Tuesday, January 29, 2019

Não é que tenho tido toda a santa noite um alarme de um carro a seis metros por segundo a bicar-me os tímpanos?
 :(  impossível adormecer

Friday, January 04, 2019



Últimas vontades de um megalómano inverno: quando morrer certifiquem-se que vou para um sítio onde as estrelas me contem 

Thursday, December 27, 2018

Ui...tinha me esquecido que aqui escrito é dito e feito. Dei cabo do joelho no Natal e não houve vasto medial, longo ou oblíquo, que me protegesse

Saturday, December 22, 2018

Porque é que nos movimentamos? 
Para comer ou para nos multiplicarmos? Não precisávamos de ir por cima do mar ou das nuvens. Levamos o músculo A ao ponto B, de onde estamos a Belém, e sai ele do lugar onde é chamado? Imaginemos o músculo vasto medial, não sai da coxa...



Saturday, December 15, 2018


Provavelmente não nos ensinaram a falar para nos entendermos, tenho um dedo que me diz que a fala é uma rede neural de mentiras para pescar o consenso, a impressão de conjuntos, a sensação de união e de uma realidade comum porque, claro, há uma realidade coisa-em-si em cada um de nós

Ó blogue ... cresceram-te as letras, eheh, deve ser porque vais percebendo que passados estes anos já te vejo mal ao perto 



Thursday, December 13, 2018

Querido diário 
Almoço na travessia do forno atrás do D. Maria ; uma viela cheia de restaurantes onde quem quer comer bem, come com quem lhe aparece à frente, não há mesas para um
A gente chega e ouve lá do fundo : eu já te arranjo uma mesinha    

Hoje, por companhia, calhou me  uma senhora guineense que me foi enchendo o copo de vinho partilhando a sua garrafa, sem pergunta alguma, sem boa tarde sequer. Há melhor prenda de Natal ? 

Tuesday, December 11, 2018

Saturday, July 29, 2017

Sunday, March 12, 2017

BoOoa tarde Blogue

Tenho a chave ainda, vou entrar, sim? Isto é tão sossegadinho e luminoso

Querido blogue, fiz 50 anos e continuo a "perder-me muitas vezes pelo mar com o ouvido cheio de flores recém cortadas" Vou mudar-te o nome, ok?

Saturday, December 14, 2013

Natal à espreita. Dobrem-se os sinos


Saturday, November 23, 2013

Tuesday, September 24, 2013

"Umbela, eis a palavra do outono
no seu verde repouso
sobre a superfície lisa e pura." 

António Ramos Rosa

Sunday, September 22, 2013

Thursday, June 20, 2013

Parece que aquela história do bichinho da madeira é verdadeira. Não é que tive saudades da flanela preta? Das varas e projectores? Do pólen do feixe luz?

PROMO SPOT: LISBOA METROPOLITAN ARTS > 3COREÓGRAFOS > 21_22 JUN > CASINO ESTORIL from Lisboa Metropolitan Arts on Vimeo.

Sunday, May 26, 2013

Friday, May 03, 2013




«Os poetas dão-se conta dessa barreira de perigo antes dos seus contemporâneos, e quanto mais cedo o fazem, mais próximo estão da genialidade. E assim, como é comum acontecer, permanecem incompreensíveis enquanto o conflito hegeliano amadurece no seio da história. Quando finalmente sobrevém o conflito, seus contemporâneos, conturbados e comovidos, erguem um monumento ao homem que deu expressão, quando ela ainda era nova, vital e cheia de esperanças, a essa força que provocou o conflito, e que agora se tornou o símbolo claro e inequívoco de um triunfante avanço.»

 Andrey Tarkovsky. Esculpir o tempo
 http://pt.scribd.com/doc/7168649/Andrei-Tarkovski-Esculpir-o-Tempo

Monday, April 29, 2013

músicadançamúsicadançadança músicadançamúsica :)



Thursday, April 25, 2013


Existe ostensivamente cor, existe ostensivamente doçura, ostensivamente amargor, e na verdade apenas átomos no vácuo”,
ao que os sentidos respondem:
pobre intelecto, esperas derrotar-nos ao mesmo tempo que tomas de nós tua evidência? Tua vitória é tua derrota."  

Demócrito ( 460 - 370 aC)

Rua, todos à rua!Que a poesia escrita nestes dias só acrescenta sós à solidão



Wednesday, April 24, 2013

Tuesday, April 23, 2013

Mas o dia, hoje, é dos livros :)






Não conheço outro corpo senão o nosso, celeste. Como o posso então antepor a tudo?
É que a água é azul, levemente. Suspensa ou cobrindo a terra até ao mar
Devo elegê-lo pelo céu? Enriquecido de azuis entre a aurora e o crepúsculo, esfera de ar que nos sustém que nos retém, o calor
Pela massa telúrica? Densa e rochosa, condutora em movimento
São as razões ou as escalas?
Ou o contínuo ânimo da vida?
Odorante e audível. Expressa
Multiforme, multicolor
Multíplice
Terra

Wednesday, April 17, 2013


Ainda a propósito do dia mundial da voz, lembro aqui a de Artaud 






"Abandonando as utilizações ocidentais da palavra, ela [a linguagem de teatro] faz sortilégios com as
palavras. Ela empurra a voz. Utiliza vibrações e qualidades da voz. Marca ritmos alucinados. Martela sons.
Procura exaltar, entorpecer, encantar, estancar a sensibilidade."
(Antonin Artaud - «Le Théâtre de la Cruauté, premier manifeste»)

Tuesday, April 16, 2013

Monday, April 15, 2013

Está na cartilha :

"We shall never, probably, disentangle the inextricable web of affinities between the members of any one class; but when we have a distinct object in view, and do not look to some unknown plan of creation, we may hope to make sure but slow progress."

Wednesday, April 10, 2013


Podemos lá nós, humanos, fazer valer os nossos direitos sem os despóticos. Se não tolerámos a tirania em exercício directo, havemos de ter que tolerar o poderio financeiro - porque o ser humano, sem dono, é da pior espécie...
Por exemplo: se eu amanhã já só tiver uma pedra para pôr na sopa, é expectável que assalte o vizinho mais próximo com gritos de destruição massiva e cânticos de guerra.

[Adenda]

É expectável... para quem lê a espécie como éramos há quase três milhões de anos (na idade da bruta pedra). Parodiei desconstruindo o medo. A pedra seria de toque, dois traços de carácter - egoísmo e solidariedade
Gritos e cânticos não são armas de destruição - essas estão nas mãos dos donos;  nunca, nunca vou acreditar que precisamos de donos. 

Monday, April 08, 2013


Poema de agradecimento à corja

Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar

de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.

Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.

Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.

Obrigada por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.

E pelo vosso vergonhoso descaramento.

Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.

E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

Saturday, April 06, 2013


Alívio momentâneo....
“São as leis que se têm de conformar à Constituição e não a Constituição a qualquer lei”
Joaquim Sousa Ribeiro. 

Mas eis que chega o plano B...

"O deputado do PSD e antigo juiz do Tribunal Constitucional diz que o Governo não tem outra alternativa senão fazer um corte generalizado de parte do subsídio de férias ao sector público, pensionistas e privados, para poder cobrir o buraco que resulta da decisão do Tribunal Constitucional"  (repare-se como um juiz imputa a responsabilidade do buraco ao Tribunal Constitucional)
Paulo Mota Pinto em declarações à Renascença.
http://www-org.rr.pt/informacao_prog_detalhe.aspx?fid=79&did=102944

" ... não é comigo"

http://www.sabado.pt//Multimedia/Videos/Vox-Pop/VoxPop--A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx?id=411304



Provavelmente o leão :)

Foi a minha filha que hoje me chamou a atenção para este vídeo (no link acima) Não serve para ilustrar quem ignora o que o rodeia ou o que o trouxe até hoje. Não serve para documentar o alheamento da população em relação à comunidade, à sociedade, ao mundo, ao modelo, à política. Não é certamente típico e exclusivo desta faixa etária. A amostra não é representativa e é, como todos os recortes de imagem, manipulada.

O que me saltou à vista (para além de umas boas gargalhadas, e sei que erraria a pergunta: qual a capital dos EUA? Troco sempre:) foi o - "isso não é comigo" -, a desresponsabilização: "Artes não é comigo" "Política não é comigo" "Cinema não é comigo" "Informática não é comigo" "Tudo o que tem a ver com religião não é comigo" "Cultura geral não é comigo". A resposta "passo"


Friday, April 05, 2013

Thursday, April 04, 2013


Caem tantas enormidades de todo o lado que é difícil acompanhar a derrocada do edifício democrático. Passamos à antiutopia enquanto o diabo esfrega os olhos, incrédulo.

“A Hungria já não é uma Democracia”
“ (…) O ataque foi claro e continuado: restrição da liberdade de imprensa, direcção política do Banco Central, a inclusão na Constituição de referências religiosas cristãs e da "utilidade social" dos indivíduos como condição necessária para a aplicação de direitos sociais, a exclusão da palavra "República" da mesma Constituição para definir o sistema político do país, a condenação da homossexualidade, a criminalização dos sem-abrigo, os ataques contra os direitos das mulheres, a impunidade concedida aos autores de crimes racistas, o fortalecimento de um anti-semitismo virulento...”

artigo completo aqui: http://goo.gl/VT2jg

Aqui: as emendas (ler para crer)

http://www.kormany.hu/en/doc?source=9&year=2013#!DocumentBrowse 

http://www.kormany.hu/download/3/90/d0000/20130312%20Fourth%20Amendment%20to%20the%20Fundamental%20Law.pdf#!DocumentBrowse 


Outras opiniões: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/apr/03/hungary-ignorant-nonsense 

Reacções: http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=44545&Cr=Hungary&Cr1#.UVymV6KsiSo

E pergunto-me: O que querem os cidadãos?

Sunday, March 31, 2013

Ressurreição
«Volto a cantar, e voltam-me à memória
As rústicas imagens,
Que guardei na retina
De menino:
O repique do sino
Depois das negras horas da Paixão,
E a brejeira
Canção
Que num toco
Já oco
De cerdeira
- Flauta que um pica-pau lhe dera -
A seiva assobiava à Primavera...»

Miguel Torga, Diário, Vol. VIII


Páscoa feliz! E uma canção ribeira (que tanto gosto) - aqui em carcavelos chove que deus dá :)








Wednesday, March 27, 2013


"Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho"
Atribui-se esta frase a Schopenhauer (não sei se a fonte é segura, todas estas frases soltas e citadas que encontro são, muitas vezes, água de um longo percurso)

Estive a trabalhar em produção teatral nestes últimos três anos.
A memória que trouxe da palavra “Teatro” é - imagine-se - a canção de lisboa, de Jorge Palma. Ou pelo menos foi o que me ocorreu agora que pensei nisso.




Talvez o refrão...
Mamã, mamã
Onde estás tu, mamã?
Nós sem ti não sabemos, mamã,
Libertar-nos do mal 

Talvez esta estrofe:
A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nós também temos mão na vida
Mesmo que seja à custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de lisboa 

Ou mesmo os dois primeiros versos:
Os serões habituais
E as conversas sempre iguais 

Neste momento o Teatro parece-me muito mais próximo do conceito do que da ideia*. Provavelmente estou errada, felizmente. Que um dos motivos pelo qual estou muitas vezes calada é o de não acreditar que a minha experiência seja mais acertada ou definitiva que qualquer outra. Sinceramente

*“A Ideia é a unidade que se transforma em pluralidade por meio do espaço e do tempo, formas da nossa percepção intuitiva; o conceito, pelo contrário, é a unidade extraída da pluralidade, por meio da abstracção que é um procedimento do nosso entendimento; o conceito pode ser chamado unitas post rem, a Ideia, unitas ante rem. Indiquemos, finalmente, uma comparação que exprime bem a diferença entre conceito e Ideia: o conceito assemelha-se a um recipiente inanimado; aquilo que lá se deposita permanece bem colocado na mesma ordem, mas não se pode tirar de lá (através dos juízos analíticos) nada mais do que aquilo que lá se colocou (através da reflexão sintética); a Ideia, pelo contrário, revela àquele que a concebeu representações completamente novas do ponto de vista do conceito de mesmo nome: ela é como um organismo vivo, que cresce e é prolífico, capaz, numa palavra, de produzir aquilo que não se introduziu lá.”

O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer (tradução portuguesa de M. F. Sá Correia)

Sunday, March 24, 2013

"Uma espécie de música"


[Esta terra de sol esta terra ainda/ é bem ela esta terra inocente/ este corpo há que deixá-lo ser água/ não é fácil separá-lo da luz/ quase nua esta terra ainda minha]

"(...) no primeiro verso sobe-se da nota grave, digamos de terra ao agudo de sol, para se voltar ao grave inicial; no segundo verso insiste-se no mesmo grave para subir ao agudo inocente (talvez menos agudo, e talvez em surdina, se comparado com sol), no terceiro verso passa-se a corpo, menos grave que terra, e ascende-se a um mais agudo água, nitidamente menos agudo no entanto do que sol (e inocente); o quarto verso efectua nova elevação, a luz que não me arrisco a graduar relativamente a sol (o vocalismo sugere um agudo menor); a nota final, no quinto verso, é o grave recorrente do trecho, que nua modula em sentido ainda mais grave (digamos que como um bemol), e a que depois o possessivo minha, pelo contrário, modula ligeiramente no sentido do agudo (digamos que como um sustenido). Esta proposta de leitura melódica do imaginário em poesia talvez possa sugerir uma pesquisa, de tipo electroencefalográfico por exemplo, assim como a melodia fonética, muito complexamente harmonizada, se pode seguir num espectograma."

Uma espécie de música. Dois movimentos de metáfora em Eugénio de Andrade
Óscar Lopes

Tuesday, March 19, 2013


“Meu pai tinha sandálias de vento
 só agora o sei.
 (...)
 e no entanto víamo-lo sempre
 ali plantado de imobilidade absorta
 (...)
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a
                                                    [víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar (...)

Fernando Namora,  'Nome Para Uma Casa'









Meu pai não tinha sandálias de vento
Visitava-o toda a Terra enquanto ele ria para os céus
Recebia tudo o que acontecera num enorme lugar que tinha dentro do peito; do tudo, não muito, saía algum antes de escurecer, outro mais, acabava por pernoitar e a grande parte, prolongava a estadia.
Tinha tanto lá dentro, onde todos podiam chegar
     

   

Wednesday, March 13, 2013


                                                                     

                                                                          "Exageros"

Procura-se pessoa idónea com disponibilidade total, que possa coser as bainhas do mar, impedindo as ondas de rebentar na costa.
 - É essencial ter experiência em bordado livre (os fios não são contáveis)
 - Pede-se conhecimentos em ponto nó, fios estendidos, de contorno, laçada e cobertura em teia de aranha (para prender as bainhas abertas)
 - Obriga-se o uso de bastidor para manter o trabalho esticado e liso
Contrato sem termo; mal remunerado


É quase isto que leio no site da net-empregos.
Que sistema é este em que, cada vez mais, se pede força de trabalho infinita a troco de impossibilidade de subsistência?



Saturday, March 09, 2013

Isto de escrever qualquer coisa aqui pode servir para deitar a raiva que se dilata em cada poro; sei que a memória é curta, mas curta como um rastilho

Thursday, March 07, 2013

Tuesday, September 18, 2012

Saturday, September 15, 2012




«E farei um rápido quadro da nossa visão do futuro... 
Anuncia o que vês...
«Vejo: a extensão monstruosa das potências do dinheiro; todas as mais legítimas reivindicações esmagadas e mantidas sob a sua tirania...
«Vejo a comoção da massa laboriosa, cujo crescente tumultuo não é senão mal dissimulado por esta parada ruidosa dos partidos políticos, que, até aqui, conseguiu só captar a atenção...
«Vejo o avanço regular duma maioria humana, brutal, inculta, embriagada de ilusões, esfomeada de segurança e de felicidade material, contra uma minoria cega, poderosa ainda pela força das coisas estabelecidas, mas cuja relativa estabilidade não repousa, de facto, senão sobre o regime capitalista.

O drama de João Barois. Roger Martin du Gard

Sunday, September 02, 2012

Morreu Emmanuel Nunes?
Gostaria tanto de o ter conhecido. Uma coisa sei, vi nos olhos de quem morre, há qualquer coisa de muito familiar nesse encontro com o fim - um relâmpago de reconhecimento e surpresa.



Bom dia domingo :)

Thursday, August 23, 2012


 "Voltemos à música. Os sons não têm uma significação que possa ordená-los; o seu agrupamento é uma operação espontânea da própria sensibilidade do músico. A sua notação abstracta sobre as folhas da partitura não nos transmite a significação dos sons, mas simplesmente a sua ordenação, matematicamente fixada na sua duração e na sua intensidade (...)
Assim, o músico cria um tempo fictício, contido, sem dúvida, no tempo normal, mas esteticamente independente dele; e tem o poder quase miraculoso de fixar definitivamente essa criação, esse tempo fictício. De maneira que, durante a duração da sua música, o músico obriga-nos a medir e a sentir o tempo segundo a duração dos seus próprios sentimentos: coloca-nos num tempo verdadeiro, porque é duração, e no entanto fictício. A realidade estética da música é, por isso, superior à de todas as artes; ela só é uma criação imediata da nossa alma.
Objectar-me-ão que a sua execução constitui um elemento intermediário entre ela e nós. - Não. A execução correcta de uma partitura é para a música o que é para um fresco, por exemplo, o lugar e a iluminação adequados. A música representa o tempo sem outro intermediário que não seja ela própria; é isso a sua existência formal, em especial para a arte dramática"


«Quando a música atinge o seu mais nobre poder, torna-se forma no espaço»
Friedrich Schiller

(...)

"E se, como para as outras obras de arte, a obra dramática é o resultado da modificação das relações (ver atrás a citação de Taine*) o que é incontestável, resta-nos encontrar em nós próprios o elemento modificador. Em nós próprios porque, fora disso, apresentar-se-ia preparado para fins estranhos à vida do nosso corpo. Vimos, precisamente, que é a nossa vida afectiva, interior, que dá aos nossos movimentos a sua duração e o seu carácter; sabemos também, que a música exprime essa vida de uma maneira, para nós, indubitável e que modifica profundamente essas durações e esse carácter. Possuímos nela um elemento profundamente emanado de nós próprios e de que aceitámos já e por definição a disciplina.Será, portanto, da música que nascerá a obra de arte viva "

* A obra de arte tem por objectivo manifestar qualquer carácter essencial e saliente, portanto qualquer ideia importante, mais claramente e mais completamente do que o fazem os objectos reais. Consegue-o empregando um conjunto de partes ligadas cujas relações ela modifica sistemáticamente

Adolphe Appia
A obra de arte viva

Tuesday, August 14, 2012

Sergiu Celibidache (28 June 1912 – 14 August 1996)


Não seria fácil para mim eleger uma obra, uma época. Não saberia preferir um compositor, um instrumento, uma escala ou um som. Mas admiro, acima de muitos, este maestro. A forma como estende o volume e multiplica o relevo. Como põe a descoberto inteiras cordilheiras submersas. Como lhes confere distâncias sem intervalo





Tuesday, August 07, 2012


Desço a Rua Augusta à hora em que o homem estátua dourado conta as moedas que juntou; hoje contava cento e quarenta e uma, quando passei

Que bom é desembocar depois das ruas, no arco. O espaço, que falta faz a Lisboa. Ou a sensação virá do som da hora? Em que o homem dourado, já lá atrás, conta as moedas

Sunday, August 05, 2012

Sunday, July 29, 2012


Já percebi que é preciso ter cuidado com o que se escreve porque, bastas vezes, se transforma em realidade. Que importa porquê?
Passei a telefonista, cultural, ou a um híbrido dessa espécie. Mais telefonista que cultural, que "esse fenómeno a que chamamos público" tem mais problemas práticos que pretensões a entendimentos arteológicos.

A minha bisavó era mestre-escola e para além, lia sortes nas cartas e lançava bênção às redes antes de entrarem no mar. Era bruxa. Se alguém era roubado ela era, não sei se a única, mas a primeira a saber quem cometera tamanha desfaçatez. Sabia até adivinhar onde escondiam o dinheiro roubado. Muitos a visitavam à procura de auxílio. Mas é claro, isso não era assunto que a minha avó, a filha, quisesse deixar transparecer. Nunca nós, bisnetos, em tal falávamos. E nunca o meu avô a pôde tolerar.

Quando a conheci vivia no quartinho da açoteia e nunca saía de lá. Ao lado da cama tinha o quadro e o giz. Na mão um ponteiro comprido para bater nas letras. Um enorme cabelo branco até ao fundo das costas e uns olhos muito muito azuis, com um brilho fundo e feroz. Foi ela que me apontou as letras e aí de mim que não as soubesse. Será que é por isso? Que tenho de ter cuidado com o que escrevo? :))

Wednesday, June 06, 2012








“Several times I went to the classes having not done my homework. At last, Myaskovsky strictly asked what was wrong with me. I said I had troubles and worries. The composer smiled:
– So, take chance of it. Write music. Don’t just be silent. It’s worst of all. You should always and everywhere think about music…”

Aram Khachaturian

Thursday, March 08, 2012

Estou cheia de febre e as patas do Abu são semicolcheias glissando o soalho. Corre a toda hora; párabu



-Vielimir Khlébnikov
" O GRILO

Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos da ribeira.
-- Pin, pin, pin! -- taramela o zinziber.

Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!"


Thursday, February 16, 2012

"Sou um instrumentista popular. Tudo o que tenho da música erudita é apenas aquilo que me é exigido por uma cultura geral tão bem fundamentada quanto possível. (...) Se alguma coisa está por dentro da música, da poesia, da ciência, enfim, é a realidade. Se sinto a música de um lado e a realidade do outro, não tenho dúvidas: estou a viver uma ilusão, uma falsa música ou uma falsa realidade."

Saturday, December 31, 2011

Os retrocessos são sempre tão rápidos e os avanços aparentemente sólidos, tão lentos. Outro ano; acho que nunca fiz um desenho mental de desejos com data de início. Mas para este ano quero fazê-lo:que nos mantenhamos cientes que direitos fundamentais como a educação, a saúde ou o trabalho, estão em risco, estão riscados, rasurados. Desejo que lutemos para que a falta de meios financeiros não permita que se apaguem as cláusulas dos direitos de todos nós. Protejamo-nos, inventemos, tornemo-nos criativos encontrando soluções que não permitam emendas. Bom Ano

Thursday, December 15, 2011

Já eu... Ando cansada de trabalho: dez horas diárias, quinze ou dezasseis se necessário; seis dias por semana. Por conta de outrem. É como agir entre vírgulas dobradas.

Contaram-me hoje, conversa de ocasião, que num call center, um empregado que normalmente superava os objectivos a que se propunha, desceu a produtividade abruptamente passando a estar abaixo linha. Ora, e o que lhe aconteceu? Foi obrigado a usar um colete que dizia atrás "eu não consigo".
Confesso, fico sem saber o que dizer. Será real esta história? Há quantos anos deixámos as orelhas de burro? Desdobramo-nos em cuidados na infância para uns dias mais tarde, anos passados, recorrer a este método? Isto é permitido? Não há regulação?

Sunday, December 04, 2011


  «  Hoje não me contenho e encho-me de orgulho de trabalhar onde trabalho. Termos acreditado, termos tido o discernimento de voltar as buscas mais a Norte e ver que seis pessoas foram salvas assim, fez-nos a todos no MRCC sentir uma felicidade justa.»

             Ricardo Guerreiro

   Também não me contenho.  Parabéns à equipa! Enche-me de orgulho - o mano :)

Tuesday, November 22, 2011

Tuesday, November 15, 2011

Thursday, October 27, 2011

At a Solemn Musick



Let the musicians begin,


Let every instrument awaken and instruct us

In love’s willing river and love’s dear discipline:

We wait, silent, in consent and in the penance

Of patience, awaiting the serene exaltation

Which is the liberation and conclusion of expiation.





Now may the chief musician say:

“Lust and emulation have dwelt amoung us

Like barbarous kings: have conquered us:

Have inhabited our hearts: devoured and ravished

—With the savage greed and avarice of fire—

The substance of pity and compassion.”





Now may all the players play:

“The river of the morning, the morning of the river

Flow out of the splendor of the tenderness of surrender.”

Now may the chief musician say:

“Nothing is more important than summer.”





And now the entire choir shall chant:

“How often the astonished heart,

Beholding the laurel,

Remembers the dead,

And the enchanted absolute,

Snow’s kingdom, sleep’s dominion.”





Then shall the chief musician declare:

“The phoenix is the meaning of the fruit,

Until the dream is knowledge and knowledge is a dream.”





And then, once again, the entire choir shall cry, in passionate unity,

Singing and celebrating love and love’s victory,

Ascending and descending the heights of assent, climbing and chanting triumphantly:

Before the morning was, you were:

Before the snow shone,

And the light sang, and the stone,

Abiding, rode the fullness or endured the emptiness,

You were: you were alone.




Delmore Schwartz
















Friday, August 26, 2011


A chocar novo espectáculo

Wednesday, August 24, 2011





"Yo he procurado rescatar del olvido un horror subalterno: la vasta Biblioteca contradictoria, cuyos desiertos verticales de libros corren el encesante albur de cambiarse en otros y que todo lo afirman, lo niegan y lo confunden como una divinidad que delira"
Jorge L. Borges

Wednesday, July 20, 2011

Tuesday, May 31, 2011

Um projecto de amigos; divulgo-o

Saturday, May 14, 2011

Arte poética

Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

Manuel António Pina
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Friday, May 06, 2011

(Luis Pignatelli In "Obra Poética")

Sunday, May 01, 2011

1º de Maio 1974

O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.

Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.

É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido

Wednesday, April 20, 2011

"Em cascabulhos incrustados nas bermas
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"

(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
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Sunday, October 03, 2010

"O facto de todas as nossas experiências sensoriais poderem ser organizadas por meio de um processo mental (operações com conceitos, criação e uso das relações funcionais precisas, e coordenação entre as experiências sensoriais e os conceitos) é em si mesmo o que nos infunde respeito, mas que nunca seremos capazes de compreender por completo."

Física e Realidade
Albert Einstein

Friday, October 01, 2010

:) Dia Mundial da Música (:
Do que existe, gosto muito e mais de música

Saturday, September 25, 2010

Sábado é o dia em que tenho folga











O teatro não é nada do que imaginei - é escuro; um guarda-espera dos desenhos da luz

Monday, March 01, 2010

"Se este fosse o momento de aprofundar algum assunto, eu sustentaria, talvez contra a vossa unânime opinião, que a melodia não é o que mais defende Chopin da acção do tempo.
Eu pensava que era a melodia. Mas não - agora não penso assim. Creio que a música de Chopin sobrevive incólume apesar das belíssimas melodias. Sobrevive pela sua formosura, que é palavra vinda de forma e aqui quero que signifique perfeitíssima harmonia formal (...)

A análise técnica minuciosa de uma página de Chopin pode em geral fazer-se com a décima parte das palavras necessárias para uma de Bach, ou de Mozart, ou de Beethoven.
Mas se, em vez de Bach, Mozart ou Beethoven, o termo de comparação fosse Schubert? A conclusão seria outra, não lhe parece?
- Evidentemente. Por isso tenho tido o cuidado de evitar alusões ao Schubert
Em todo o caso, não nos iludamos com a simplicidade de Schubert ou de Chopin. A simplicidade de um artista é sempre complicadíssima (...)

- Sim. Mas já pensou no que será o futuro de Chopin, se a música evoluir no sentido do cerebralismo total? Os duzentos anos do nascimento, os trezentos, os quinhentos, serão comemorados com tamanhos ecos em todo o Mundo? Continuará toda a gente a sentir as suas melodias, a intuir a sua maravilhosa perfeição na forma, como até hoje?"

João de Freitas Branco. Chopin - Um Improviso em Forma de Diálogo

Saturday, February 27, 2010

Sunday, February 07, 2010

Trouxe da biblioteca todos os poemas de Ruy Belo, numa edição da Assírio & Alvim estampada em 2001. São muitos, talvez três centenas, não os contei. (grande parte deles não conhecia, tudo o que tenho lido tem sido através da internet)


MEDITAÇÃO MONTANA

Há aviões às vezes que levantam
aviões que levantam
aviões certas vezes
às vezes uma ave um avião
um avião levanta voo da imaginação
um avião a mais a mesma imaginável imaginação
um aeroporto uma criança a mais sozinha solidão
um quintal o aeroporto mais real
ideias aviões que voam
aviões mais aves do que as aves
aves imitações dos aviões
um ser metálico a mais funda das humanas ambições
a mais humana a maior criação
motor metálico essa crente essa crível criação
crise do homem sua menos frágil mais fremente afirmação
metal mecânico mais quente coração
Há vários aviões que vários vão
que várias vezes vão
Há aviões às vezes que levantam voo
inconcebíveis aviões emersos da imaginação
inconcebíveis e por isso concebíveis
concebíveis na estrita medida em que inconcebíveis
aviões impossíveis mais reais do que os reais
perfeitos pássaros provindos da cessante condição
ó aviões antecessores das aves
palavras vindas de étimos das quais os étimos dimanam
movimento de mãos produtoras das próprias produções
umas mãos que ao mover-se movimentam
criaturas que incríveis criam coisas suas criadoras
aves imitação dos imitados aviões
natureza nascida onde visivelmente nasce a vida
aviões aos quais a ave deve o voo
aviões naturais e aves artificiais
o em princípio mais pelo em princípio menos produzido
o mais o menos
o menos máximo o muito mais
aviões aves vivas que vos levantais
do aeroporto da imaginação
Não fosse o coração muito metálico que muito mais sofria
quem verdadeiramente não podia sofrer mais

Emudece ó amigo deixa os aviões
deixa a imaginação o único aeroporto
regressa à vida que visível mais nos minerais
origina a verdade apenas vista nos jogos verbais
de quem é na imaginação que tem os aeroportos mais internacionais
Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais

Friday, January 08, 2010

Sunday, January 03, 2010

Este ano a serra era a do Larouco.
Nevou. Pelo caminho a estrada tornou-se uma pista, escorrega intransitável. Irreconhecível. Todas brancas: as placas, as árvores, as bermas. O contorno avolumou deixando-se indefinido. A neve caía na frente; vista do carro dir-se-ia que vinha em sentido contrário, sem chocar.
A estrada um enxame aberto, lácteo. Magia branca.



Não tirei fotografias, só mais tarde à chegada

As traseiras, na noite do ano velho



O frontispício na noite, no dia um

Thursday, December 24, 2009

A minha mãe acordou muitíssimo bem-disposta: "-A esta hora já eu andava no tejo a apanhar robalos e enguias como se apanhasse batatas; metíamo-los nas canastras e ia-mos oferecer peixe a toda a vizinhança. O avô Francisco levantava as comportas e deixava a água a três palmos para os peixes não morrerem. O que eu e os meus primos gostávamos de ali estar de manhã cedo com as redes."
(tejo é o que chamavam ao rectângulo onde cristalizava o sal)

Este assim era o presépio típico de Olhão. Dia oito de Dezembro, dia da mãe, plantavam-se as searinhas de trigo. Armava-se o presépio com o Menino no alto dos degraus de linho. Enfeitava-se com laranjas, tangerinas e com as searas que iam crescendo.



Uma noite feliz

Monday, December 21, 2009

Thursday, December 03, 2009


aurum musivum, oro musivo, aurum
musicum, oro de musico, aurum pictorium,
purpureus color, purpurina e
porporina

Wednesday, December 02, 2009

Friday, November 27, 2009

Hoje às oito e meia, o mar nas Avencas




Sunday, November 22, 2009

A 22 de Novembro de 1913 nasceu Benjamin Britten - Barão de Aldeburgh
http://www.youtube.com/watch?v=VnoWS3uFBt4&hd=1

A 22 também, de 1901, nasceu Joaquín Rodrigo - Marquês dos Jardins de Aranjuez
http://www.youtube.com/watch?v=J29k1LtHq9M

Friday, November 20, 2009

Saturday, November 14, 2009



Parabéns Catarichacatituacolibriebeija-flor!

Friday, November 13, 2009

NASA: há água na Lua!

7 de Novembro - Eclipse total da lua. Passou diante dela a terra ou coisa assim, grossa e opaca. Enquanto a via desaparecer aos poucos por detrás dessa invisível mão que a tapava, comecei a pensar cá em baixo. O que seria a vida sem ela, sem essa quimera de luz que mora lá na distância do sonho. Lá, onde desfeito e vago, em astro frio, iluminado de saudade, eu quero ir morar depois disto.

Miguel Torga. Diário I.

Wednesday, November 11, 2009



"Aprendemos o modo específico de progredir em direcção à atitude crítica , ao mais antigo, de onde brota o que vem depois. Aprendemos a levantar cedo e a conhecer o curso da história. Aprendemos o que é obrigatório no caminho do primordial para o real. Aprendemos o que digerir. Aprendemos a organizar o movimento através dos contextos lógicos. Aprendemos lógica. Aprendemos o que é o organismo. O relaxamento das relações de tensão é uma consequência de tudo isso. Nada de exagerado; tensão no interior, atrás, em baixo [tensão inferior]. Calor apenas por dentro. Interioridade.
(…)
É difícil contar com o inesperado. E, no entanto, sendo o condutor em pessoa, o génio está sempre um passo à frente. Salta adiante, seja na mesma direcção ou noutra. Talvez já esteja hoje numa região que quase ninguém imagina. Pois o génio costuma ser, para o dogma, um herege. Não possui nenhum princípio além de si mesmo.
A academia silencia acerca do conceito de génio conscientemente, com um respeito discreto. Ela o guarda como um segredo que, retirado do seu estado latente, talvez fosse questionado de modo ilógico e tolo.
O que resultaria em revolução. Perplexidade gerada pelo espanto. Indignação e exílio: Fora o criador de sínteses! Fora o totalizador! Nós [os analíticos] somos contra! E então as ofensas em profusão: Romântico! Cósmico! Místico! Sim, no final seria preciso chamar um filósofo, um mágico!"

Paul Klee. Sobre a arte moderna e outros ensaios.

Friday, November 06, 2009


“Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!”


David Mourão-Ferreira
"(…)um princípio de ordem no universo. Qualquer que seja a classificação, esta possui uma virtude própria em relação à ausência de classificação. (…) Essa exigência de ordem constitui a base do pensamento que denominamos primitivo, mas unicamente pelo facto de que constitui a base de todo o pensamento."

"O pensamento mágico não é uma estreia, um começo, um esboço, a parte de um todo ainda não realizado; ele forma um sistema bem articulado; independente, nesse ponto, desse outro sistema que constitui a ciência (…). Portanto, em lugar de opor magia e ciência, seria melhor colocá-las em paralelo, como dois modos de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (…), mas não devido à espécie de operações mentais que ambas supõem e que diferem menos na natureza que na função dos tipos aos quais são aplicados."

Pensamento Selvagem. Lévi-Strauss.







"Diante de alguns factos inexplicáveis deves tentar imaginar muitas leis gerais, em que não vês ainda a conexão com os factos de que te estás ocupando e de repente na conexão imprevista de um resultado, um caso e uma lei, esboça-se um raciocínio que te parece mais convincente do que os outros. Experimentas aplicá-lo a todos os casos similares, usá-lo para daí obter previsões, e descobres que adivinhaste. Mas até o fim não ficarás nunca sabendo quais predicados introduzir no teu raciocínio e quais deixar de fora. E assim faço eu agora. Alinho muitos elementos desconexos e imagino as hipóteses. Mas preciso imaginar muitas delas, e numerosas delas tão absurdas que me envergonharia de contá-las."

Umberto Eco. O nome da Rosa

Monday, June 15, 2009

Não pesa mais a sombra de um bloco granito do que a dos panos esticados que o cobrem.
E é assim que a poesia é luz, pesando. Será?



"Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca"



Mário Cesariny. Pena Capital

Wednesday, April 22, 2009

Hoje é dia da Terra!

Emparedemos todas as palavras dadas
prendamo-las entre quatro ventos cardeais
ocultas em florestas de luzes boreais
nevoeiros
nebulosas ionizadas
Sepultemo-las
em terras fertilizadas
dentro de bolbos, grãos, sementes gotas cristais
entranhadas em lençol d’águas primordiais
tintas de terra verde
de ocre douradas
Onde nadam os cristais
discos sóis raias no fundo
as palavras decompostas saturem em cores o mundo

Friday, April 17, 2009

Friday, March 06, 2009

Darwin, a poesia e simetria

A vinte e sete do mês passado assinalou-se o dia de aniversário de Ruy Belo, que diz amar as árvores - "eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros"

Simetria vertical - inversão

"Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam (...) "
Ruy Belo

Simetria horizontal - retrógrado

" (...) os cadáveres das aves, flutuando no mar, nem sempre são devorados imediatamente; ora, um grande número de sementes pode conservar-se por muito tempo no papo das aves que flutuam. Assim, as ervilhas e ervilhacas morrem após alguns dias de imersão em água salgada, mas, para grande surpresa minha, algumas destas sementes, tiradas do papo de um pombo que tinha flutuado em água salgada durante trinta dias, germinaram quase todas"
Charles Darwin

Nem será preciso referir que a vinte e quatro do futuro mês de Novembro, se assinalarão cento e cinquenta anos passados sobre a primeira publicação do livro "a origem das espécies" (de onde tirei este excerto) de Charles Darwin; não se fala de outra coisa.

Saturday, February 07, 2009

Wednesday, February 04, 2009

Inverno
Toda a chuva da noite
o vento a cada janela
que o dia, endurece e parte

Friday, January 23, 2009

Evolução, um efeito num processo que avança para outro efeito.

Quem furou o osso de urso da flauta do homem de neandertal? O urso não foi. O osso evoluiu sem custo. O homem causou um efeito na evolução, gratuito, artificial.
Passaram as estruturas dos fémures de urso a desenvolver-se com quatro orifícios? Claro que não, os ursos nem tocam flauta. Passaram todos os homens a caçar ursos para furar o osso em alturas de som? Não me parece.
O homem interfere individualmente e artificialmente na evolução. Aprende só.

As considerações que aqui faço são superficiais. Faltam imensos bancos de dados, imensas cadeias de tempo discreto. Considerações muito mais superficiais do que as que levaram o homo a furar o osso.