Sunday, July 29, 2012
Já percebi que é preciso ter cuidado com o que se escreve porque, bastas vezes, se transforma em realidade. Que importa porquê?
Passei a telefonista, cultural, ou a um híbrido dessa espécie. Mais telefonista que cultural, que "esse fenómeno a que chamamos público" tem mais problemas práticos que pretensões a entendimentos arteológicos.
A minha bisavó era mestre-escola e para além, lia sortes nas cartas e lançava bênção às redes antes de entrarem no mar. Era bruxa. Se alguém era roubado ela era, não sei se a única, mas a primeira a saber quem cometera tamanha desfaçatez. Sabia até adivinhar onde escondiam o dinheiro roubado. Muitos a visitavam à procura de auxílio. Mas é claro, isso não era assunto que a minha avó, a filha, quisesse deixar transparecer. Nunca nós, bisnetos, em tal falávamos. E nunca o meu avô a pôde tolerar.
Quando a conheci vivia no quartinho da açoteia e nunca saía de lá. Ao lado da cama tinha o quadro e o giz. Na mão um ponteiro comprido para bater nas letras. Um enorme cabelo branco até ao fundo das costas e uns olhos muito muito azuis, com um brilho fundo e feroz. Foi ela que me apontou as letras e aí de mim que não as soubesse. Será que é por isso? Que tenho de ter cuidado com o que escrevo? :))
Saturday, June 09, 2012
Wednesday, June 06, 2012
– So, take chance of it. Write music. Don’t just be silent. It’s worst of all. You should always and everywhere think about music…”
Aram Khachaturian
Thursday, March 08, 2012
Estou cheia de febre e as patas do Abu são semicolcheias glissando o soalho. Corre a toda hora; párabu
-Vielimir Khlébnikov
" O GRILO
Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos da ribeira.
-- Pin, pin, pin! -- taramela o zinziber.
Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!"
-Vielimir Khlébnikov
" O GRILO
Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos da ribeira.
-- Pin, pin, pin! -- taramela o zinziber.
Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!"
Thursday, February 16, 2012
| "Sou um instrumentista popular. Tudo o que tenho da música erudita é apenas aquilo que me é exigido por uma cultura geral tão bem fundamentada quanto possível. (...) Se alguma coisa está por dentro da música, da poesia, da ciência, enfim, é a realidade. Se sinto a música de um lado e a realidade do outro, não tenho dúvidas: estou a viver uma ilusão, uma falsa música ou uma falsa realidade." |
Saturday, December 31, 2011
Os retrocessos são sempre tão rápidos e os avanços aparentemente sólidos, tão lentos.
Outro ano; acho que nunca fiz um desenho mental de desejos com data de início. Mas para este ano quero fazê-lo:que nos mantenhamos cientes que direitos fundamentais como a educação, a saúde ou o trabalho, estão em risco, estão riscados, rasurados. Desejo que lutemos para que a falta de meios financeiros não permita que se apaguem as cláusulas dos direitos de todos nós. Protejamo-nos, inventemos, tornemo-nos criativos encontrando soluções que não permitam emendas. Bom Ano
Sunday, December 25, 2011
Thursday, December 15, 2011
Já eu... Ando cansada de trabalho: dez horas diárias, quinze ou dezasseis se necessário; seis dias por semana. Por conta de outrem. É como agir entre vírgulas dobradas.
Contaram-me hoje, conversa de ocasião, que num call center, um empregado que normalmente superava os objectivos a que se propunha, desceu a produtividade abruptamente passando a estar abaixo linha. Ora, e o que lhe aconteceu? Foi obrigado a usar um colete que dizia atrás "eu não consigo".
Confesso, fico sem saber o que dizer. Será real esta história? Há quantos anos deixámos as orelhas de burro? Desdobramo-nos em cuidados na infância para uns dias mais tarde, anos passados, recorrer a este método? Isto é permitido? Não há regulação?
Contaram-me hoje, conversa de ocasião, que num call center, um empregado que normalmente superava os objectivos a que se propunha, desceu a produtividade abruptamente passando a estar abaixo linha. Ora, e o que lhe aconteceu? Foi obrigado a usar um colete que dizia atrás "eu não consigo".
Confesso, fico sem saber o que dizer. Será real esta história? Há quantos anos deixámos as orelhas de burro? Desdobramo-nos em cuidados na infância para uns dias mais tarde, anos passados, recorrer a este método? Isto é permitido? Não há regulação?
Sunday, December 04, 2011
« Hoje não me contenho e encho-me de orgulho de trabalhar onde trabalho. Termos acreditado, termos tido o discernimento de voltar as buscas mais a Norte e ver que seis pessoas foram salvas assim, fez-nos a todos no MRCC sentir uma felicidade justa.»
Ricardo Guerreiro
Também não me contenho. Parabéns à equipa! Enche-me de orgulho - o mano :)
Tuesday, November 22, 2011
Tuesday, November 15, 2011
Thursday, October 27, 2011
At a Solemn Musick
Let the musicians begin,
Let every instrument awaken and instruct us
In love’s willing river and love’s dear discipline:
We wait, silent, in consent and in the penance
Of patience, awaiting the serene exaltation
Which is the liberation and conclusion of expiation.
Now may the chief musician say:
“Lust and emulation have dwelt amoung us
Like barbarous kings: have conquered us:
Have inhabited our hearts: devoured and ravished
—With the savage greed and avarice of fire—
The substance of pity and compassion.”
Now may all the players play:
“The river of the morning, the morning of the river
Flow out of the splendor of the tenderness of surrender.”
Now may the chief musician say:
“Nothing is more important than summer.”
And now the entire choir shall chant:
“How often the astonished heart,
Beholding the laurel,
Remembers the dead,
And the enchanted absolute,
Snow’s kingdom, sleep’s dominion.”
Then shall the chief musician declare:
“The phoenix is the meaning of the fruit,
Until the dream is knowledge and knowledge is a dream.”
And then, once again, the entire choir shall cry, in passionate unity,
Singing and celebrating love and love’s victory,
Ascending and descending the heights of assent, climbing and chanting triumphantly:
Before the morning was, you were:
Before the snow shone,
And the light sang, and the stone,
Abiding, rode the fullness or endured the emptiness,
You were: you were alone.
Delmore Schwartz
Let the musicians begin,
Let every instrument awaken and instruct us
In love’s willing river and love’s dear discipline:
We wait, silent, in consent and in the penance
Of patience, awaiting the serene exaltation
Which is the liberation and conclusion of expiation.
Now may the chief musician say:
“Lust and emulation have dwelt amoung us
Like barbarous kings: have conquered us:
Have inhabited our hearts: devoured and ravished
—With the savage greed and avarice of fire—
The substance of pity and compassion.”
Now may all the players play:
“The river of the morning, the morning of the river
Flow out of the splendor of the tenderness of surrender.”
Now may the chief musician say:
“Nothing is more important than summer.”
And now the entire choir shall chant:
“How often the astonished heart,
Beholding the laurel,
Remembers the dead,
And the enchanted absolute,
Snow’s kingdom, sleep’s dominion.”
Then shall the chief musician declare:
“The phoenix is the meaning of the fruit,
Until the dream is knowledge and knowledge is a dream.”
And then, once again, the entire choir shall cry, in passionate unity,
Singing and celebrating love and love’s victory,
Ascending and descending the heights of assent, climbing and chanting triumphantly:
Before the morning was, you were:
Before the snow shone,
And the light sang, and the stone,
Abiding, rode the fullness or endured the emptiness,
You were: you were alone.
Delmore Schwartz
Friday, August 26, 2011
Wednesday, August 24, 2011
Wednesday, July 20, 2011
Tuesday, May 31, 2011
Saturday, May 14, 2011
Arte poética
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
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Friday, May 06, 2011
Sunday, May 01, 2011
1º de Maio 1974
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
Wednesday, April 20, 2011
"Em cascabulhos incrustados nas bermas
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
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