Últimas vontades de um megalómano inverno: quando morrer certifiquem-se que vou para um sítio onde as estrelas me contem
Friday, January 04, 2019
Thursday, December 27, 2018
Saturday, December 22, 2018
Saturday, December 15, 2018
Provavelmente não nos ensinaram a falar para nos entendermos, tenho um dedo que me diz que a fala é uma rede neural de mentiras para pescar o consenso, a impressão de conjuntos, a sensação de união e de uma realidade comum porque, claro, há uma realidade coisa-em-si em cada um de nós
Ó blogue ... cresceram-te as letras, eheh, deve ser porque vais percebendo que passados estes anos já te vejo mal ao perto
Thursday, December 13, 2018
Querido diário
Almoço na travessia do forno atrás do D. Maria ; uma viela cheia de restaurantes onde quem quer comer bem, come com quem lhe aparece à frente, não há mesas para um
A gente chega e ouve lá do fundo : eu já te arranjo uma mesinha
Hoje, por companhia, calhou me uma senhora guineense que me foi enchendo o copo de vinho partilhando a sua garrafa, sem pergunta alguma, sem boa tarde sequer. Há melhor prenda de Natal ?
Tuesday, December 11, 2018
Saturday, July 29, 2017
Sunday, March 12, 2017
Saturday, December 14, 2013
Saturday, November 23, 2013
Tuesday, September 24, 2013
Sunday, September 22, 2013
Thursday, June 20, 2013
Parece que aquela história do bichinho da madeira é verdadeira. Não é que tive saudades da flanela preta? Das varas e projectores? Do pólen do feixe luz?
PROMO SPOT: LISBOA METROPOLITAN ARTS > 3COREÓGRAFOS > 21_22 JUN > CASINO ESTORIL from Lisboa Metropolitan Arts on Vimeo.
Monday, June 10, 2013
Sunday, May 26, 2013
Friday, May 03, 2013
«Os poetas dão-se conta dessa barreira de perigo antes dos seus contemporâneos, e quanto mais cedo o fazem, mais próximo estão da genialidade. E assim, como é comum acontecer, permanecem incompreensíveis enquanto o conflito hegeliano amadurece no seio da história. Quando finalmente sobrevém o conflito, seus contemporâneos, conturbados e comovidos, erguem um monumento ao homem que deu expressão, quando ela ainda era nova, vital e cheia de esperanças, a essa força que provocou o conflito, e que agora se tornou o símbolo claro e inequívoco de um triunfante avanço.»
Andrey Tarkovsky. Esculpir o tempo
http://pt.scribd.com/doc/7168649/Andrei-Tarkovski-Esculpir-o-Tempo
Thursday, April 25, 2013
“Existe
ostensivamente cor, existe ostensivamente doçura, ostensivamente
amargor, e na verdade apenas átomos no vácuo”,
ao
que os sentidos respondem:
“pobre
intelecto, esperas derrotar-nos ao mesmo tempo que tomas de nós tua
evidência? Tua vitória é tua derrota."
Demócrito ( 460 - 370 aC)
Rua, todos à rua!Que a poesia escrita nestes dias só acrescenta sós à solidão
Wednesday, April 24, 2013
Tuesday, April 23, 2013
Não conheço outro corpo senão o nosso, celeste. Como o posso então antepor a tudo?
É que a água é azul, levemente. Suspensa ou cobrindo a terra até ao mar
Devo elegê-lo pelo céu? Enriquecido de azuis entre a aurora e o crepúsculo, esfera de ar que nos sustém que nos retém, o calor
Pela massa telúrica? Densa e rochosa, condutora em movimento
São as razões ou as escalas?
Ou o contínuo ânimo da vida?
Odorante e audível. Expressa
Multiforme, multicolor
Multíplice
Terra
Wednesday, April 17, 2013
Ainda a propósito do dia mundial da voz, lembro aqui a de Artaud
"Abandonando as utilizações ocidentais da palavra, ela [a linguagem de teatro] faz sortilégios com as
palavras. Ela empurra a voz. Utiliza vibrações e qualidades da voz. Marca ritmos alucinados. Martela sons.
Procura exaltar, entorpecer, encantar, estancar a sensibilidade."
(Antonin Artaud - «Le Théâtre de la Cruauté, premier manifeste»)
Tuesday, April 16, 2013
Monday, April 15, 2013
Wednesday, April 10, 2013
Podemos lá nós, humanos, fazer valer os nossos direitos sem os despóticos. Se não tolerámos a tirania em exercício directo, havemos de ter que tolerar o poderio financeiro - porque o ser humano, sem dono, é da pior espécie...
Por exemplo: se eu amanhã já só tiver uma pedra para pôr na sopa, é expectável que assalte o vizinho mais próximo com gritos de destruição massiva e cânticos de guerra.
[Adenda]
É expectável... para quem lê a espécie como éramos há quase três milhões de anos (na idade da bruta pedra). Parodiei desconstruindo o medo. A pedra seria de toque, dois traços de carácter - egoísmo e solidariedade
Gritos e cânticos não são armas de destruição - essas estão nas mãos dos donos; nunca, nunca vou acreditar que precisamos de donos.
Monday, April 08, 2013
Poema de agradecimento à corja
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigada por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.
Joaquim Pessoa
Saturday, April 06, 2013
Alívio momentâneo....
“São as leis que se têm de conformar à Constituição e não a Constituição a qualquer lei”
Joaquim Sousa Ribeiro.
Mas eis que chega o plano B...
"O deputado do PSD e antigo juiz do Tribunal Constitucional diz que o Governo não tem outra alternativa senão fazer um corte generalizado de parte do subsídio de férias ao sector público, pensionistas e privados, para poder cobrir o buraco que resulta da decisão do Tribunal Constitucional" (repare-se como um juiz imputa a responsabilidade do buraco ao Tribunal Constitucional)
Paulo Mota Pinto em declarações à Renascença.
http://www-org.rr.pt/informacao_prog_detalhe.aspx?fid=79&did=102944
" ... não é comigo"
http://www.sabado.pt//Multimedia/Videos/Vox-Pop/VoxPop--A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx?id=411304
Provavelmente o leão :)
Foi a minha filha que hoje me chamou a atenção para este vídeo (no link acima) Não serve para ilustrar quem ignora o que o rodeia ou o que o trouxe até hoje. Não serve para documentar o alheamento da população em relação à comunidade, à sociedade, ao mundo, ao modelo, à política. Não é certamente típico e exclusivo desta faixa etária. A amostra não é representativa e é, como todos os recortes de imagem, manipulada.
O que me saltou à vista (para além de umas boas gargalhadas, e sei que erraria a pergunta: qual a capital dos EUA? Troco sempre:) foi o - "isso não é comigo" -, a desresponsabilização: "Artes não é comigo" "Política não é comigo" "Cinema não é comigo" "Informática não é comigo" "Tudo o que tem a ver com religião não é comigo" "Cultura geral não é comigo". A resposta "passo"
Provavelmente o leão :)
Foi a minha filha que hoje me chamou a atenção para este vídeo (no link acima) Não serve para ilustrar quem ignora o que o rodeia ou o que o trouxe até hoje. Não serve para documentar o alheamento da população em relação à comunidade, à sociedade, ao mundo, ao modelo, à política. Não é certamente típico e exclusivo desta faixa etária. A amostra não é representativa e é, como todos os recortes de imagem, manipulada.
O que me saltou à vista (para além de umas boas gargalhadas, e sei que erraria a pergunta: qual a capital dos EUA? Troco sempre:) foi o - "isso não é comigo" -, a desresponsabilização: "Artes não é comigo" "Política não é comigo" "Cinema não é comigo" "Informática não é comigo" "Tudo o que tem a ver com religião não é comigo" "Cultura geral não é comigo". A resposta "passo"
Friday, April 05, 2013
Thursday, April 04, 2013
Caem tantas enormidades de todo o lado que é difícil acompanhar a derrocada do edifício democrático. Passamos à antiutopia enquanto o diabo esfrega os olhos, incrédulo.
“A Hungria já não é uma Democracia”
“ (…) O ataque foi claro e continuado: restrição da liberdade de imprensa, direcção política do Banco Central, a inclusão na Constituição de referências religiosas cristãs e da "utilidade social" dos indivíduos como condição necessária para a aplicação de direitos sociais, a exclusão da palavra "República" da mesma Constituição para definir o sistema político do país, a condenação da homossexualidade, a criminalização dos sem-abrigo, os ataques contra os direitos das mulheres, a impunidade concedida aos autores de crimes racistas, o fortalecimento de um anti-semitismo virulento...”
artigo completo aqui: http://goo.gl/VT2jg
Aqui: as emendas (ler para crer)
http://www.kormany.hu/en/doc?source=9&year=2013#!DocumentBrowse
http://www.kormany.hu/download/3/90/d0000/20130312%20Fourth%20Amendment%20to%20the%20Fundamental%20Law.pdf#!DocumentBrowse
Outras opiniões: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/apr/03/hungary-ignorant-nonsense
Reacções: http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=44545&Cr=Hungary&Cr1#.UVymV6KsiSo
E pergunto-me: O que querem os cidadãos?
Sunday, March 31, 2013
Ressurreição
.
«Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens,
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à Primavera...»
Miguel Torga, Diário, Vol. VIII
Páscoa feliz! E uma canção ribeira (que tanto gosto) - aqui em carcavelos chove que deus dá :)
Wednesday, March 27, 2013
"Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho"
Atribui-se esta frase a Schopenhauer (não sei se a fonte é segura, todas estas frases soltas e citadas que encontro são, muitas vezes, água de um longo percurso)
Estive a trabalhar em produção teatral nestes últimos três anos.
A memória que trouxe da palavra “Teatro” é - imagine-se - a canção de lisboa, de Jorge Palma. Ou pelo menos foi o que me ocorreu agora que pensei nisso.
Talvez o refrão...
Mamã, mamã
Onde estás tu, mamã?
Nós sem ti não sabemos, mamã,
Libertar-nos do mal
Talvez esta estrofe:
A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nós também temos mão na vida
Mesmo que seja à custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de lisboa
Ou mesmo os dois primeiros versos:
Os serões habituais
E as conversas sempre iguais
Neste momento o Teatro parece-me muito mais próximo do conceito do que da ideia*. Provavelmente estou errada, felizmente. Que um dos motivos pelo qual estou muitas vezes calada é o de não acreditar que a minha experiência seja mais acertada ou definitiva que qualquer outra. Sinceramente
*“A Ideia é a unidade que se transforma em pluralidade por meio do espaço e do tempo, formas da nossa percepção intuitiva; o conceito, pelo contrário, é a unidade extraída da pluralidade, por meio da abstracção que é um procedimento do nosso entendimento; o conceito pode ser chamado unitas post rem, a Ideia, unitas ante rem. Indiquemos, finalmente, uma comparação que exprime bem a diferença entre conceito e Ideia: o conceito assemelha-se a um recipiente inanimado; aquilo que lá se deposita permanece bem colocado na mesma ordem, mas não se pode tirar de lá (através dos juízos analíticos) nada mais do que aquilo que lá se colocou (através da reflexão sintética); a Ideia, pelo contrário, revela àquele que a concebeu representações completamente novas do ponto de vista do conceito de mesmo nome: ela é como um organismo vivo, que cresce e é prolífico, capaz, numa palavra, de produzir aquilo que não se introduziu lá.”
O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer (tradução portuguesa de M. F. Sá Correia)
Sunday, March 24, 2013
"Uma espécie de música"
[Esta terra de sol esta terra ainda/ é bem ela esta terra inocente/ este corpo há que deixá-lo ser água/ não é fácil separá-lo da luz/ quase nua esta terra ainda minha]
"(...) no primeiro verso sobe-se da nota grave, digamos de terra ao agudo de sol, para se voltar ao grave inicial; no segundo verso insiste-se no mesmo grave para subir ao agudo inocente (talvez menos agudo, e talvez em surdina, se comparado com sol), no terceiro verso passa-se a corpo, menos grave que terra, e ascende-se a um mais agudo água, nitidamente menos agudo no entanto do que sol (e inocente); o quarto verso efectua nova elevação, a luz que não me arrisco a graduar relativamente a sol (o vocalismo sugere um agudo menor); a nota final, no quinto verso, é o grave recorrente do trecho, que nua modula em sentido ainda mais grave (digamos que como um bemol), e a que depois o possessivo minha, pelo contrário, modula ligeiramente no sentido do agudo (digamos que como um sustenido). Esta proposta de leitura melódica do imaginário em poesia talvez possa sugerir uma pesquisa, de tipo electroencefalográfico por exemplo, assim como a melodia fonética, muito complexamente harmonizada, se pode seguir num espectograma."
Uma espécie de música. Dois movimentos de metáfora em Eugénio de Andrade
Óscar Lopes
Tuesday, March 19, 2013
“Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
(...)
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
(...)
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a
[víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar (...)
Fernando Namora, 'Nome Para Uma Casa'
Meu pai não tinha sandálias de vento
Visitava-o toda a Terra enquanto ele ria para os céus
Recebia tudo o que acontecera num enorme lugar que tinha dentro do peito; do tudo, não muito, saía algum antes de escurecer, outro mais, acabava por pernoitar e a grande parte, prolongava a estadia.
Tinha tanto lá dentro, onde todos podiam chegar
Friday, March 15, 2013
Wednesday, March 13, 2013
"Exageros"
Procura-se pessoa idónea com disponibilidade total, que possa coser as bainhas do mar, impedindo as ondas de rebentar na costa.
- É essencial ter experiência em bordado livre (os fios não são contáveis)
- Pede-se conhecimentos em ponto nó, fios estendidos, de contorno, laçada e cobertura em teia de aranha (para prender as bainhas abertas)
- Obriga-se o uso de bastidor para manter o trabalho esticado e liso
Contrato sem termo; mal remunerado
É quase isto que leio no site da net-empregos.
Que sistema é este em que, cada vez mais, se pede força de trabalho infinita a troco de impossibilidade de subsistência?
Saturday, March 09, 2013
Thursday, March 07, 2013
Tuesday, September 18, 2012
Saturday, September 15, 2012
«E farei um rápido quadro da nossa visão do futuro...
Anuncia o que vês...
«Vejo: a extensão monstruosa das potências do dinheiro; todas as mais legítimas reivindicações esmagadas e mantidas sob a sua tirania...
«Vejo a comoção da massa laboriosa, cujo crescente tumultuo não é senão mal dissimulado por esta parada ruidosa dos partidos políticos, que, até aqui, conseguiu só captar a atenção...
«Vejo o avanço regular duma maioria humana, brutal, inculta, embriagada de ilusões, esfomeada de segurança e de felicidade material, contra uma minoria cega, poderosa ainda pela força das coisas estabelecidas, mas cuja relativa estabilidade não repousa, de facto, senão sobre o regime capitalista.
O drama de João Barois. Roger Martin du Gard
Sunday, September 02, 2012
Morreu Emmanuel Nunes?
Gostaria tanto de o ter conhecido. Uma coisa sei, vi nos olhos de quem morre, há qualquer coisa de muito familiar nesse encontro com o fim - um relâmpago de reconhecimento e surpresa.
Gostaria tanto de o ter conhecido. Uma coisa sei, vi nos olhos de quem morre, há qualquer coisa de muito familiar nesse encontro com o fim - um relâmpago de reconhecimento e surpresa.
Thursday, August 23, 2012
"Voltemos à música. Os sons não têm uma significação que possa ordená-los; o seu agrupamento é uma operação espontânea da própria sensibilidade do músico. A sua notação abstracta sobre as folhas da partitura não nos transmite a significação dos sons, mas simplesmente a sua ordenação, matematicamente fixada na sua duração e na sua intensidade (...)
Assim, o músico cria um tempo fictício, contido, sem dúvida, no tempo normal, mas esteticamente independente dele; e tem o poder quase miraculoso de fixar definitivamente essa criação, esse tempo fictício. De maneira que, durante a duração da sua música, o músico obriga-nos a medir e a sentir o tempo segundo a duração dos seus próprios sentimentos: coloca-nos num tempo verdadeiro, porque é duração, e no entanto fictício. A realidade estética da música é, por isso, superior à de todas as artes; ela só é uma criação imediata da nossa alma.
Objectar-me-ão que a sua execução constitui um elemento intermediário entre ela e nós. - Não. A execução correcta de uma partitura é para a música o que é para um fresco, por exemplo, o lugar e a iluminação adequados. A música representa o tempo sem outro intermediário que não seja ela própria; é isso a sua existência formal, em especial para a arte dramática"
«Quando a música atinge o seu mais nobre poder, torna-se forma no espaço»
Friedrich Schiller
(...)
"E se, como para as outras obras de arte, a obra dramática é o resultado da modificação das relações (ver atrás a citação de Taine*) o que é incontestável, resta-nos encontrar em nós próprios o elemento modificador. Em nós próprios porque, fora disso, apresentar-se-ia preparado para fins estranhos à vida do nosso corpo. Vimos, precisamente, que é a nossa vida afectiva, interior, que dá aos nossos movimentos a sua duração e o seu carácter; sabemos também, que a música exprime essa vida de uma maneira, para nós, indubitável e que modifica profundamente essas durações e esse carácter. Possuímos nela um elemento profundamente emanado de nós próprios e de que aceitámos já e por definição a disciplina.Será, portanto, da música que nascerá a obra de arte viva "
* A obra de arte tem por objectivo manifestar qualquer carácter essencial e saliente, portanto qualquer ideia importante, mais claramente e mais completamente do que o fazem os objectos reais. Consegue-o empregando um conjunto de partes ligadas cujas relações ela modifica sistemáticamente
Adolphe Appia
A obra de arte viva
Tuesday, August 14, 2012
Sergiu Celibidache (28 June 1912 – 14 August 1996)
Não seria fácil para mim eleger uma obra, uma época. Não saberia preferir um compositor, um instrumento, uma escala ou um som. Mas admiro, acima de muitos, este maestro. A forma como estende o volume e multiplica o relevo. Como põe a descoberto inteiras cordilheiras submersas. Como lhes confere distâncias sem intervalo
Tuesday, August 07, 2012
Desço a Rua Augusta à hora em que o homem estátua dourado conta as moedas que juntou; hoje contava cento e quarenta e uma, quando passei
Que bom é desembocar depois das ruas, no arco. O espaço, que falta faz a Lisboa. Ou a sensação virá do som da hora? Em que o homem dourado, já lá atrás, conta as moedas
Sunday, August 05, 2012
Sunday, July 29, 2012
Já percebi que é preciso ter cuidado com o que se escreve porque, bastas vezes, se transforma em realidade. Que importa porquê?
Passei a telefonista, cultural, ou a um híbrido dessa espécie. Mais telefonista que cultural, que "esse fenómeno a que chamamos público" tem mais problemas práticos que pretensões a entendimentos arteológicos.
A minha bisavó era mestre-escola e para além, lia sortes nas cartas e lançava bênção às redes antes de entrarem no mar. Era bruxa. Se alguém era roubado ela era, não sei se a única, mas a primeira a saber quem cometera tamanha desfaçatez. Sabia até adivinhar onde escondiam o dinheiro roubado. Muitos a visitavam à procura de auxílio. Mas é claro, isso não era assunto que a minha avó, a filha, quisesse deixar transparecer. Nunca nós, bisnetos, em tal falávamos. E nunca o meu avô a pôde tolerar.
Quando a conheci vivia no quartinho da açoteia e nunca saía de lá. Ao lado da cama tinha o quadro e o giz. Na mão um ponteiro comprido para bater nas letras. Um enorme cabelo branco até ao fundo das costas e uns olhos muito muito azuis, com um brilho fundo e feroz. Foi ela que me apontou as letras e aí de mim que não as soubesse. Será que é por isso? Que tenho de ter cuidado com o que escrevo? :))
Saturday, June 09, 2012
Wednesday, June 06, 2012
– So, take chance of it. Write music. Don’t just be silent. It’s worst of all. You should always and everywhere think about music…”
Aram Khachaturian
Thursday, March 08, 2012
Estou cheia de febre e as patas do Abu são semicolcheias glissando o soalho. Corre a toda hora; párabu
-Vielimir Khlébnikov
" O GRILO
Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos da ribeira.
-- Pin, pin, pin! -- taramela o zinziber.
Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!"
-Vielimir Khlébnikov
" O GRILO
Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos da ribeira.
-- Pin, pin, pin! -- taramela o zinziber.
Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!"
Thursday, February 16, 2012
| "Sou um instrumentista popular. Tudo o que tenho da música erudita é apenas aquilo que me é exigido por uma cultura geral tão bem fundamentada quanto possível. (...) Se alguma coisa está por dentro da música, da poesia, da ciência, enfim, é a realidade. Se sinto a música de um lado e a realidade do outro, não tenho dúvidas: estou a viver uma ilusão, uma falsa música ou uma falsa realidade." |
Saturday, December 31, 2011
Os retrocessos são sempre tão rápidos e os avanços aparentemente sólidos, tão lentos.
Outro ano; acho que nunca fiz um desenho mental de desejos com data de início. Mas para este ano quero fazê-lo:que nos mantenhamos cientes que direitos fundamentais como a educação, a saúde ou o trabalho, estão em risco, estão riscados, rasurados. Desejo que lutemos para que a falta de meios financeiros não permita que se apaguem as cláusulas dos direitos de todos nós. Protejamo-nos, inventemos, tornemo-nos criativos encontrando soluções que não permitam emendas. Bom Ano
Sunday, December 25, 2011
Thursday, December 15, 2011
Já eu... Ando cansada de trabalho: dez horas diárias, quinze ou dezasseis se necessário; seis dias por semana. Por conta de outrem. É como agir entre vírgulas dobradas.
Contaram-me hoje, conversa de ocasião, que num call center, um empregado que normalmente superava os objectivos a que se propunha, desceu a produtividade abruptamente passando a estar abaixo linha. Ora, e o que lhe aconteceu? Foi obrigado a usar um colete que dizia atrás "eu não consigo".
Confesso, fico sem saber o que dizer. Será real esta história? Há quantos anos deixámos as orelhas de burro? Desdobramo-nos em cuidados na infância para uns dias mais tarde, anos passados, recorrer a este método? Isto é permitido? Não há regulação?
Contaram-me hoje, conversa de ocasião, que num call center, um empregado que normalmente superava os objectivos a que se propunha, desceu a produtividade abruptamente passando a estar abaixo linha. Ora, e o que lhe aconteceu? Foi obrigado a usar um colete que dizia atrás "eu não consigo".
Confesso, fico sem saber o que dizer. Será real esta história? Há quantos anos deixámos as orelhas de burro? Desdobramo-nos em cuidados na infância para uns dias mais tarde, anos passados, recorrer a este método? Isto é permitido? Não há regulação?
Sunday, December 04, 2011
« Hoje não me contenho e encho-me de orgulho de trabalhar onde trabalho. Termos acreditado, termos tido o discernimento de voltar as buscas mais a Norte e ver que seis pessoas foram salvas assim, fez-nos a todos no MRCC sentir uma felicidade justa.»
Ricardo Guerreiro
Também não me contenho. Parabéns à equipa! Enche-me de orgulho - o mano :)
Tuesday, November 22, 2011
Tuesday, November 15, 2011
Thursday, October 27, 2011
At a Solemn Musick
Let the musicians begin,
Let every instrument awaken and instruct us
In love’s willing river and love’s dear discipline:
We wait, silent, in consent and in the penance
Of patience, awaiting the serene exaltation
Which is the liberation and conclusion of expiation.
Now may the chief musician say:
“Lust and emulation have dwelt amoung us
Like barbarous kings: have conquered us:
Have inhabited our hearts: devoured and ravished
—With the savage greed and avarice of fire—
The substance of pity and compassion.”
Now may all the players play:
“The river of the morning, the morning of the river
Flow out of the splendor of the tenderness of surrender.”
Now may the chief musician say:
“Nothing is more important than summer.”
And now the entire choir shall chant:
“How often the astonished heart,
Beholding the laurel,
Remembers the dead,
And the enchanted absolute,
Snow’s kingdom, sleep’s dominion.”
Then shall the chief musician declare:
“The phoenix is the meaning of the fruit,
Until the dream is knowledge and knowledge is a dream.”
And then, once again, the entire choir shall cry, in passionate unity,
Singing and celebrating love and love’s victory,
Ascending and descending the heights of assent, climbing and chanting triumphantly:
Before the morning was, you were:
Before the snow shone,
And the light sang, and the stone,
Abiding, rode the fullness or endured the emptiness,
You were: you were alone.
Delmore Schwartz
Let the musicians begin,
Let every instrument awaken and instruct us
In love’s willing river and love’s dear discipline:
We wait, silent, in consent and in the penance
Of patience, awaiting the serene exaltation
Which is the liberation and conclusion of expiation.
Now may the chief musician say:
“Lust and emulation have dwelt amoung us
Like barbarous kings: have conquered us:
Have inhabited our hearts: devoured and ravished
—With the savage greed and avarice of fire—
The substance of pity and compassion.”
Now may all the players play:
“The river of the morning, the morning of the river
Flow out of the splendor of the tenderness of surrender.”
Now may the chief musician say:
“Nothing is more important than summer.”
And now the entire choir shall chant:
“How often the astonished heart,
Beholding the laurel,
Remembers the dead,
And the enchanted absolute,
Snow’s kingdom, sleep’s dominion.”
Then shall the chief musician declare:
“The phoenix is the meaning of the fruit,
Until the dream is knowledge and knowledge is a dream.”
And then, once again, the entire choir shall cry, in passionate unity,
Singing and celebrating love and love’s victory,
Ascending and descending the heights of assent, climbing and chanting triumphantly:
Before the morning was, you were:
Before the snow shone,
And the light sang, and the stone,
Abiding, rode the fullness or endured the emptiness,
You were: you were alone.
Delmore Schwartz
Friday, August 26, 2011
Wednesday, August 24, 2011
Wednesday, July 20, 2011
Tuesday, May 31, 2011
Saturday, May 14, 2011
Arte poética
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
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Friday, May 06, 2011
Sunday, May 01, 2011
1º de Maio 1974
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
Wednesday, April 20, 2011
"Em cascabulhos incrustados nas bermas
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
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Sunday, October 03, 2010
"O facto de todas as nossas experiências sensoriais poderem ser organizadas por meio de um processo mental (operações com conceitos, criação e uso das relações funcionais precisas, e coordenação entre as experiências sensoriais e os conceitos) é em si mesmo o que nos infunde respeito, mas que nunca seremos capazes de compreender por completo."
Física e Realidade
Albert Einstein
Física e Realidade
Albert Einstein
Saturday, September 25, 2010
Saturday, September 18, 2010
Monday, March 01, 2010
"Se este fosse o momento de aprofundar algum assunto, eu sustentaria, talvez contra a vossa unânime opinião, que a melodia não é o que mais defende Chopin da acção do tempo.
Eu pensava que era a melodia. Mas não - agora não penso assim. Creio que a música de Chopin sobrevive incólume apesar das belíssimas melodias. Sobrevive pela sua formosura, que é palavra vinda de forma e aqui quero que signifique perfeitíssima harmonia formal (...)
A análise técnica minuciosa de uma página de Chopin pode em geral fazer-se com a décima parte das palavras necessárias para uma de Bach, ou de Mozart, ou de Beethoven.
Mas se, em vez de Bach, Mozart ou Beethoven, o termo de comparação fosse Schubert? A conclusão seria outra, não lhe parece?
- Evidentemente. Por isso tenho tido o cuidado de evitar alusões ao Schubert
Em todo o caso, não nos iludamos com a simplicidade de Schubert ou de Chopin. A simplicidade de um artista é sempre complicadíssima (...)
- Sim. Mas já pensou no que será o futuro de Chopin, se a música evoluir no sentido do cerebralismo total? Os duzentos anos do nascimento, os trezentos, os quinhentos, serão comemorados com tamanhos ecos em todo o Mundo? Continuará toda a gente a sentir as suas melodias, a intuir a sua maravilhosa perfeição na forma, como até hoje?"
João de Freitas Branco. Chopin - Um Improviso em Forma de Diálogo
Eu pensava que era a melodia. Mas não - agora não penso assim. Creio que a música de Chopin sobrevive incólume apesar das belíssimas melodias. Sobrevive pela sua formosura, que é palavra vinda de forma e aqui quero que signifique perfeitíssima harmonia formal (...)
A análise técnica minuciosa de uma página de Chopin pode em geral fazer-se com a décima parte das palavras necessárias para uma de Bach, ou de Mozart, ou de Beethoven.
Mas se, em vez de Bach, Mozart ou Beethoven, o termo de comparação fosse Schubert? A conclusão seria outra, não lhe parece?
- Evidentemente. Por isso tenho tido o cuidado de evitar alusões ao Schubert
Em todo o caso, não nos iludamos com a simplicidade de Schubert ou de Chopin. A simplicidade de um artista é sempre complicadíssima (...)
- Sim. Mas já pensou no que será o futuro de Chopin, se a música evoluir no sentido do cerebralismo total? Os duzentos anos do nascimento, os trezentos, os quinhentos, serão comemorados com tamanhos ecos em todo o Mundo? Continuará toda a gente a sentir as suas melodias, a intuir a sua maravilhosa perfeição na forma, como até hoje?"
João de Freitas Branco. Chopin - Um Improviso em Forma de Diálogo
Saturday, February 27, 2010
Sunday, February 07, 2010
Trouxe da biblioteca todos os poemas de Ruy Belo, numa edição da Assírio & Alvim estampada em 2001. São muitos, talvez três centenas, não os contei. (grande parte deles não conhecia, tudo o que tenho lido tem sido através da internet)
MEDITAÇÃO MONTANA
Há aviões às vezes que levantam
aviões que levantam
aviões certas vezes
às vezes uma ave um avião
um avião levanta voo da imaginação
um avião a mais a mesma imaginável imaginação
um aeroporto uma criança a mais sozinha solidão
um quintal o aeroporto mais real
ideias aviões que voam
aviões mais aves do que as aves
aves imitações dos aviões
um ser metálico a mais funda das humanas ambições
a mais humana a maior criação
motor metálico essa crente essa crível criação
crise do homem sua menos frágil mais fremente afirmação
metal mecânico mais quente coração
Há vários aviões que vários vão
que várias vezes vão
Há aviões às vezes que levantam voo
inconcebíveis aviões emersos da imaginação
inconcebíveis e por isso concebíveis
concebíveis na estrita medida em que inconcebíveis
aviões impossíveis mais reais do que os reais
perfeitos pássaros provindos da cessante condição
ó aviões antecessores das aves
palavras vindas de étimos das quais os étimos dimanam
movimento de mãos produtoras das próprias produções
umas mãos que ao mover-se movimentam
criaturas que incríveis criam coisas suas criadoras
aves imitação dos imitados aviões
natureza nascida onde visivelmente nasce a vida
aviões aos quais a ave deve o voo
aviões naturais e aves artificiais
o em princípio mais pelo em princípio menos produzido
o mais o menos
o menos máximo o muito mais
aviões aves vivas que vos levantais
do aeroporto da imaginação
Não fosse o coração muito metálico que muito mais sofria
quem verdadeiramente não podia sofrer mais
Emudece ó amigo deixa os aviões
deixa a imaginação o único aeroporto
regressa à vida que visível mais nos minerais
origina a verdade apenas vista nos jogos verbais
de quem é na imaginação que tem os aeroportos mais internacionais
Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais
MEDITAÇÃO MONTANA
Há aviões às vezes que levantam
aviões que levantam
aviões certas vezes
às vezes uma ave um avião
um avião levanta voo da imaginação
um avião a mais a mesma imaginável imaginação
um aeroporto uma criança a mais sozinha solidão
um quintal o aeroporto mais real
ideias aviões que voam
aviões mais aves do que as aves
aves imitações dos aviões
um ser metálico a mais funda das humanas ambições
a mais humana a maior criação
motor metálico essa crente essa crível criação
crise do homem sua menos frágil mais fremente afirmação
metal mecânico mais quente coração
Há vários aviões que vários vão
que várias vezes vão
Há aviões às vezes que levantam voo
inconcebíveis aviões emersos da imaginação
inconcebíveis e por isso concebíveis
concebíveis na estrita medida em que inconcebíveis
aviões impossíveis mais reais do que os reais
perfeitos pássaros provindos da cessante condição
ó aviões antecessores das aves
palavras vindas de étimos das quais os étimos dimanam
movimento de mãos produtoras das próprias produções
umas mãos que ao mover-se movimentam
criaturas que incríveis criam coisas suas criadoras
aves imitação dos imitados aviões
natureza nascida onde visivelmente nasce a vida
aviões aos quais a ave deve o voo
aviões naturais e aves artificiais
o em princípio mais pelo em princípio menos produzido
o mais o menos
o menos máximo o muito mais
aviões aves vivas que vos levantais
do aeroporto da imaginação
Não fosse o coração muito metálico que muito mais sofria
quem verdadeiramente não podia sofrer mais
Emudece ó amigo deixa os aviões
deixa a imaginação o único aeroporto
regressa à vida que visível mais nos minerais
origina a verdade apenas vista nos jogos verbais
de quem é na imaginação que tem os aeroportos mais internacionais
Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais
Friday, January 08, 2010
Sunday, January 03, 2010
Este ano a serra era a do Larouco.
Nevou. Pelo caminho a estrada tornou-se uma pista, escorrega intransitável. Irreconhecível. Todas brancas: as placas, as árvores, as bermas. O contorno avolumou deixando-se indefinido. A neve caía na frente; vista do carro dir-se-ia que vinha em sentido contrário, sem chocar.
A estrada um enxame aberto, lácteo. Magia branca.
Não tirei fotografias, só mais tarde à chegada
As traseiras, na noite do ano velho

O frontispício na noite, no dia um
Nevou. Pelo caminho a estrada tornou-se uma pista, escorrega intransitável. Irreconhecível. Todas brancas: as placas, as árvores, as bermas. O contorno avolumou deixando-se indefinido. A neve caía na frente; vista do carro dir-se-ia que vinha em sentido contrário, sem chocar.
A estrada um enxame aberto, lácteo. Magia branca.
Não tirei fotografias, só mais tarde à chegada
As traseiras, na noite do ano velho
O frontispício na noite, no dia um
Thursday, December 24, 2009
A minha mãe acordou muitíssimo bem-disposta: "-A esta hora já eu andava no tejo a apanhar robalos e enguias como se apanhasse batatas; metíamo-los nas canastras e ia-mos oferecer peixe a toda a vizinhança. O avô Francisco levantava as comportas e deixava a água a três palmos para os peixes não morrerem. O que eu e os meus primos gostávamos de ali estar de manhã cedo com as redes."
(tejo é o que chamavam ao rectângulo onde cristalizava o sal)
Este assim era o presépio típico de Olhão. Dia oito de Dezembro, dia da mãe, plantavam-se as searinhas de trigo. Armava-se o presépio com o Menino no alto dos degraus de linho. Enfeitava-se com laranjas, tangerinas e com as searas que iam crescendo.

Uma noite feliz
(tejo é o que chamavam ao rectângulo onde cristalizava o sal)
Este assim era o presépio típico de Olhão. Dia oito de Dezembro, dia da mãe, plantavam-se as searinhas de trigo. Armava-se o presépio com o Menino no alto dos degraus de linho. Enfeitava-se com laranjas, tangerinas e com as searas que iam crescendo.

Uma noite feliz
Monday, December 21, 2009
Thursday, December 03, 2009
Wednesday, December 02, 2009
Friday, November 27, 2009
Sunday, November 22, 2009
A 22 de Novembro de 1913 nasceu Benjamin Britten - Barão de Aldeburgh
http://www.youtube.com/watch?v=VnoWS3uFBt4&hd=1
A 22 também, de 1901, nasceu Joaquín Rodrigo - Marquês dos Jardins de Aranjuez
http://www.youtube.com/watch?v=J29k1LtHq9M
http://www.youtube.com/watch?v=VnoWS3uFBt4&hd=1
A 22 também, de 1901, nasceu Joaquín Rodrigo - Marquês dos Jardins de Aranjuez
http://www.youtube.com/watch?v=J29k1LtHq9M
Friday, November 20, 2009
Friday, November 13, 2009
NASA: há água na Lua!
7 de Novembro - Eclipse total da lua. Passou diante dela a terra ou coisa assim, grossa e opaca. Enquanto a via desaparecer aos poucos por detrás dessa invisível mão que a tapava, comecei a pensar cá em baixo. O que seria a vida sem ela, sem essa quimera de luz que mora lá na distância do sonho. Lá, onde desfeito e vago, em astro frio, iluminado de saudade, eu quero ir morar depois disto.
Miguel Torga. Diário I.
7 de Novembro - Eclipse total da lua. Passou diante dela a terra ou coisa assim, grossa e opaca. Enquanto a via desaparecer aos poucos por detrás dessa invisível mão que a tapava, comecei a pensar cá em baixo. O que seria a vida sem ela, sem essa quimera de luz que mora lá na distância do sonho. Lá, onde desfeito e vago, em astro frio, iluminado de saudade, eu quero ir morar depois disto.
Miguel Torga. Diário I.
Wednesday, November 11, 2009

"Aprendemos o modo específico de progredir em direcção à atitude crítica , ao mais antigo, de onde brota o que vem depois. Aprendemos a levantar cedo e a conhecer o curso da história. Aprendemos o que é obrigatório no caminho do primordial para o real. Aprendemos o que digerir. Aprendemos a organizar o movimento através dos contextos lógicos. Aprendemos lógica. Aprendemos o que é o organismo. O relaxamento das relações de tensão é uma consequência de tudo isso. Nada de exagerado; tensão no interior, atrás, em baixo [tensão inferior]. Calor apenas por dentro. Interioridade.
(…)
É difícil contar com o inesperado. E, no entanto, sendo o condutor em pessoa, o génio está sempre um passo à frente. Salta adiante, seja na mesma direcção ou noutra. Talvez já esteja hoje numa região que quase ninguém imagina. Pois o génio costuma ser, para o dogma, um herege. Não possui nenhum princípio além de si mesmo.
A academia silencia acerca do conceito de génio conscientemente, com um respeito discreto. Ela o guarda como um segredo que, retirado do seu estado latente, talvez fosse questionado de modo ilógico e tolo.
O que resultaria em revolução. Perplexidade gerada pelo espanto. Indignação e exílio: Fora o criador de sínteses! Fora o totalizador! Nós [os analíticos] somos contra! E então as ofensas em profusão: Romântico! Cósmico! Místico! Sim, no final seria preciso chamar um filósofo, um mágico!"
Paul Klee. Sobre a arte moderna e outros ensaios.
Friday, November 06, 2009
"(…)um princípio de ordem no universo. Qualquer que seja a classificação, esta possui uma virtude própria em relação à ausência de classificação. (…) Essa exigência de ordem constitui a base do pensamento que denominamos primitivo, mas unicamente pelo facto de que constitui a base de todo o pensamento."
"O pensamento mágico não é uma estreia, um começo, um esboço, a parte de um todo ainda não realizado; ele forma um sistema bem articulado; independente, nesse ponto, desse outro sistema que constitui a ciência (…). Portanto, em lugar de opor magia e ciência, seria melhor colocá-las em paralelo, como dois modos de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (…), mas não devido à espécie de operações mentais que ambas supõem e que diferem menos na natureza que na função dos tipos aos quais são aplicados."
Pensamento Selvagem. Lévi-Strauss.
"Diante de alguns factos inexplicáveis deves tentar imaginar muitas leis gerais, em que não vês ainda a conexão com os factos de que te estás ocupando e de repente na conexão imprevista de um resultado, um caso e uma lei, esboça-se um raciocínio que te parece mais convincente do que os outros. Experimentas aplicá-lo a todos os casos similares, usá-lo para daí obter previsões, e descobres que adivinhaste. Mas até o fim não ficarás nunca sabendo quais predicados introduzir no teu raciocínio e quais deixar de fora. E assim faço eu agora. Alinho muitos elementos desconexos e imagino as hipóteses. Mas preciso imaginar muitas delas, e numerosas delas tão absurdas que me envergonharia de contá-las."
Umberto Eco. O nome da Rosa
"O pensamento mágico não é uma estreia, um começo, um esboço, a parte de um todo ainda não realizado; ele forma um sistema bem articulado; independente, nesse ponto, desse outro sistema que constitui a ciência (…). Portanto, em lugar de opor magia e ciência, seria melhor colocá-las em paralelo, como dois modos de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (…), mas não devido à espécie de operações mentais que ambas supõem e que diferem menos na natureza que na função dos tipos aos quais são aplicados."
Pensamento Selvagem. Lévi-Strauss.
"Diante de alguns factos inexplicáveis deves tentar imaginar muitas leis gerais, em que não vês ainda a conexão com os factos de que te estás ocupando e de repente na conexão imprevista de um resultado, um caso e uma lei, esboça-se um raciocínio que te parece mais convincente do que os outros. Experimentas aplicá-lo a todos os casos similares, usá-lo para daí obter previsões, e descobres que adivinhaste. Mas até o fim não ficarás nunca sabendo quais predicados introduzir no teu raciocínio e quais deixar de fora. E assim faço eu agora. Alinho muitos elementos desconexos e imagino as hipóteses. Mas preciso imaginar muitas delas, e numerosas delas tão absurdas que me envergonharia de contá-las."
Umberto Eco. O nome da Rosa
Thursday, November 05, 2009
Saturday, October 31, 2009
Monday, June 15, 2009
Não pesa mais a sombra de um bloco granito do que a dos panos esticados que o cobrem.
E é assim que a poesia é luz, pesando. Será?
"Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca"
Mário Cesariny. Pena Capital
E é assim que a poesia é luz, pesando. Será?
"Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca"
Mário Cesariny. Pena Capital
Wednesday, April 22, 2009
Hoje é dia da Terra!
Emparedemos todas as palavras dadas
prendamo-las entre quatro ventos cardeais
ocultas em florestas de luzes boreais
nevoeiros
nebulosas ionizadas
Sepultemo-las
em terras fertilizadas
dentro de bolbos, grãos, sementes gotas cristais
entranhadas em lençol d’águas primordiais
tintas de terra verde
de ocre douradas
Onde nadam os cristais
discos sóis raias no fundo
as palavras decompostas saturem em cores o mundo
Emparedemos todas as palavras dadas
prendamo-las entre quatro ventos cardeais
ocultas em florestas de luzes boreais
nevoeiros
nebulosas ionizadas
Sepultemo-las
em terras fertilizadas
dentro de bolbos, grãos, sementes gotas cristais
entranhadas em lençol d’águas primordiais
tintas de terra verde
de ocre douradas
Onde nadam os cristais
discos sóis raias no fundo
as palavras decompostas saturem em cores o mundo
Friday, April 17, 2009
Friday, March 06, 2009
Darwin, a poesia e simetria
A vinte e sete do mês passado assinalou-se o dia de aniversário de Ruy Belo, que diz amar as árvores - "eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros"
Simetria vertical - inversão
"Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam (...) "
Ruy Belo
Simetria horizontal - retrógrado
" (...) os cadáveres das aves, flutuando no mar, nem sempre são devorados imediatamente; ora, um grande número de sementes pode conservar-se por muito tempo no papo das aves que flutuam. Assim, as ervilhas e ervilhacas morrem após alguns dias de imersão em água salgada, mas, para grande surpresa minha, algumas destas sementes, tiradas do papo de um pombo que tinha flutuado em água salgada durante trinta dias, germinaram quase todas"
Charles Darwin
Nem será preciso referir que a vinte e quatro do futuro mês de Novembro, se assinalarão cento e cinquenta anos passados sobre a primeira publicação do livro "a origem das espécies" (de onde tirei este excerto) de Charles Darwin; não se fala de outra coisa.
A vinte e sete do mês passado assinalou-se o dia de aniversário de Ruy Belo, que diz amar as árvores - "eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros"
Simetria vertical - inversão
"Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam (...) "
Ruy Belo
Simetria horizontal - retrógrado
" (...) os cadáveres das aves, flutuando no mar, nem sempre são devorados imediatamente; ora, um grande número de sementes pode conservar-se por muito tempo no papo das aves que flutuam. Assim, as ervilhas e ervilhacas morrem após alguns dias de imersão em água salgada, mas, para grande surpresa minha, algumas destas sementes, tiradas do papo de um pombo que tinha flutuado em água salgada durante trinta dias, germinaram quase todas"
Charles Darwin
Nem será preciso referir que a vinte e quatro do futuro mês de Novembro, se assinalarão cento e cinquenta anos passados sobre a primeira publicação do livro "a origem das espécies" (de onde tirei este excerto) de Charles Darwin; não se fala de outra coisa.
Saturday, February 07, 2009
Wednesday, February 04, 2009
Friday, January 23, 2009
Evolução, um efeito num processo que avança para outro efeito.
Quem furou o osso de urso da flauta do homem de neandertal? O urso não foi. O osso evoluiu sem custo. O homem causou um efeito na evolução, gratuito, artificial.
Passaram as estruturas dos fémures de urso a desenvolver-se com quatro orifícios? Claro que não, os ursos nem tocam flauta. Passaram todos os homens a caçar ursos para furar o osso em alturas de som? Não me parece.
O homem interfere individualmente e artificialmente na evolução. Aprende só.
As considerações que aqui faço são superficiais. Faltam imensos bancos de dados, imensas cadeias de tempo discreto. Considerações muito mais superficiais do que as que levaram o homo a furar o osso.
Quem furou o osso de urso da flauta do homem de neandertal? O urso não foi. O osso evoluiu sem custo. O homem causou um efeito na evolução, gratuito, artificial.
Passaram as estruturas dos fémures de urso a desenvolver-se com quatro orifícios? Claro que não, os ursos nem tocam flauta. Passaram todos os homens a caçar ursos para furar o osso em alturas de som? Não me parece.
O homem interfere individualmente e artificialmente na evolução. Aprende só.
As considerações que aqui faço são superficiais. Faltam imensos bancos de dados, imensas cadeias de tempo discreto. Considerações muito mais superficiais do que as que levaram o homo a furar o osso.
Monday, January 19, 2009
Edgar e Eugénio 19 de Janeiro
Edgar Allan Poe. Um Homem na Lua
“ O que mais me assombrou no aspecto das coisas situadas por baixo de mim foi a aparente concavidade da superfície do globo. Eu esperava estupidamente que a sua convexidade real se manifestaria cada vez mais à medida que a altura aumentasse. No entanto, alguns segundos de reflexão bastaram-me para compreender este contra-senso.
Uma linha traçada perpendicularmente do ponto em que eu me encontrava até à Terra formaria a perpendicular de um triângulo rectângulo cuja base se estendia em ângulo recto até ao horizonte, e a hipotenusa, do horizonte até ao ponto ocupado pelo meu balão. Mas a altura em que eu estava nada significava comparativamente à extensão abarcada pela minha vista. Noutros termos: a base e a hipotenusa do suposto triângulo eram tão longas em relação à perpendicular que podiam considerar-se como duas linhas quase paralelas.
(…)
Daqui a impressão de concavidade; e esta impressão teria de durar até que a altura se encontrasse, relativamente à extensão da perspectiva, numa proporção igual, isto é, até que o aparente paralelismo da base e da hipotenusa desaparecessem.
Entretanto, como as pombas pareciam sofrer horrivelmente, resolvi pô-las em liberdade”
Eugénio de Andrade. Limiar dos Pássaros
“Desta cal de homem rompe a lua
de sol extenuada
ergue-se de gume em gume e cai
no espelho a prumo das espadas”
Rente à Fala
"Ver chegar o dia mesmo que fosse a noite
era bom tão cedo ver a terra limpa
os pombos bravos o peito cor de vinho
o cheiro doce dos figos o brilho duro
da cal trazido pelo vento o marinheiro”
“ O que mais me assombrou no aspecto das coisas situadas por baixo de mim foi a aparente concavidade da superfície do globo. Eu esperava estupidamente que a sua convexidade real se manifestaria cada vez mais à medida que a altura aumentasse. No entanto, alguns segundos de reflexão bastaram-me para compreender este contra-senso.
Uma linha traçada perpendicularmente do ponto em que eu me encontrava até à Terra formaria a perpendicular de um triângulo rectângulo cuja base se estendia em ângulo recto até ao horizonte, e a hipotenusa, do horizonte até ao ponto ocupado pelo meu balão. Mas a altura em que eu estava nada significava comparativamente à extensão abarcada pela minha vista. Noutros termos: a base e a hipotenusa do suposto triângulo eram tão longas em relação à perpendicular que podiam considerar-se como duas linhas quase paralelas.
(…)
Daqui a impressão de concavidade; e esta impressão teria de durar até que a altura se encontrasse, relativamente à extensão da perspectiva, numa proporção igual, isto é, até que o aparente paralelismo da base e da hipotenusa desaparecessem.
Entretanto, como as pombas pareciam sofrer horrivelmente, resolvi pô-las em liberdade”
Eugénio de Andrade. Limiar dos Pássaros
“Desta cal de homem rompe a lua
de sol extenuada
ergue-se de gume em gume e cai
no espelho a prumo das espadas”
Rente à Fala
"Ver chegar o dia mesmo que fosse a noite
era bom tão cedo ver a terra limpa
os pombos bravos o peito cor de vinho
o cheiro doce dos figos o brilho duro
da cal trazido pelo vento o marinheiro”
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