da imaginação
Não fosse o coração muito metálico que muito mais sofria
quem verdadeiramente não podia sofrer mais
Emudece ó amigo deixa os aviões
deixa a imaginação o único aeroporto
regressa à vida que visível mais nos minerais
origina a verdade apenas vista nos jogos verbais
de quem é na imaginação que tem os aeroportos mais internacionais
Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais
Friday, January 08, 2010
Sunday, January 03, 2010
Este ano a serra era a do Larouco.
Nevou. Pelo caminho a estrada tornou-se uma pista, escorrega intransitável. Irreconhecível. Todas brancas: as placas, as árvores, as bermas. O contorno avolumou deixando-se indefinido. A neve caía na frente; vista do carro dir-se-ia que vinha em sentido contrário, sem chocar.
A estrada um enxame aberto, lácteo. Magia branca.
Não tirei fotografias, só mais tarde à chegada
As traseiras, na noite do ano velho

O frontispício na noite, no dia um
Nevou. Pelo caminho a estrada tornou-se uma pista, escorrega intransitável. Irreconhecível. Todas brancas: as placas, as árvores, as bermas. O contorno avolumou deixando-se indefinido. A neve caía na frente; vista do carro dir-se-ia que vinha em sentido contrário, sem chocar.
A estrada um enxame aberto, lácteo. Magia branca.
Não tirei fotografias, só mais tarde à chegada
As traseiras, na noite do ano velho
O frontispício na noite, no dia um
Thursday, December 24, 2009
A minha mãe acordou muitíssimo bem-disposta: "-A esta hora já eu andava no tejo a apanhar robalos e enguias como se apanhasse batatas; metíamo-los nas canastras e ia-mos oferecer peixe a toda a vizinhança. O avô Francisco levantava as comportas e deixava a água a três palmos para os peixes não morrerem. O que eu e os meus primos gostávamos de ali estar de manhã cedo com as redes."
(tejo é o que chamavam ao rectângulo onde cristalizava o sal)
Este assim era o presépio típico de Olhão. Dia oito de Dezembro, dia da mãe, plantavam-se as searinhas de trigo. Armava-se o presépio com o Menino no alto dos degraus de linho. Enfeitava-se com laranjas, tangerinas e com as searas que iam crescendo.

Uma noite feliz
(tejo é o que chamavam ao rectângulo onde cristalizava o sal)
Este assim era o presépio típico de Olhão. Dia oito de Dezembro, dia da mãe, plantavam-se as searinhas de trigo. Armava-se o presépio com o Menino no alto dos degraus de linho. Enfeitava-se com laranjas, tangerinas e com as searas que iam crescendo.

Uma noite feliz
Monday, December 21, 2009
Thursday, December 03, 2009
Wednesday, December 02, 2009
Friday, November 27, 2009
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