Tuesday, November 15, 2011
Thursday, October 27, 2011
Let the musicians begin,
Let every instrument awaken and instruct us
In love’s willing river and love’s dear discipline:
We wait, silent, in consent and in the penance
Of patience, awaiting the serene exaltation
Which is the liberation and conclusion of expiation.
Now may the chief musician say:
“Lust and emulation have dwelt amoung us
Like barbarous kings: have conquered us:
Have inhabited our hearts: devoured and ravished
—With the savage greed and avarice of fire—
The substance of pity and compassion.”
Now may all the players play:
“The river of the morning, the morning of the river
Flow out of the splendor of the tenderness of surrender.”
Now may the chief musician say:
“Nothing is more important than summer.”
And now the entire choir shall chant:
“How often the astonished heart,
Beholding the laurel,
Remembers the dead,
And the enchanted absolute,
Snow’s kingdom, sleep’s dominion.”
Then shall the chief musician declare:
“The phoenix is the meaning of the fruit,
Until the dream is knowledge and knowledge is a dream.”
And then, once again, the entire choir shall cry, in passionate unity,
Singing and celebrating love and love’s victory,
Ascending and descending the heights of assent, climbing and chanting triumphantly:
Before the morning was, you were:
Before the snow shone,
And the light sang, and the stone,
Abiding, rode the fullness or endured the emptiness,
You were: you were alone.
Delmore Schwartz
Friday, August 26, 2011
Wednesday, August 24, 2011
Wednesday, July 20, 2011
Tuesday, May 31, 2011
Saturday, May 14, 2011
Vai, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para
trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina
Friday, May 06, 2011
Sunday, May 01, 2011
O dia era claro.
Andámos muito; encarrapitaram-me no meio das bandeiras, tento lembrar-me aos ombros de quem, mas não chego lá; naquele tapete de vozes.
Lembro-me da Florinda, que trabalhava na casa da costura e desmaiou pelo caminho.
Sentámo-nos na relva e alguém trouxe água; o dia claro queimava. Disseram-me - é do calor. Achei que não, que era daquele enorme tecido.
É tudo o que retenho, não dei pelo escurecer, devo ter adormecido
Wednesday, April 20, 2011
do caminho azul, brancos papos de
gaivotas exibem-se aristocraticamente
como fiadas de pérolas nascidas à
borda de água (...)
Móóó!! Olhem lá para a frente!!
A uma centena de metros da bóia-da-
volta, quando uma liça luzidia saltava na
frente da popa, rodámos a cara e
emudecemos: era um clarão de fogo vivo
(...)
Emoção passada e tínhamos à proa um
mar lilás com as pardacentas nuvens que
vagueavam no céu.
Avental de amarelo oleado, remos nos
toledos, um «ilho», emboinada à vasco,
ala um tresmalho pairando em poeira
carminizada (…)
No canal, cabeços de morraça
substituíram, agora, por violáceo, o verde
envelhecido, onde, brancas bocas abertas,
as «cava-terras» ziguezagueiam
sumindo-se pela toca das lamas.
Encadeando, o sol leva-nos a olhar às duas
bateirinhas negras perdidas no
Mar Santo. Tão iguais que diríamos
gémeas.
Numa mudança ociosa, pintalgados nestas
aguarelas, carmins cintilantes
espraiam-se no céu numa convergência
para um rasto fluorescente. Mais umas
remadas e surgem elipses prateadas
enrugando-se com o sopro do vento.
Começou a cair um anoitecer a pejar-se de
estrelas (...)"
(Sem férias nem
fins-de-semana há mais de um ano)
Sunday, October 03, 2010
Física e Realidade
Albert Einstein
Saturday, September 25, 2010
Saturday, September 18, 2010
Monday, March 01, 2010
Eu pensava que era a melodia. Mas não - agora não penso assim. Creio que a música de Chopin sobrevive incólume apesar das belíssimas melodias. Sobrevive pela sua formosura, que é palavra vinda de forma e aqui quero que signifique perfeitíssima harmonia formal (...)
A análise técnica minuciosa de uma página de Chopin pode em geral fazer-se com a décima parte das palavras necessárias para uma de Bach, ou de Mozart, ou de Beethoven.
Mas se, em vez de Bach, Mozart ou Beethoven, o termo de comparação fosse Schubert? A conclusão seria outra, não lhe parece?
- Evidentemente. Por isso tenho tido o cuidado de evitar alusões ao Schubert
Em todo o caso, não nos iludamos com a simplicidade de Schubert ou de Chopin. A simplicidade de um artista é sempre complicadíssima (...)
- Sim. Mas já pensou no que será o futuro de Chopin, se a música evoluir no sentido do cerebralismo total? Os duzentos anos do nascimento, os trezentos, os quinhentos, serão comemorados com tamanhos ecos em todo o Mundo? Continuará toda a gente a sentir as suas melodias, a intuir a sua maravilhosa perfeição na forma, como até hoje?"
João de Freitas Branco. Chopin - Um Improviso em Forma de Diálogo
Saturday, February 27, 2010
Sunday, February 07, 2010
MEDITAÇÃO MONTANA
Há aviões às vezes que levantam
aviões que levantam
aviões certas vezes
às vezes uma ave um avião
um avião levanta voo da imaginação
um avião a mais a mesma imaginável imaginação
um aeroporto uma criança a mais sozinha solidão
um quintal o aeroporto mais real
ideias aviões que voam
aviões mais aves do que as aves
aves imitações dos aviões
um ser metálico a mais funda das humanas ambições
a mais humana a maior criação
motor metálico essa crente essa crível criação
crise do homem sua menos frágil mais fremente afirmação
metal mecânico mais quente coração
Há vários aviões que vários vão
que várias vezes vão
Há aviões às vezes que levantam voo
inconcebíveis aviões emersos da imaginação
inconcebíveis e por isso concebíveis
concebíveis na estrita medida em que inconcebíveis
aviões impossíveis mais reais do que os reais
perfeitos pássaros provindos da cessante condição
ó aviões antecessores das aves
palavras vindas de étimos das quais os étimos dimanam
movimento de mãos produtoras das próprias produções
umas mãos que ao mover-se movimentam
criaturas que incríveis criam coisas suas criadoras
aves imitação dos imitados aviões
natureza nascida onde visivelmente nasce a vida
aviões aos quais a ave deve o voo
aviões naturais e aves artificiais
o em princípio mais pelo em princípio menos produzido
o mais o menos
o menos máximo o muito mais
aviões aves vivas que vos levantais
do aeroporto da imaginação
Não fosse o coração muito metálico que muito mais sofria
quem verdadeiramente não podia sofrer mais
Emudece ó amigo deixa os aviões
deixa a imaginação o único aeroporto
regressa à vida que visível mais nos minerais
origina a verdade apenas vista nos jogos verbais
de quem é na imaginação que tem os aeroportos mais internacionais
Oxalá eu este insensível eu sentisse o que decerto sentem
essas coisas sensíveis e sentimentais
que são os impassíveis implacáveis minerais
Friday, January 08, 2010
Sunday, January 03, 2010
Nevou. Pelo caminho a estrada tornou-se uma pista, escorrega intransitável. Irreconhecível. Todas brancas: as placas, as árvores, as bermas. O contorno avolumou deixando-se indefinido. A neve caía na frente; vista do carro dir-se-ia que vinha em sentido contrário, sem chocar.
A estrada um enxame aberto, lácteo. Magia branca.
Não tirei fotografias, só mais tarde à chegada
As traseiras, na noite do ano velho
O frontispício na noite, no dia um
Thursday, December 24, 2009
(tejo é o que chamavam ao rectângulo onde cristalizava o sal)
Este assim era o presépio típico de Olhão. Dia oito de Dezembro, dia da mãe, plantavam-se as searinhas de trigo. Armava-se o presépio com o Menino no alto dos degraus de linho. Enfeitava-se com laranjas, tangerinas e com as searas que iam crescendo.

Uma noite feliz
Monday, December 21, 2009
Thursday, December 03, 2009
Wednesday, December 02, 2009
Friday, November 27, 2009
Sunday, November 22, 2009
http://www.youtube.com/watch?v=VnoWS3uFBt4&hd=1
A 22 também, de 1901, nasceu Joaquín Rodrigo - Marquês dos Jardins de Aranjuez
http://www.youtube.com/watch?v=J29k1LtHq9M
Friday, November 20, 2009
Friday, November 13, 2009
7 de Novembro - Eclipse total da lua. Passou diante dela a terra ou coisa assim, grossa e opaca. Enquanto a via desaparecer aos poucos por detrás dessa invisível mão que a tapava, comecei a pensar cá em baixo. O que seria a vida sem ela, sem essa quimera de luz que mora lá na distância do sonho. Lá, onde desfeito e vago, em astro frio, iluminado de saudade, eu quero ir morar depois disto.
Miguel Torga. Diário I.
Wednesday, November 11, 2009

"Aprendemos o modo específico de progredir em direcção à atitude crítica , ao mais antigo, de onde brota o que vem depois. Aprendemos a levantar cedo e a conhecer o curso da história. Aprendemos o que é obrigatório no caminho do primordial para o real. Aprendemos o que digerir. Aprendemos a organizar o movimento através dos contextos lógicos. Aprendemos lógica. Aprendemos o que é o organismo. O relaxamento das relações de tensão é uma consequência de tudo isso. Nada de exagerado; tensão no interior, atrás, em baixo [tensão inferior]. Calor apenas por dentro. Interioridade.
(…)
É difícil contar com o inesperado. E, no entanto, sendo o condutor em pessoa, o génio está sempre um passo à frente. Salta adiante, seja na mesma direcção ou noutra. Talvez já esteja hoje numa região que quase ninguém imagina. Pois o génio costuma ser, para o dogma, um herege. Não possui nenhum princípio além de si mesmo.
A academia silencia acerca do conceito de génio conscientemente, com um respeito discreto. Ela o guarda como um segredo que, retirado do seu estado latente, talvez fosse questionado de modo ilógico e tolo.
O que resultaria em revolução. Perplexidade gerada pelo espanto. Indignação e exílio: Fora o criador de sínteses! Fora o totalizador! Nós [os analíticos] somos contra! E então as ofensas em profusão: Romântico! Cósmico! Místico! Sim, no final seria preciso chamar um filósofo, um mágico!"
Paul Klee. Sobre a arte moderna e outros ensaios.
Friday, November 06, 2009
"O pensamento mágico não é uma estreia, um começo, um esboço, a parte de um todo ainda não realizado; ele forma um sistema bem articulado; independente, nesse ponto, desse outro sistema que constitui a ciência (…). Portanto, em lugar de opor magia e ciência, seria melhor colocá-las em paralelo, como dois modos de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (…), mas não devido à espécie de operações mentais que ambas supõem e que diferem menos na natureza que na função dos tipos aos quais são aplicados."
Pensamento Selvagem. Lévi-Strauss.
"Diante de alguns factos inexplicáveis deves tentar imaginar muitas leis gerais, em que não vês ainda a conexão com os factos de que te estás ocupando e de repente na conexão imprevista de um resultado, um caso e uma lei, esboça-se um raciocínio que te parece mais convincente do que os outros. Experimentas aplicá-lo a todos os casos similares, usá-lo para daí obter previsões, e descobres que adivinhaste. Mas até o fim não ficarás nunca sabendo quais predicados introduzir no teu raciocínio e quais deixar de fora. E assim faço eu agora. Alinho muitos elementos desconexos e imagino as hipóteses. Mas preciso imaginar muitas delas, e numerosas delas tão absurdas que me envergonharia de contá-las."
Umberto Eco. O nome da Rosa
Thursday, November 05, 2009
Saturday, October 31, 2009
Monday, June 15, 2009
E é assim que a poesia é luz, pesando. Será?
"Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca"
Mário Cesariny. Pena Capital
Wednesday, April 22, 2009
Emparedemos todas as palavras dadas
prendamo-las entre quatro ventos cardeais
ocultas em florestas de luzes boreais
nevoeiros
nebulosas ionizadas
Sepultemo-las
em terras fertilizadas
dentro de bolbos, grãos, sementes gotas cristais
entranhadas em lençol d’águas primordiais
tintas de terra verde
de ocre douradas
Onde nadam os cristais
discos sóis raias no fundo
as palavras decompostas saturem em cores o mundo
Friday, April 17, 2009
Friday, March 06, 2009
A vinte e sete do mês passado assinalou-se o dia de aniversário de Ruy Belo, que diz amar as árvores - "eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros"
Simetria vertical - inversão
"Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam (...) "
Ruy Belo
Simetria horizontal - retrógrado
" (...) os cadáveres das aves, flutuando no mar, nem sempre são devorados imediatamente; ora, um grande número de sementes pode conservar-se por muito tempo no papo das aves que flutuam. Assim, as ervilhas e ervilhacas morrem após alguns dias de imersão em água salgada, mas, para grande surpresa minha, algumas destas sementes, tiradas do papo de um pombo que tinha flutuado em água salgada durante trinta dias, germinaram quase todas"
Charles Darwin
Nem será preciso referir que a vinte e quatro do futuro mês de Novembro, se assinalarão cento e cinquenta anos passados sobre a primeira publicação do livro "a origem das espécies" (de onde tirei este excerto) de Charles Darwin; não se fala de outra coisa.
Saturday, February 07, 2009
Wednesday, February 04, 2009
Friday, January 23, 2009
Quem furou o osso de urso da flauta do homem de neandertal? O urso não foi. O osso evoluiu sem custo. O homem causou um efeito na evolução, gratuito, artificial.
Passaram as estruturas dos fémures de urso a desenvolver-se com quatro orifícios? Claro que não, os ursos nem tocam flauta. Passaram todos os homens a caçar ursos para furar o osso em alturas de som? Não me parece.
O homem interfere individualmente e artificialmente na evolução. Aprende só.
As considerações que aqui faço são superficiais. Faltam imensos bancos de dados, imensas cadeias de tempo discreto. Considerações muito mais superficiais do que as que levaram o homo a furar o osso.
Monday, January 19, 2009
Edgar e Eugénio 19 de Janeiro
“ O que mais me assombrou no aspecto das coisas situadas por baixo de mim foi a aparente concavidade da superfície do globo. Eu esperava estupidamente que a sua convexidade real se manifestaria cada vez mais à medida que a altura aumentasse. No entanto, alguns segundos de reflexão bastaram-me para compreender este contra-senso.
Uma linha traçada perpendicularmente do ponto em que eu me encontrava até à Terra formaria a perpendicular de um triângulo rectângulo cuja base se estendia em ângulo recto até ao horizonte, e a hipotenusa, do horizonte até ao ponto ocupado pelo meu balão. Mas a altura em que eu estava nada significava comparativamente à extensão abarcada pela minha vista. Noutros termos: a base e a hipotenusa do suposto triângulo eram tão longas em relação à perpendicular que podiam considerar-se como duas linhas quase paralelas.
(…)
Daqui a impressão de concavidade; e esta impressão teria de durar até que a altura se encontrasse, relativamente à extensão da perspectiva, numa proporção igual, isto é, até que o aparente paralelismo da base e da hipotenusa desaparecessem.
Entretanto, como as pombas pareciam sofrer horrivelmente, resolvi pô-las em liberdade”
Eugénio de Andrade. Limiar dos Pássaros
“Desta cal de homem rompe a lua
de sol extenuada
ergue-se de gume em gume e cai
no espelho a prumo das espadas”
Rente à Fala
"Ver chegar o dia mesmo que fosse a noite
era bom tão cedo ver a terra limpa
os pombos bravos o peito cor de vinho
o cheiro doce dos figos o brilho duro
da cal trazido pelo vento o marinheiro”
Saturday, January 17, 2009
(exorta José Saramago no seu blogue)
Eu diria que lá, não encontraria nada. Onde foi a consciência, a consciência colectiva? Onde foram os memes menos egoístas que os genes? Onde pararam esses campos mórficos de solidariedade, fraternidade, reciprocidade?
Nos campos colectivos tarde ou cedo levamos na tromba, concentramo-nos então nos genes, egoístas. No salve-se a nossa espécie de genes, defendamos a nossa pele.
E quem quer levar, não na tromba, mas na consciência? Vai vazia.
(Como se vê, para quem escreveu não há muito tempo que importante é acreditar nos homens, a minha consciência vai mal, vazia)
Tuesday, January 13, 2009
Khachaturian, assim como Prokofiev e Shostakovich, foram acusados (em 1948) pelo regime soviético, de formalismo, de formalistas. Que o formalismo era antinacionalista, que os formalistas apagavam a expressão da emoção do povo.
Essa confusa distinção bifurcada entre nacionalismo e formalismo já aqui havia sido notada por Lopes-Graça na década de 30 (1934)
Lembro as palavras, escritas numa publicação periódica da altura (julgo que na "República") republicada depois em livro - " A caça aos coelhos e outros escritos polémicos".
"Segundo o conspícuo autor do Rouxinol cativo, existem duas correntes bem demarcadas no campo da estética musical, tanto no estrangeiro como em Portugal: o «nacionalismo» e o «formalismo», este preconizado no ensino oficial, aquele defendido por «actividades extra-oficiais». Os «formalistas» são os homens da música pura, isto é: «a música fora do tempo e do lugar...construída geometricamente...sem literaturas, sem paisagem...em que não existem estados de alma, mas somente obediências às leis de certas e determinadas lógicas formais»; os «formalistas» são, em suma, «os amigos da Sonata», para quem a «forma» é «tudo». Os «nacionalistas», pelo contrário, «pretendem dar à música o sentido do lugar, do tempo e da vida» (sic); para estes, a música não é um fim, mas antes um meio: eles «servem-se do som musical para exprimirem estados de alma comuns à raça, fixando o colorido especial das paisagens.»
(…)
Basta, que é demais.
Os leitores já viram, certamente, o caótico, o disparatado, o absurdo, o burlesco de tudo isto.
(…)
O menos culto estudantinho do 6º ano do Liceu sabe, porque isto é elementar, que, em Estética, o que se opõe ao Formalismo não é o Nacionalismo, mas sim o Conteudismo; e que o contrário do Nacionalismo não é Formalismo, mas…Universalismo. Que Formalismo e Conteudismo dizem respeito à estrutura íntima, ao processus ideativo da obra de arte; ao passo que Universalismo e Nacionalismo se referem ao seu carácter externo, ao seu successus representativo. Que, portanto, pode haver - e há, de feito - obras de estrutura formal e carácter nacional, e obras de estrutura conteudista e carácter universalista. Pelo que o Formalismo não é, de maneira alguma, adstrito ao Universalismo, assim como o Conteudismo não é pertença exclusiva do Nacionalismo.
(….)
Conteudismo e Formalismo não se excluem, não se repelem mutuamente, pois que não é fácil conceber um conteúdo sem um esboço de forma, assim como não existe, decerto, uma forma sem um mínimo de conteúdo. O que há é obras que partem da forma para o conteúdo, isto é: em que este se subordina àquela; e obras que partem do conteúdo para a forma, isto é: em que aquele determina esta.”
Sunday, January 11, 2009
Monday, January 05, 2009
O Bloqueio
Princípio antrópico teleológico
(1982/ Frank Tipler)
Na Terra preside um processamento de inteligência de informação que tem como regulador de ordem o ser humano. A nós, atribuímos juízo - percepção, apreensão, aprendizagem, adaptação, decisão, correcção.
Se o juízo tivesse emergido na Terra, a guerra não ganharia pontos com o medo, a impotência, a dor o desespero e a morte.
Que se ganhassem pontos de guerra lutando pelo bem-estar da outra facção; que se ganhasse informação inteligente nos códigos de outros grupos.
O que nos faz inteligentes? Diferimos dos alfas na luta pelo domínio?
A nossa inteligência revela-se artificial e sem capacidade de reprogramação.
Friday, January 02, 2009
«Diz-se que todo o estrangeiro poderá encontrar em Sintra um pedaço da sua pátria. Eu descobri aí a Dinamarca. Mas julguei reencontrar muitos pedaços queridos de outras belas terras...». Disse Christian Andersen.
Pois ontem, e porque Sintra transpira, encontrei a estepe de Tchekhov.
"Deslizam sobre as planícies largas sombras, como nuvens no céu, e, na inverosímil lonjura, se se olha muito tempo para elas, elevam-se imagens vaporosas e fantásticas que se acumulam umas sobre as outras...
Caminha-se uma hora, duas horas... Encontra-se um velho e misterioso túmulo, ou uma estátua de pedra posta ali, Deus sabe quando e por quem; uma ave nocturna voa silenciosamente por cima da terra e, pouco a pouco, as lendas das estepes, as narrativas daqueles que por ali passam, os contos das velhas amas oriundas das estepes e tudo aquilo que aprendemos por nós próprios e entesouramos na alma, nos vem à cabeça. E então o zumbir dos insectos, as figuras suspeitas e os túmulos, o azul do céu, o luar, o voo duma ave nocturna, tudo quanto se vê e ouve, começa a parecer-nos o triunfo da beleza"
Wednesday, December 31, 2008
Monday, December 29, 2008
hipocampo e amígdala
A amígdala, um laboratório onde se memoriza emoção; o hipocampo, um laboratório onde se aprende memória. Elipse de confiança, um gráfico para interpretar resultados em programas interlaboratoriais.
Wednesday, December 24, 2008
Monday, December 22, 2008
Wednesday, December 17, 2008
Monday, December 15, 2008
Wednesday, December 10, 2008
Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. "
Monday, December 08, 2008
Friday, December 05, 2008
Wednesday, November 26, 2008
Sei pai, que nasceste no Algarve, mas sempre me disseste que querias morrer no Alentejo, sozinho com um cão. Morreste aqui, comigo ao lado.
Sei, não, não sei, se aí há palavras, espero que não, quem descansaria?
Mas canto, canto talvez aí chegue, a música não é daqui.
Um abraço, parabéns pelos teus setenta anos.
Sunday, November 16, 2008
Tuesday, November 11, 2008
Monday, October 27, 2008
A murmurar...
E altas canções,
Vindas no fresco Zéfiro do mar....
in Senhora da Noite, Teixeira de Pascoaes
À Chloris (Reynaldo Hahn)
Descobri-a há uns meses, aqui, através da blogosfera.
Aos meus ouvidos, é extraordinariamente bela. Sendo imitação ou homenagem ao período barroco, não deixa de ser um surpreendente fresco.
Friday, October 24, 2008
Animo-me com este cinema desenhado pelas linhas das danças eslavas, a nº7, op.46, de Dvorak. De Bruno Bozzetto, uma caricatura do comportamento humano - a galinha da vizinha não será melhor que a minha - seguidismo ma non troppo.
Friday, October 17, 2008
Não há quem não saiba que não é uma soma de grandezas físicas, mesmo que estas se pudessem medir com exactidão.
Que não é porção misturada, que não é replicação transcrição e tradução de informação, que não é banco de dados de experiências dentro de conhecimento a priori.
Não há ser que não saiba que não sabe o que é.
O que é o homem da mão e da voz.
Wednesday, October 15, 2008
30 anos
Toi
Toi si tu étais le Bon Dieu
Tu ferais valser les vieux
Aux étoiles
Toi
Toi si tu étais le Bon Dieu
Tu allumerais des bals
Pour les gueux
Toi
Toi si tu étais le Bon Dieu
Tu ne serais pas économe
De ciel bleu
Mais
Tu n'es pas le Bon Dieu
Toi tu es beaucoup mieux
Tu es un homme
Tu es un homme
Tu es un homme.
Sunday, October 12, 2008
Discover Gavin Bryars!
Ouvi isto uma primeira vez à entrada do Cabo da Roca, “Donde a Terra se acaba e o mar começa”. Assim, com aquela imensidão de mar muito maior que a orquestra, e por isso, com esta voz muitíssimo mais só.
Em casa, depois, pude perceber que se tratava de uma gravação recolhida à voz de um sem abrigo numa das ruas de Londres.
Parece o outro lado da história da menina dos fósforos. Cada mantra, cada frase repetida, é como um fósforo que a menina acende.
O velho sem abrigo também morreu na rua, sem ter chegado a ouvir a gravação e a remistura.
Friday, October 10, 2008
O texto entretece urdiduras poéticas verticais, a teia da tela, com o fio da trama em linhas de riso de bergson - “anestesia momentânea do coração”.
As frases sucedem-se com picos de grave ao agudo, sem respiração. Oscilam com a palavra e o palavrão, com a introspecção e a insignificância mordente. Agilidade é o que se pede aos actores. Na minha opinião conseguiram dizê-las sem que se ouvissem as mudanças de registo. Cabia aos espectadores escolher um registo, ou, o que me parece que foi conseguido, ouvir em estereofonia. Escrita ágil, sim, foi o que me pareceu. Quanto à grande forma, não me pareceu tão bem conseguida, muito mais frágil. As ligações entre épocas e personagens pouco consistentes, uma espécie de truque de dramaturgia, truque e não magia.
A tonalidade lembrou-me a da casa de Bernarda Alba, a dominante, o filme Agnes de Deus.
Informações aqui
Sunday, October 05, 2008
Ponho aqui a voz do padrinho. Dizem que um alentejano nunca canta só, não imaginariam que viesse a cantar fado.
Discover Antonio Zambujo!
Bem-vinda menina rama, que fortaleças com madrepérola
Wednesday, October 01, 2008
Monday, September 29, 2008
Friday, September 19, 2008
Pediu-me a filha mais nova enquanto ouvíamos na rádio, no carro, uma entrevista a José Saramago. À pergunta - como gostaria de ser lembrado? - Respondeu que como quem escreveu a cena da mulher do médico sentada com um cão que lhe bebe as lágrimas. Referia-se ao ensaio sobre a cegueira e acrescentou que assim como aquela mulher tentou salvar aquele grupo e se sente impotente, o cão se sente impotente com a sua tristeza e lhe bebe as lágrimas.
O Zé Aramago, José Saramago, a humanidade, a mulher e o cão; o Nobel está agora n"a página infinita de internet"
Monday, September 08, 2008
Cubismo
Na forma facetada Braque, na fragmentada Stravinsky, estilhaçada Picasso.
Volumes decompondo planos.
"Quatre tendances se sont maintenant manifestées dans le cubisme tel que je l’ai écartelé. Dont, deux tendances parallèles et pures.
Le cubisme scientifique est l’une de ces tendances pures. C’est l’art de peindre des ensembles nouveaux avec des éléments empruntés, non à la réalité de vision, mais à la réalité de connaissance. Tout homme a le sentiment de cette réalité intérieure. Il n’est pas besoin d’être un homme cultivé pour concevoir, par exemple, une forme ronde. L’aspect géométrique qui a frappé si vivement ceux qui ont vu les premières toiles scientifiques venait de ce que la réalité essentielle y était rendue avec une grande pureté et que l’accident visuel et anecdotique en avait été éliminé.
Les peintres qui ressortissent à cet art sont : Picasso, dont l’art lumineux appartient encore à l’autre tendance pure du cubisme, Georges Braque, Metzinger, Albert Gleizes, Mlle Laurencin et Juan Gris.
Le cubisme physique, qui est l’art de peindre des ensembles nouveaux avec des éléments empruntés pour la plupart à la réalité de vision. Cet art ressortit cependant au cubisme par la discipline constructive. Il a un grand avenir comme peinture d’histoire. Son rôle social est bien marqué, mais ce n’est pas un art pur. On y confond le sujet avec les images.
Le peintre physicien qui a créé cette tendance est Le Fauconnier.
Le cubisme orphique est l’autre grande tendance de la peinture moderne. C’est l’art de peindre des ensembles nouveaux avec des éléments empruntés non à la réalité visuelle, mais entièrement créés par l’artiste et doués par lui d’une puissante réalité. Les œuvres des artistes orphiques doivent présenter simultanément un agrément esthétique pur, une construction qui tombe sous les sens et une signification sublime, c’est-à-dire le sujet. C’est de l’art pur.
La lumière des œuvres de Picasso contient cet art qu’invente de son côté Robert Delaunay et où s’efforcent aussi Fernand Léger, Francis Picabia et Marcel Duchamp.
Le cubisme instinctif, art de peindre des ensembles nouveaux empruntés non à la réalité visuelle, mais à celle que suggèrent à l’artiste, l’instinct et l’intuition, tend depuis longtemps à l’orphisme. Il manque aux artistes instinctifs la lucidité et une croyance artistique ; le cubisme instinctif comprend un très grand nombre d’artistes.
Issu de l’impressionnisme français ce mouvement s’étend maintenant sur toute l’Europe."
Apollinaire, les Peintres cubistes
À Mademoiselle Yvonne M...
Yvonne sérieuse au visage pâlot
A pris du papier blanc et des couleurs à l'eau
Puis rempli ses godets d'eau claire à la cuisine.
Yvonnette aujourd'hui veut peindre. Elle imagine
De quoi serait capable un peintre de sept ans.
Ferait-elle un portrait ? Il faudrait trop de temps
Et puis la ressemblance est un point difficile
À saisir, il vaut mieux peindre de l'immobile
Et parmi l'immobile inclus dans sa raison
Yvonnette a fait choix d'une belle maison
Et la peint toute une heure en enfant douce et sage.
Derrière la maison s'étend un paysage
Paisible comme un front pensif d'enfant heureux,
Un paysage vert avec des monts ocreux.
Or plus haut que le toit d'un rouge de blessure
Monte un ciel de cinabre où nul jour ne s'azure.
Quand j'étais tout petit aux cheveux longs rêvant,
Quand je stellais le ciel de mes ballons d'enfant,
Je peignais comme toi, ma mignonne Yvonnette,
Des paysages verts avec la maisonnette,
Mais au lieu d'un ciel triste et jamais azuré
J'ai peint toujours le ciel très bleu comme le vrai.
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)
Monday, August 11, 2008
Fouetté
"Num movimento relativamente brusco, os músculos da perna de apoio contraem-se de forma a impulsionar o corpo na direcção superior, levando à extensão dessa mesma perna. É nesta altura que o pé sofre uma flexão plantar severa que, com o calçado adequado, resulta no em trabalho de pontas. Simultaneamente, a perna de trabalho, sem se mover do plano frontal, flecte até que o pé de trabalho, em flexão plantar, atinja a altura do joelho. O ângulo formado depende portanto da altura de perna do executor. Ao atingir esta posição, o executor deve rodar para o lado da perna de trabalho (todo o corpo roda segundo o eixo longitudinal), cerca de 315º – ou seja, quase uma volta completa. Ao atingir os 315º, a perna de trabalho deve rodar segundo o eixo transversal até ser atingida a flexão do membro inferior como um todo, rodado para o plano frontal, altura em que a rotação de 360 é completada. Nesta altura, o pé de apoio deve retornar à posição de preparação (rodado de 90º lateralmente segundo o eixo longitudinal, estando alinhado segundo o plano frontal), e deve repetir o plié (na perna de apoio), de forma a amortecer a queda."
Rute M. Baptista. Disciplina de biomecânica do movimento.
Wednesday, July 23, 2008
"ou seja, gato vivo mais gato morto juntamente com a pessoa com a percepção do gato vivo mais a pessoa com a percepção do gato morto, mais gato vivo menos gato morto juntamente com a pessoa que tem a percepção do gato vivo menos a pessoa com a percepção do gato morto. É apenas um pouco de álgebra."
O grande, o pequeno e a mente humana. Roger Penrose. Gradiva
Tuesday, July 08, 2008
Monday, July 07, 2008

Não é só o balcão do Salão Nobre do Conservatório que está a cair. Por cima desta clarabóia, no corredor em frente à sala 231, caiu uma "não acaba a primavera". Acudam ao verão, façamos uma petição. Eu sei, com coisas assim não se brinca. Mas não pude deixar de reparar (e tirar a fotografia com o telemóvel)
Thursday, July 03, 2008
"Poética da música"
Sob a influência de Wagner, as leis que defendem a vida do canto foram violadas e a música perdeu o seu sorriso melódico.
Pág 85(.)
Resumindo: O que é importante para a ordenação lúcida do trabalho - para a sua cristalização - é que todos os elementos dionisíacos que põem a imaginação de um artista em movimento e fazem revigorar a seiva da vida têm de ser devidamente dominados antes que nos intoxiquem, e devem, finalmente ser feitos para se submeterem à lei: Apolo exige-o.
Pág.108(..)
Parece que a unidade que procuramos é forjada sem o sabermos e estabelece-se dentro dos limites que impomos sobre o nosso trabalho. Quanto a mim, se a minha própria tendência me leva a procurar a sensação em toda a sua frescura, rejeitando o entusiasmo, o lugar-comum - o ilusório, numa palavra -, estou, no entanto, convencido de que variando constantemente a procura se acaba apenas em fútil curiosidade. É por isso que acho inútil e perigoso aperfeiçoar em demasia as técnicas da descoberta.
Uma curiosidade que é atraída por todas as coisas revela um desejo pela tranquilidade na multiplicidade. Ora este desejo nunca pode encontrar uma verdadeira nutrição na variedade interminável.
Ao desenvolvê-la, adquirimos apenas uma falsa fome, uma falsa sede: são de facto falsas porque nada as pode saciar. Quanto mais natural e mais saudável é lutar para uma realidade única, limitada, do que para uma divisão interminável."
Pág.184(...)
Poética da música. Igor Stravinsky. Publicações Dom Quixote.
Friday, June 27, 2008
Estou há uns dias aqui, ainda não está muita gente. As ilhas estão cheias de areia sem sombras.
A Deserta, o Farol e os Hangares, a Culatra ou a Armona; todas elas têm a ria no cais e o mar nas traseiras. À noite estão repletas de estrelas, passear no pontão da Ilha do Farol por cima do Oceano é como caminhar na via lenta da História, na via rápida da luz.
Friday, June 20, 2008
(22), (30), (18), (4) entradas registadas nestes anos.
Reformular-me, achei que era isso que faria, escrevendo. Que tinha ideias arrumadas sem ter retido o percurso, que tinha preguiça mental, escrever ajudaria.
Totó, escrever ajudaria.
Que agora tenho ideias desarrumadas, percursos retidos, mas vários para a mesma ideia, desvios desvario mental; imaginação fixa.
Não, não é um discurso de "porque é que eu tenho um blogue?", é - porque tenho um blogue com tão poucas entradas? Escrevi menos para menos ao longo do tempo.
Mas fiz um curso de escrita criativa! Não me saí muito bem, fui a pior, para ser mais correcta. Aquilo era expressão plástica escrita; escreve sem erres, reconta sem és, utiliza cem palavras. A três palavras dadas, acrescenta cinco tuas, e mais três dadas, e mais cinco, dez, vá lá, dez tuas para acabar. Que tenha sentido, a história. Chiça, e isto com limite de tempo. Hei-de lá voltar.
Friday, June 13, 2008
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Tuesday, April 29, 2008
Dança sobre óleo
" Dançam sem música, pisando no profundo silêncio de África como numa carpete.O seu movimento é lento, precavido, não as ouviríamos ainda que dançassem entre sinos. São de sombra. De uma sombra ardente e dura, já para sempre colada ao metal recto dos seios, à força de pedra de todos os membros. Alimentam a dança com vozes internas, gastrálgicas, e o ritmo torna-se leve, de frenesi. Os calcanhares atingem o chão com pesado fulgor: impele-as uma gravitação sem sentido, um ditado irascível. Os seus corpos negros brilham de suor, como móveis molhados; as mãos erguendo-se, sacodem o som dos braceletes "
Pablo Neruda. Nasci para nascer.
Monday, April 28, 2008
Cores das florestas e dos frutos das aves ou da pele encontrava-as nos nomes.
Nomes, nomes de madeiras, de utensílios, das estações em cultivo, dos panos de velas, dos cabos e correntes do mar, das terras, das pedras. Quando não os reconhecia sabia que ali escrito não tinha estado ninguém.
Se eu soubesse nomear tudo não sobrava nada, como se tivesse em mim ligações ao mínimo múltiplo raiz.
As coisas não se importam :) Falar é humano.
Sunday, April 13, 2008
SAMUEL BECKETT13 de Abril 1906 - 22 de Dezembro 1989
VLADIMIR Vamos esperar para ver o que é que ele diz.
ESTRAGON Quem?
VLADIMIR O Godot.
ESTRAGON Boa ideia.
VLADIMIR Vamos esperar para saber exactamente em que pé estamos.
ESTRAGON Por outro lado talvez não fosse mau malhar o ferro enquanto está quente.
VLADIMIR Estou com curiosidade para saber o que ele tem para nos oferecer. Depois, ou pegamos ou largamos.
ESTRAGON O que é que nós lhe pedimos exactamente?
VLADIMIR Não estavas lá?
ESTRAGON Não devia estar a ouvir.
VLADIMIR Oh... nada de concreto.
ESTRAGON Uma espécie de oração.
VLADIMIR Precisamente.
ESTRAGON Uma súplica vaga.
VLADIMIR Exactamente.
Samuel Beckett. À espera de Godot; Livros Cotovia, pág 27
Reposição da peça "Começar a Acabar" na sala estúdio do Teatro Nacional D. Maria II até dia 1 de Junho. João Lagarto encena e interpreta. Sinopse e biopse aqui : http://www.teatro-dmaria.pt/Temporada/detalhe.aspx?idc=845
Hoje em vez de Beckett fui ver Barker, "O ladrador do teatro"
"Tio Vânia, escrito em 1991, é livremente inspirado na conhecida obra de Tchecov. Na peça de Barker, as personagens libertam-se de um criador que as sufoca. Reclamam direito de exercer a sua vontade, subtraindo-se desta forma à paralisia a que Tchecov as condenou. A fatalidade do seu destino humano, presente no texto original do dramaturgo russo, é completamente despedaçada na versão de Barker"
Saturday, December 22, 2007
As outras coisas, não se importam. À nuvem podemos chamar-lhe carta ou canoa. Ao rio, rua do nilo. Rei ao sol, lua à lagoa, caravela à planta do mar. Epifania ao vento ou qualquer outro lugar. As coisas não se fizeram palavras.
(...)
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
Natal à Beira-Rio. David Mourão-Ferreira
O Clavis David. À nuvem podemos chamar-lhe epifania, menino mitra, luz poesia, lagoa ou mar ou qualquer outro lugar.
Monday, December 10, 2007
Quente foi o que Olga Prats serviu num intervalo de três séculos e meio, transposto a piano aumentado. (O som é movimento material, transporta energia)
Parabéns Olga pela carreira que a fez tão grande.
Lembro-me que a Olga Prats levou, ou deixou que levassem, o seu piano à casa onde vivi, a dos mil colchões. Levou-o mais de uma vez, e de cada uma dessas vezes tocou no hall para seiscentas crianças que mal conheciam o mar. Eu, que ali vivia todo o ano, o que mais me empolgava era a chegada do piano. Vê-lo com as pernas no ar, adivinhar qual delas tocaria primeiro o chão, que som produziria. Do repertório, não me lembro; sei que não eram as canções do livro da Raquel Simões, que eu aprendia na escola primária.
Os seiscentos meninos sossegavam encantados. (Gostava que pudessem imaginar a reverberação do hall, e o eco). O som subia às camaratas, atravessava-as e voltava ainda cheio. Mas mais cheio que tudo isso, era a gargalhada da Olga.
Monday, December 03, 2007
Não impinjo a sinopse, lá se vai a minha oportunidade de vaidade. Incorreria na possibilidade de plagiar o co-autor, quem fez a encomenda.
Fiquei a saber que não sou a autora do que escrevi. Passei na SPA (sociedade portuguesa de autores) e quem me atendeu disse que para eles o autor é quem tem a ideia. Não achei graça; até porque lá não se registam ideias. Fez-se-me luz. Inspiram-se na criação divina!
- "Então Deus disse: «Que a luz exista!» E a luz começou a existir. (...) Depois Deus disse: «Que exista um firmamento entre as águas para as separar umas das outras» (...) E assim aconteceu (...) [etecéteras] (...) E Deus achou que tudo aquilo que tinha feito era muito bom (...) Esta é a história da criação...
Aprendi que escrever por encomenda uma ideia, é para cobrar antecipadamente, à linha, ao metro, litro, metro por segundo por segundo.
Monday, November 26, 2007
Quem os trouxe? Dizem que as águas ondulantes do Mediterrâneo os arrastaram das ilhas gregas.
Mas à noite, a geometria fluída precipita-se planificando-se e modelando visões: pardos trapézios, penumbras de chaminés truncadas, negros triângulos, sombras de portas entreabertas. Os arcos das escadas evocam moiras com véus de tule e na luz de raras janelas ondeiam odaliscas com lantejoulas dançando à música do levante.
Avistar as velas na ria, as traineiras na barra e o infinito oceano. Sou menino e do meu mirante avisto um bioco que avista um caíque."
Mirante. Contos de Olhão. Diamantino Piloto
O meu pai hoje faria anos. Também ele tinha um mirante, e o mais alto de Olhão.
Diamantino foi seu amigo e seu professor.
Thursday, November 22, 2007
Passou, felizmente, passou. Ficou sem sequelas, mas foram muitos dias a olhar e esperar. Ela não olhava, fotofobia, ataxia, vómitos e cefaleias. Vinte e dois dias sem comer, e nesta complicação não se melhora gradualmente; se há um dia em que vomita menos, em troca não abre os olhos, ou dói mais a cabeça. Tantas vertigens; acordava a cair, a sonhar que caía. Nunca perdeu a consciência, sabia quantos dias tinham passado, o nome dos médicos e enfermeiros, e perguntou se ia morrer. Disse-lhe que não. Que ia passar, eu sabia; soube quando piorou e soube quando começou a melhorar, apesar de exteriormente nada o revelar.
Agradeço ao neuropediatra José Carlos, nada fez, nada havia a fazer, mas esteve sempre presente.
Agradeço a toda a equipa de pediatria do São Francisco Xavier, e à de Cascais. Foram extraordinários, são todos os dias, extraordinários.
Aconteceu-me não acreditar que já passara. Disseram-me os médicos, que vulgarmente a meningoencefalite originada pelo vírus da varicela desaparece no prazo de seis a oito dias. Passaram vinte e dois, a minha filha também os contava, e acho que por isso, tentei pará-los. Só agora, que ela fez anos, que já engordou oito quilos, que continua esperta como ela é, corre salta e trepa, só agora acredito.
A peça que escrevi vai ser encenada. Para a semana terei a confirmação, mas é quase certo. Na altura não especifiquei porque me pediram segredo; que há muito quem queira roubar ideias. Acho graça, dá um trabalhão escrever ideias. Quando tiver a confirmação, pespego aqui a sinopse.
Wednesday, November 14, 2007
Não é a primeira vez que fazem isto, sair a abraçá-la. Durante este ano esteve internada vinte e dois dias com uma meningoencefalite. Quando saiu do hospital ainda não andava, mas uma semana depois quis voltar à escola. Aí já andava, os irmãos ajudaram-na muito, mas os passos eram curtos, incertos, com os pés a apontar para dentro; o equilíbrio estava ainda comprometido. Foi ela que escolheu a escola em vez da fisioterapia. Saberia que a receberiam assim? Hoje pensei - O que é que eles sabem tão bem?
Sunday, November 11, 2007
Sendo os meus pais técnicos de serviço social, e tendo eu e os meus irmãos vivido dentro do trabalho deles, aprendemos, seguramente, a apagar fronteiras de preconceito. E o preconceito parece começar com a elaboração de grupos. Os grupos são tantos quanto a ignorância diante de cada pessoa.
Aquele é toxicodependente, e falo do Carlos. Ontem ligou-me.
Já aqui falei do Carlos, quando voltei a falar do Zé. Recuperou, desde que o conheço, três ou quatro vezes, e conheço-o há menos de dois anos. Voltou lá com a cabeça, foi dar nela, recaiu. O que o perturba muito mesmo é a companheira, mãe do seu segundo filho; é isso que me vai dizendo.
Conheço-a; visitei-a na prisão de Tires duas ou três vezes. Quando saiu foi para a minha porta (desconfio que é por isto que quase ninguém quer ver ou saber da realidade dos muitos que nos cercam). E conheço também o seu segundo filho, o Fábio que tem três anos.
Ontem o toxicodependente ligou-me e disse com a voz que tem sempre
- Nem vais acreditar; o menino tem um cancro no sangue. Está magrinho e não se lhe pode tocar, fica cheio de nódoas negras.
O menino é igualinho a um menino. Visitei-o em casa da avó. Na verdade fui lá para que a mãe do Carlos abrisse a porta. É que o Carlos tinha partido a murro essa mesma porta na última vez que lá tinha estado. Tinham-se zangado e ele, agora recuperado, queria estar com o seu filho.
Quem abriu a porta afinal foi o irmão gémeo do Carlos, o Paulo que pertence ao grupo dos alcoólicos. Semi-abriu e estava ainda mais assustado do que eu.
Assustei-me ao subir as escadas mais feias que algum dia vi. Assustou-se o Paulo por ver o irmão toxicodependente; por saber que a mãe não o queria ali, não fosse ele querer levar o menino com ele. Por saber que a mãe estava deitada, paralisada do lado direito, consequência de um AVC. Assustado, porque para além de pertencer ao grupo dos alcoólicos, era também responsável por uma mãe acamada e por um menino do grupo dos filhos de seropositivos.
Garanto-vos que o menino é igualzinho a um menino apesar de ainda quase não falar. Garanto-vos que não entendo porque é que o menino subiu as escadas mais feias que algum dia vi. Porque é que um menino que ainda não sabe dizer nada de bom está a morrer.
Tinha escrito isto há dois meses, não cheguei a publicar porque me pareceu que ninguém queria saber disto.
É muito real e está próximo; não é notícia distante nem filme aproximado, não tem plano, nem campo de profundidade. Talvez esteja a ser injusta e preconceituosa. De qualquer forma fica o registo, o Fábio fez quatro anos ontem e morreu ao fim do dia a caminho do hospital. Estou desolada.
Friday, October 19, 2007
Fiquei sem a janela do mar; já não vivo na casa da praia. Agora tenho uma varanda estreita como as varandas; um segmento de prédio à frente, e o mar lá está ao fundo. A paisagem é aguda, gostava de um angulo giro. Do outro lado uma marquise despropositada; em frente uma copa carregadinha. Hoje, por exemplo, vi os pássaros pousarem nas folhas, e foi como se lhes pegasse, tão leves.
Não é a espuma do mar, no meu quintal estendia a roupa ao sol e ao sal. E à noite, já tarde, ouvia as ondas por cima da colcha.
Tinha um jardim com estrelícias , margaridas, zinias e sécias, goivos e lírios. Muitas rosas, hera e vinha virgem. Relva e o mar a dez braças.
Agora são duas varandas [(outra tem - já não tenho a casa da marginal) A vida corre tão mal e eu rio]
Wednesday, October 03, 2007
Thursday, August 16, 2007
Tuesday, July 17, 2007
Saturday, April 07, 2007
“O problema é que temos de encontrar as palavras primas, em sentido matemático; as que só são divisíveis por si mesmas e pela unidade e trabalhar com elas. Estou a ser claro?
- Não muito, o que seria uma palavra prima?
- As palavras essenciais. ”
À Maria Luisa Blanco, conversando com o Lobo Antunes, bem lhe poderia ter ocorrido uma outra pergunta que não – ‘o que seria uma palavra prima? ’- mas sim – qual é a unidade que permite trabalhar com as palavras?
Usava as palavras como quem ouve mas tem um fim.
O meu pai disse-me: - Acredita, não há mais nada. Eu que vim até aqui digo-te, não há mais nada.
Há qualquer coisa em nós de palavra, de incontável. Culpo-as de muito.
Monday, April 02, 2007
Sunday, April 01, 2007
Wednesday, March 07, 2007
Andando o senhor padre-cura de lugar em lugar, em cima da cabeça de Virgílio foi parar. – Para que mentes tu? (pergunto eu a Virgílio, que comecei a melopeia) – E onde estavas tu quando eu menti? ( este é Virgílio a perguntar) – Estava em cima da cabeça de Dante. Cantilena-se outra vez. Andando o senhor padre cura de lugar em lugar, em cima da cabeça de Dante Alighieri foi parar. Agora quem pergunta é Dante, a Virgílio. – Para que mentes tu? – E onde estavas tu quando eu menti? – Estava em cima da cabeça da Dido & Aeneas & Vénus & Mercúrio & Sasha & Guests & etecétera . Também jogavam a esta roda? A estes cantos lúdicos, sentadinhos no chão?
A coreógrafa intentou “unir organicamente” o coro e os bailarinos. Quis também que a música a palavra e a dança se unissem, sem que nenhuma delas tomasse mais espaço.
Gostei da música e na voz, talvez por estar ali em cima. As entradas na água não estavam com as cordas, mas lá dentro era muito bonito. E dançar com silêncio é muito suspenso, na água podemos saber quando vão subir para respirar.
Agora escrevo muitos disparates como se jogasse à cantilena.










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